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O Lado Obscuro da Fama
Ttulo original: DIE DUNKLE SErrE DES RUHMS

Captulo 1

A entrevista terminara: o operador de cmera indicou o final 
com um gesto de mos, o tcnico de som desligou os microfones 
e apagou os trs holofotes. Depois da luz brilhante dos 
projectores restou subitamente uma luz opressiva e plida, na 
qual a vista voltava a demorar-se.
 - Ora a est! - disse uma voz l ao fundo. - Marquem a 
vermelho no calendrio esta meia hora.
Voavam num Being particular de Miami, Florida, para Nassau, 
nas Baamas, e tinham debaixo de si o distante oceano prateado 
e espelhado pela luz do Sol. O avio era um aparelho muito 
especial: daqueles como uma casa equipada com todo o luxo, com 
casa de banho de mrmore, um salo, uma sala de jantar, um 
quarto, dois escritrios, uma cozinha grande e uma sala de 
operaes equipada com os melhores e mais modernos aparelhos, 
desses que qualquer clnica mediana deseja possuir. O pessoal 
estava  altura: dois mdicos: um cirurgio e um clnico 
geral, uma enfermeira, um secretrio, duas 
estenodactilgrafas, dois guarda-costas, trs empregados 
suplementares, junto dos habituais trs homens da tripulao 
no cockpit, que fazem parte do pessoal de um Being. Assim, 
tratava-se apenas do pessoal efectivo e permanente. A bordo 
encontravam-se sempre hspedes. Hoje havia dois embaixadores e 
dois sujeitos muito lacnicos, dos quais um pertencia  
companhia area e o outro era tcnico de exportao.
O prncipe Khalif Omar teen Saud recostou-se na sua cadeira 
giratria e ample e ergueu um copo de sumo de laranja gelado.
Durante o voo, usava apenas as calas e uma camisa de manga 
curta, mas agora, devido  gravao televisiva, vestia o seu 
tradicional julabia de l branca e leve, com entremeios de 
seda, e o hakal levantado dos lados e caido sobre os ombros. 
Tambm havia tirado os seus enormes culos escuros, o que 
raramente sucedia. Na verdade, o mundo inteiro s o conhecia 
de culos... uma cabea estreita com a testa alta, nariz 
aquilino, admiravelmente fino, boca de lbios finos e uma pra 
curta, de plos encaracolados e negros. Khalif era mais alto 
do que a maioria dos seus compatriotas. Era esguio, de 
constituio atltica, educado num colgio interno britnico, 
possuidor de um diploma da Universidade de Harvard e 
licenciado em Direito pela Universidade de Heidelberga. Falava 
fluentemente sete lnguas e desde solteiro que mantinha um 
harm de dezanove mulheres bonitas e selectas. Era famoso pela 
profunda antipatia face  imprensa, rdio e televiso, por 
causa do que se divulgou a seu respeito: tinha uma dama infiel 
no seu harm, que compensava o seu tdio junto de um 
secretrio, saciando a sua fome no seu jardim zoolgico 
privado. Sobre o secretrio ningum disse nada. As leis 
islmicas eram respeitadas, por isso, que havia para discutir 
sobre isso?
 - Satisfeitos? - perguntou Khalif Omar ben Saud.
Saudou-os com o copo, agarrou nos culos escuros e voltou a 
p-los. O sol permanente sobre as nuvens, que o avio 
atravessava, continuava a brilhar e os olhos tinham-se 
acostumado.

Ningum acreditara que esta entrevista alguma vez pudesse 
efectuar-se. Quando Jrome Ballister, o director do programa 
Actual, da cadeia televisiva ACF de Nova Iorque, anunciou a 
ideia estapafrdia de pr o prncipe Khalif frente s cmaras, 
riram-se dele com benevolncia, como se fosse louco. A reunio 
diria da direco da estao televisiva foi favorvel  
proposta de Jrome, porque at o prprio presidente Hunters 
observou:
 -  uma boa ideia. J agora, porque no fazem imediatamente a 
proposta de fotografar o papa na casa de banho? Uma vez que 
Khalif se encontra em Miami e est em reunio com os nossos 
peritos em assuntos petrolferos, claro que no vai haver 
inconveniente (raios o partam!) em deixar, mais uma vez, subir 
em flecha o preo do petrleo, at ns ficarmos desnorteados, 
mas tudo o que vai transpirar da reunio ser anunciado, pelo 
brao direito, pelo porta-voz do prncipe. Ele prprio fica na 
retaguarda, como um segundo Howard Hughsl, s que no to 
bem-humorado como ele. Este Khalif sabe muito bem o que vale 
uma nica palavra sua e o que ns temos de pagar por isso! E 
voc, Jrome, vem com essa conversa e diz com o maior 
-vontade e insolncia: "Temos de entrevistar Khalif!" Essa  
a anedota do sculo!
Ballister deixou que os outros gozassem a sua curta alegria. 
H j nove anos que era director do programa Actual e o 
terceiro brao do presidente Hunters. Dois braos j tinha o 
prprio Hunters, mas o que esses braos no conseguiam 
resolver Ballister oferecia-se para o fazer, como se tambm 
ele auferisse o salrio mais alto de todos os scios da ACF. 
Ganhava menos do que eles. E isso era algo sobre o qual 
ningum falava na ACF, porque no queria venerar-se nenhum 
monumento jornalstico.
 - J acabaram com a gritaria? - perguntou Ballister ao grupo. 
- ptimo! Ento proponho que falem sobre isso com Felicitas!
 - No me faltava mais nada! - gemeu Hunters.
Acendeu um grosso charuto, aps o que trincou com facilidade a 
ponta e depois cuspiu-a para o lado.
 - Jrome,  um facto que Saunders, a sua menina-prodgio, 
consegue muita coisa, mas no que toca a Khalif, vai 
deparar-se-lhe um caso bicudo! Este Saud no  nenhum Sadat, 
nem nenhum Fidel Castro; nenhum Khadafi, nem nenhum Brejnev...
 - Mas Felicitas  uma mulher!
 - Admitamos que  uma mulher e tanto! - Hunters riu com 
gosto. - No entanto, este prncipe do deserto j no tem mais 
mulheres bonitas para fisgar! At tem que chegue para 
oferecer! Jrome, para voc vir com esta proposta, a Saunders 
deve ter algum peso. Seria a primeira derrota dela e Felicitas 
no  mulher para engolir desaires facilmente.
 - J falei com ela! - disse Ballister calmamente. - Vai 
tentar.
- Mas isso devia ela ter-me dito logo! - gritou Hunters. - 
Jrome, voc est a mentir!
 - Felicitas encontra-se  espera na minha sala. Ela est 
disposta a explicar-lhe tudo. No entanto, vai custar-lhe mais 
cem mil dlares.
 - Uma ova! - disse Hunters, rudemente. - Essa Saunders no 
regula bem! Ela j no ganha mais do que o ordenado de trs 
presidentes dos Estados Unidos todos juntos? Era o que 
faltava!

 - A ACF seria a nica cadeia televisiva do mundo a conseguir 
uma entrevista com o prncipe Khalif - prosseguiu Ballister 
sem se impressionar. - E seria um exclusivo. Significaria que 
poderamos vender a entrevista para todo o mundo. Significaria 
que a ACF se tornaria cada vez mais popular junto dos 
espectadores...
 - Cem mil! - resmungou Hunters de mau modo. - Essa Saunders 
devia ficar de rastos!
 - Acha, ento, que ela deve vender a entrevista  ABC?
 - Jrome, voc est a fazer chantagem com a sua prpria 
empresa!
 - S estou a dizer o que cada um de ns j sabe de qualquer 
maneira: Felicitas vai entrevistar o prncipe Khalif. S ela o 
pode fazer; depois vai fixar o preo e todos tm de 
sujeitar-se ao que ela pedir. Portanto, o melhor  ela 
cobrar-nos s os tais cem mil dlares.
 - Estes jornalistas metem nojo! - exclamou Hunters e mordeu o 
seu longo charuto, em vez de o chupar. - Exploram-nos 
descaradamente e no tm vergonha nenhuma! Desprezam os outros 
mortais e tm o que querem de mo beijada! Muito bem, Jrome, 
que venha essa Felicitas! Mas prometo-lhe que vou fazer um 
contrato especial! Se ela no conseguir colocar Khalif em 
frente s cmaras, vai ser ela a pagar-me cem mil dlares.
 preciso conhecer Felicitas Saunders para perceber o que 
ainda h para dizer sobre ela. Aos trinta e sete anos j era 
viva e tinha uma filha de dezassete anos chamada Rosa. 
Felicitas no gostava de falar sobre a morte do seu marido 
Bob, apenas se sabia que ele fora capito da Marinha e havia 
estado no Vietname. Deve ter sido um tremendo choque para ela. 
Era considerada uma das poucas beldades femininas existentes 
sem necessidade de enriquecer diariamente a indstria de 
cosmticos,  excepo do cabelo, que pintou de um tom de 
castanho-arruivado, que brilhava ao sol com reflexos 
acobreados inesquecveis. Em sentido figurado, personificava 
as propores fsicas ideais e, na realidade, irradiava 
seduo. Apesar de tudo isso, depois da morte de Bob, no 
havia homem que pudesse gabar-se de ter obtido dela algo mais 
do que um fugaz beijo na face. Hunters chamava-lhe "a freira 
ertica" e perguntava-se vezes sem conta como era possvel que 
Jrome Ballister se desse to bem com Saunders. Ballister 
tinha o aspecto de uma pessoa medocre; no se parecia, de 
modo nenhum, com um homem de feies marcantes, queixo 
quadrado e ares de super-homem. Jogava golfe em vez de 
futebol, bebia vinho em vez de usque e, aos domingos, ia at 
ao campo para pescar, em lugar de ir at um recinto 
desportivo. De qualquer modo, devia exercer alguma atraco 
sobre as mulheres e era esse o enigma. Era casado h dezanove 
anos com Lora, a cantora estrela da estao concorrente ACI, 
Lora Buster, que podia escolher o homem que quisesse e isso 
seria suficiente para que lhe oferecessem livros de cheques e 
contas bancrias. Mas no, Lora casara-se com Ballister e, o 
que era mais surpreendente e francamente incompreensvel, o 
casamento durava at hoje! Na verdade, Lora tornou-se algo 
histrica ao entrar nos quarenta e no quis aceitar a sua 
inevitvel idade: pintou o cabelo de louro e usava-o como uma 
juba ondulada, mantinha os seios comprimidos e elevados com 
soutiens especiais e andava com passos curtos, equilibrada em 
cima de uns saltos muito finos, como se estivesse prestes a 
iniciar uma competio de dana. No entanto, Ballister 
controlava isso e levava-a sempre a calar as botas de 
borracha para acompanh-lo na sua pesca de anzol domingueira.

Felicitas Saunders veio para o jornalismo por raiva. 
Enfureceu-se por Mao Ts Tung provavelmente fazer uma ideia 
errada acerca da Amrica e conseguiu no s entrevistar esse 
grande chins - um monumento vivo no Imprio do Oriente - , 
como tambm, se bem que parcialmente, faz-lo mudar de 
opinio. Sobre a entrevista, Mao comentou que se todos os 
americanos fossem to bonitos como ela, to inteligentes, to 
simpticos, to conciliadores, ento este nosso mundo 
pareceria outro!
Estas palavras de Mo tornaram-se a imagem de marca de 
Felicitas Saunders. A Amrica inteira j conhecia a sua voz, o 
seu rosto, a sua figura, o seu sorriso e o seu pestanejar. 
Quando se anuncia: "Amana Felicitas Saunders traz at si um 
dos poderosos do mundo", ento as outras estaes de televiso 
rangem os dentes, porque assim a ACF tem a maior taxa de 
audincia e, por consequncia, possui tambm uma maior 
comisso de publicidade.
Hunters perguntava-se muitas vezes por que razo Felicitas 
Saunders continuava na ACF.  verdade que ela era a reprter 
mais bem paga do mundo, mas o que a concorrncia lhe oferecia 
s escondidas para ela sair da ACF excedia mesmo os salrios 
das mais altas esferas de Hollywood. Saunders continuava na 
ACF, deixava-se conduzir por Jrome Ballister, permitia que 
ele a repreendesse e at mesmo nas suas reportagens 
mantinha-se nos bastidores.
 - A minha vida pessoal  para todos um tabu! - dissera 
Felicitas uma vez. - E as pessoas no devem preocupar-se com 
tabus. Tambm no lhe pergunto, Hunters, se hoje traz vestidas 
umas cuecas coloridas. Estamos entendidos?
Claro que estvamos entendidos. A vida de Saunders fora da 
estao j no era tema de discusso. S se sabia o seguinte: 
possua uma vivenda num enomme parque, algures nos arredores 
de Nova Iorque; tinha um carro alemo, um Porsche, e h quatro 
anos havia construdo a sua prpria pista de aviao. Gostava 
de viajar no seu Cessna bimotor, sem destino, apenas por 
prazer, pairando sobre as nuvens, desafiando a fora da 
gravidade.
Nesse dia, o presidente Hunters no fumou o seu charuto e 
tambm no comeu. Felicitas aceitara o desafio: cem mil 
dlares por uma entrevista com o prncipe Khalif. Pagaria 
igual soma a Hunters se falhasse.
 - Qual  a tua tctica? - perguntou Ballister mais tarde, no 
seu gabinete. - No vais conseguir passar pelo secretrio de 
Saud.
 - Vai ser muito fcil - resDondeu-lhe Felicitas. - Beijou 
Ballister na boca, uma vez que j estavam sozinhos. E, no 
fundo, como a prpria Saunders reconheceu, foi uma verdadeira 
surpresa para ambos.
O prncipe Khalif no hesitou quando Lhe comunicaram que 
Felicitas Saunders lhe queria falar. A antipatia pela imprensa 
no impedia que se informasse sobre os meios de comunicao. 
Saud tambm sabia quem era essa Felicitas. H trs meses 
assistira fascinado  sua entrevista com Ara

fat e era capaz de apostar que Arafat tinha aparado a sua 
famosa barba s por causa de Saunders. Ele foi francamente 
amistoso e respondeu a perguntas s quais j se tinha recusado 
a responder a outros jornalistas. Felicitas Saunders no 
mostrou qualquer espcie de medo ou de inibio. As suas 
perguntas foram claras e politicamente escorregadias.
Foi mais por curiosidade face a esta mulher extraordinria do 
que em relao a uma mudana sua de opinio que Khalif acedeu 
de imediato a responder s perguntas de Felicitas e se disps 
a receb-la para ficar esclarecido. Saunders foi surpreendida 
com a ideia dele de uma entrevista acima das nuvens. Ela 
aceitou e aproveitou assim a oportunidade para arrancar uma 
exclamao a Hunters, que em breve se tornaria um clssico:
 - Esta mulher no existe!
Ento, quando a entrevista terminou, o criado serviu bebidas 
geladas e pastis de mel rabes e retirou-se rapidamente. At 
se desmontaram as cmaras e os projectores em poucos 
minutos... ento, o prncipe Saud e Felicitas Saunders ficaram 
a ss, sentados no salo, e miraram-se em silncio por uns 
momentos.
 - Houve muitas coisas que no perguntou, Felicitas - disse 
Khalif subitamente e o seu ingls de Oxford era perfeito. - 
Sempre e apenas o petrleo! Sempre a mesma cantilena de que 
queremos explorar os pases industrializados! Sempre as mesmas 
perguntas sobre as consequncias. Desiludiu-me.
 -  lamentvel, Alteza.
Felicitas sorriu ligeiramente. Recostou-se numa poltrona funda 
e fumou um longo cigarro oriental. Era um tabaco adocicado, 
cujo fumo acariciava a lngua.
 - Mas eu limitei-me apenas a perguntar aquilo que milhhes 
dos nossos espectadores pensam. E o senhor respondeu a esses 
milhhes de pessoas.
 - No me chame Alteza - interrompeu Omar ben Saud. - No  
capaz de me chamar Khalif?
 - Na verdade,  realmente mais fcil.
 - Felicitas, convido-a a ficar comigo nas Baamas.
 - Impossvel. Tenho um emprego difcil.
 - E isso  necessrio?
 - Na minha vida nunca tive nada de bandeja e, alm disso,  
uma coisa que me d prazer.
 - Isso pode mudar. - Khalif ergueu o seu copo de sumo de 
laranja. - A partir de hoje quero oferecer-lhe tudo o que 
desejar e o que at agora era inatingvel. Pea o que quiser, 
qualquer coisa... ser sua.
 - Tambm isso no seria nenhum presente. O senhor quer uma 
compensao. Qual seria o nmero que iria ocupar no seu harm? 
Talvez o nmero quarenta e nove?
 - O nmero um! No, nmero absolutamente nenhum. Voc seria a 
nica mulher no meu corao. Felicitas, porque  to irnica? 
Eu sou um homem de resolues rpidas.
 - J o demonstrou, Khalif.
 - E mantenho-me fiel s minhas decises.
 - Por exemplo: o preo do petrleo!
 - No podemos esquecer isso agora?
 - Como seria possvel? Voc oferece-me uma vida num pas 
encantado. Mas com que meios vai financiar isso? Com os 
milhhes do petrleo. - Felicitas sorriu novamente: - Khalif, 
apesar de no parecer, sou uma mulher muito sensvel. Por cada 
presente seu, seria levada a dizer: outra coisa paga com o 
dinheiro suado do povo, para quem tudo aumenta de preo.

 - Ns, os Saud, no precisamos do petrleo para oferecer um 
paraso a uma mulher. J devia saber disso. - Khalif 
debruou-se, retirou o seu haka por cima do ombro e perguntou: 
- Sou uma pessoa assim to abominvel?
 - Voc  um homem atraente, Khalif, mas isso j  do seu 
conhecimento! No entanto, desconfio dos homens atraentes. No 
so o meu tipo.
 - Deveria, ento, ser bexigoso?
 - Tambm no seria preciso tanto.
Felicitas riu-se. Estava magnfica com as suas calas brancas 
justas e blusa simples e florida. Estava bem vestida e tinha 
boa presena.
 - Khalif, quero regressar a Miami no prximo avio e em 
seguida voltar para Nova Iorque. A ACF est  espera da 
entrevista.
 - Eu compro a ACF inteira! - disse Khalif em voz alta. - Qual 
 a dvida?
 - Nunca o conseguiria.
 - Qualquer pessoa fica fascinada com os nmeros de um cheque.
 - Isso no acontece nem com os accionistas nem com o senhor 
Hunters.
- Depende das circunstncias. Com quinhentos milhhes no me 
parece. - Khalif desenhou, com o indicador, um cinco no ar e 
depois acrescentou oito zeros. Quinhentos milhhes. - Isso 
impressiona, Felicitas.
 - Isso apenas prova que todas as discusses sobre o aumento 
do preo do petrleo representam palavras vs. Voc est em 
cima de montanhas de dinheiro e no sabe o que fazer com ele.
 - No! Para mim, voc vale muito mais do que isso! - Khalif 
juntou as mos como se quisesse fazer uma prece pelo Alcoro. 
- Voc est  apaixonada por outro homem, no  verdade?
 - Exactamente - respondeu Felicitas com simplicidade.
 - Quem?
 - Est realmente  espera de que eu Lhe diga o nome dele?
 - Voc surpreende-me. At agora a grande Saunders parecia 
gelada como um icebergue.
 - Uma pessoa deve exibir o amor na sua frente como se fosse 
um estandarte?
 - Nunca a viram com um homem fora do seu local de trabalho.
 - Isso no quer dizer nada, Khalif.
 - Tem alguma passagem subterrnea que conduza  sua casa? 
Ser que os homens vo ter consigo como se fossem toupeiras?
 - Eu amo apenas um homem, Khalif.
 - Est a ver, esta  uma boa entrevista. Era isto que 
devamos divulgar. Khalif e Felicitas conversam sobre o amor. 
Aposto em como isso interessaria mais aos vossos espectadores 
do que a minha poltica sobre o petrleo!
O prncipe Saud olhou atravs da janela. Estavam a 
aproximar-se de Nassau e a ilha ficava cada vez mais prxima, 
 medida que o Being ia descendo em direco  pista do 
aeroporto.
 - Voc despertou a minha curiosidade - disse ele, pensativo.
 - Pressinto alguma coisa! - Felicitas ficou muito sria. - 
Confesso que foi um erro meu. Um enorme erro e infeliz! Nada 
disto devia ter acontecido. No, comigo! Khalif, voc  um 
cavalheiro! Peo-lhe que continue assim.
 - Quero saber quem  esse homem que voc ama.
-        E que tem voc com isso?

-        Quero examin-lo com ateno e depois perguntar a 
mim mesmo por que razo merece esse homem a maior felicidade 
da terra: am-la! Os mistrios atraem-me. So para mim 
preciosidades arqueolgicas que preciso desenterrar! E por que 
razo ama esse homem, Felicitas?
-        No sei.
-        Por Deus, como no sabe?
-        Se eu soubesse, deixaria de am-lo. O amor no se 
consegue nem explicar nem analisar nem compreender totalmente. 
Se se conseguisse, deixaria de ser amor para passar a ser 
exclusivamente sexo. O sexo  explicvel... por palavras, por 
gestos, por actos, na cama. So sensaes produzidas e 
necessrias.  a realizao de desejos. O amor  algo 
completamente diferente, Khalif.  um mundo interior muito 
prprio, no qual podemos sempre refugiar-nos do mundo 
exterior.
-        E este homem desconhecido  para si o mundo inteiro?
-        Sim!
-        Tenho de v-lo. Preciso fazer isso!
Khalif deu um salto da sua poltrona. Felicitas 
contemplou-o aflita, enquanto ele andava de um lado para o 
outro no salo e batia com os punhos um de encontro ao outro.
-        Khalif, ainda no passou pela experincia de algum 
lhe dizer que no?
-        Assim . - Khalif parou. - O meu adversrio mais 
feroz foi um reformado em Paris. Consegue entender isso? Um 
velho que vivia com seiscentos e cinquenta francos por ms! 
Durante um ms inteiro! Isso  perfeitamente impossvel! 
Contudo, ele vivia e tinha um co que levava a passear com uma 
simples corda. Nem mesmo tinha uma trela de couro. Eu estava, 
por acaso, incgnito no cais em frente  Notre Dame e o 
velhote passou por mim com o co. E, ento, reparei: o co 
tinha um olho de cada cor. O esquerdo era castanho e o direito 
era azul! Um co com um olho azul! Detive o homem e disse: 
"Quero comprar o co!" E o velhote respondeu-me: "No vai ter 
dinheiro que chegue, monsieur!" Eu perguntei: "Quanto ganha 
voc?" E ele respondeu: "Vivo com seiscentos e cinquenta 
francos por ms!" Ento, tirei a carteira e estendi-lhe cinco 
notas de cem dlaras. " pelo co!", acrescentei. No entanto, 
o velhote riu-se e respondeu: "O meu Bolou? Por nada deste
mundo! Separemo-nos, monsieur!" - Khalif respirou fundo: - 
Acabei por ficar com o co dos olhos diferentes. Por um 
milho, duzentos e cinquenta mil dlares! Precisava de ficar 
com ele. E parecia impossvel que um homem velho e pobre me 
negasse alguma coisa. Mais tarde, mandei abater o co. J no 
me interessava. Era apenas uma parte da prova do dinheiro 
ganho. E ele ganha sempre...
-        Isso  um erro, Khalif.
Atravs do altifalante de bordo surgiu o aviso do 
comandante para apertar os cintos. O avio voou em crculos 
sobre Nassau e, em breve, aterraria. Apertaram os cintos e 
sentaram-se muito direitos, em frente um do outro.
-        Sabe o resto da histria, Khalif?
-        Ser que tem um? Dois dias depois regressei ao 
Dubai.

-        O assunto do co, que custou um milho, duzentos e 
cinquenta mil dlares, naturalmente correu o mundo. E  por 
coisas destas que se interessam os jornalistas. Tambm me 
interessei pelo assunto e quis levar o velhote  televiso. 
Chamava-se Jean Gabriel Tissant. Na manh seguinte foi 
levantar o dinheiro todo ao banco, ficou sentado no seu 
pequeno apartamento horas a fio defronte daquela pilha de 
notas, com os olhos fixos no cesto vazio do co e na sua cama, 
onde Bolou ia sempre deitar-se a ressonar alto. Depois, disso, 
 noite deve ter piorado consideravelmente. Tissant 
embriagou-se, mas no conseguiu dormir. Sentia a falta do co; 
estava sozinho, estava perturbado, penetrou subitamente num 
mundo frio! Uma vida sem Bolou, o qual lhe tinha feito 
companhia durante doze anos. Bolou, o eterno fiel! Tinha-o 
vendido por um milho, duzentos e cinquenta mil dlares! Na 
manh seguinte, Tissant dirigiu-se ao Hotel Georges V, onde 
voc estava hospedado na altura, Khalif. Mas agora ningum 
falava com o velhote. Os seus guarda-costas correram com ele, 
como se fosse um mosquito! Tissant ainda chegou a saber que 
tinham matado Bolou e que o haviam levado juntamente com o 
lixo. Por volta das onze horas da manh e, perante muitas 
testemunhas, Tissant saltou para o Sena com uma pedra pesada 
presa ao pescoo. Quando finalmente o conseguiram retirar, j 
era cadver h muito tempo.
Felicita olhou pela janela: estavam prestes a atingir a 
pista do Aeroporto de Nassau, a faixa de cimento abaixo deles. 
Depois, um estremecimento e uns safanes - tinham aterrado.
- Cheguei um dia atrasada a Paris - prosseguiu Felicitas. - S 
consegui ver o corpo do velhote morto...
 - No sabia disso. - O prncipe abriu a fivela do cinto de 
segurana. - Ningum me informou de nada. Tambm no teria 
compreendido.
 - Justamente! - Felicitas ergueu ambas as mos. - Dentro da 
sua cabea no corre sangue, apenas um rio de ouro. Ns os 
dois juntos seramos uma catstrofe! Foi deveras interessante 
conversar consigo, prncipe Khalif.
Ballister foi esperar Felicitas Saunders ao aeroporto de Nova 
Iorque. Parecia muito preocupado: a equipa de reportagem j 
tinha chegado no terceiro voo anterior e apressava-se a 
trabalhar no filme. O operador de cmara dissera que Saunders 
viajara com o prncipe para uma vivenda algures na ilha e 
ningum se tinha preocupado mais com eles; haviam atirado com 
a equipa de reportagem para fora do avio, quase como se 
fossem leprosos.
 - Foi um golpe de mestre - elogiou Ballister, depois de ter 
beijado Felicitas em ambas as faces. - Eu estava em nsias. 
Quando por fim telefonaste de Nassau a dizer que vinhas neste 
avio, at estive para beijar Hunters!
 - V-se logo que s doido! Tinha-vos prometido que nunca 
ficaramos a ss...
 - Estou aqui oficialmente! O carro da empresa est l fora  
espera com o motorista! Como director da estao, ainda posso 
vir esperar a minha reprter mais famosa! Em todo o caso, 
depois desta entrevista, metade do mundo ficou boquiaberto! 
Lici, como consegues simplesmente medir foras com a fama?
 - Ela pode tornar-se um martrio, Jrome! - Felicitas deu-lhe 
o brao e encaminharam-se lentamente para a sada. - Temos de 
ser ainda mais cautelosos.

 - Hoje, Lora d uma festa para antigas vedetas da cano. Ela 
est ocupadissima. Tambm tenho de marcar presena. Seria mau: 
altas celebridades esquecidas, que no querem encarar a 
verdade de que ningum as deseja ouvir mais. Sei que o mundo 
do espectculo  cruel, mas o ouvinte  ainda mais cruel! 
Produzimos para milhhes de feras. E uma fera quer devorar a 
sua presa! Portanto, Lora est pronta a sacrificar-se.
 - Trata-se de Khalif, Jrome.
 - Ele fez-te alguma proposta?
- E que proposta! Podia tornar-me na nova rainha do Sab!
 - J estou habituado a isso. Desisti de contar o nmero de 
homens que querem conquistar-te!
 - No  nada disso. Khalif quer saber quem  o homem 
desconhecido que eu amo.
 - Depressa ir desinteressar-se disso, Lici.
 - Khalif no desiste. Tu no o conheces. Passei algumas horas 
com ele que me provaram que nunca compreenderemos a maneira de 
pensar dos Orientais, nem a aprovaremos. Ele quer ver o homem 
que no est  venda. - Felicitas parou no meio do trio do 
aeroporto e mirou Ballister de alto a baixo. - Que farias se 
ele te oferecesse dez mlhhes de dlares por mim?
 - Que pergunta, Lici! Nem sequer te vou responder!
 - Cem mlhhes!
 - Declarava-o como louco.
 - Quinhentos mlhhes! Um cinco com oito zeros! Jrome, pensa 
bem nisso! Um monto de dlares por uma mulher! Louco seria 
aquele que no aceitasse! J tens quarenta e cinco anos.. e 
mesmo que tomasses banho em champanhe trs vezes por dia. se 
tivesses a piscina incrustada em ouro, se comprasses um 
castelo na Califrnia e Lhe revestisses o telhado com ouro, 
no serias capaz de gastar todo esse dinheiro at ao fim da 
tua vida!
 -  absurdo discutir-se sobre isso! - disse Ballister, muito 
srio. - J no estou a achar graa nenhuma, Lici! Vem, temos 
de ir para a televiso. Ainda tens de fazer O comentrio 
introdutrio.
 - Amas-me assim tanto? - Felicitas voltou a dar o brao a 
Ballister e deixou-se conduzir at  sada. - E se eu me 
interessar por outra pessoa? Ento, perdias quinhentos mlhhes 
de dlares! Jrome, eu perderia o meu sono por causa disso.
 - Eu no. - Ballister fez sinal a um carro grande, assim que 
atravessaram a porta automtica. - Tu no s do tipo que te 
limitas a ficar recostada num div de seda,  espera que um 
prncipe oriental venha saciar contigo o seu apetite.
 - Uma pessoa tambm podia manifestar-se de uma maneira mais 
discreta.
 - Porqu? - Ballister puxou Felicitas para junto do carro que 
estava a chegar. - De ti outra coisa no seria de esperar. Eu 
talvez seja o nico homem das redondezas que no olhou logo  
partida para o teu peito.
 - Isso sei eu. A ti interessam-te apenas o manuscrito e o 
relatrio que eu entreguei. s asqueroso! Onde vamos 
encontrar-nos hoje  noite?
 - Lora d hoje a tal festa.
 - No vo dar pela tua falta se desapareceres por uma hora.
 - Lici! Dentro de trs dias podemos partir juntos para 
Washington, a fim de fazer uma reportagem.
 - No! Quero hoje! Tenho de esquecer o charme irresistvel do 
prncipe e os quinhentos mlhhes. Estou no Hotel Hamlhton, com 
o nome de Sylvie Morris. Vou usar uma peruca preta com 
caracis pequenos e fartos. Modifica-me de tal forma que nem 
eu prpria me reconheo.

Ballister no respondeu, porque o motorista escancarou as 
portas. Mais tarde na televiso e no seu gabinete, tornou a 
recordar o assunto da conversa. O primeiro ataque de Hunters 
foi repelido. Ele tinha felicitado Saunders e, ao mesmo tempo, 
lamentara a perda de cem mil dlares. Na ACF reinava uma 
atmosfera semelhante ao esprito do Natal: a entrevista com 
Khalif era o acontecimento do ano. Os responsveis pela grande 
estao da concorrncia, ABC, roam-se de inveja, sentados s 
secretrias, e vociferavam com os seus reprteres.
 - Anteontem Lora esteve no mdico - disse Balister, 
servindo-se de um gim tnico e oferecendo tambm um a 
Felicitas. - No, no foi a um psiquiatra. A tem ela sesses 
permanentes duas vezes por semana. Foi a um especialista, um 
cardiologista. E o doutor Henry Meyer, um homem simptico. 
Telefonou-me depois da consulta e perguntou-me: "Diga-me c, 
Jrome, voc, como homem de televiso, leva consigo para casa 
uma quantidade de aborrecimentos? Tem de pr cobro a isso. A 
sua Lora esteve aqui. Conheo-a desde os tempos de estudante, 
quando ela cantava maravlhhosamente. Digo-lhe j: Lora tem um 
sopro no corao. Com o seu estado psquico, ela faz 
malabarismos. Isso  moderno e no prejudica nada, mas o 
corao est acabado! Digo-lhe mesmo que o seu estado  
delicado. E agora chegamos  parte em que ns mdicos dizemos 
sempre a mesma coisa, mesmo quando no  preciso: Lora no 
pode sofrer qualquer tipo de aborrecimento. A mnima 
preocupao pode ser fatal! Nesse caso, ela pode ter uma 
congesto e rebentar uma vlvula (para me exprimir de um modo 
leigo) e no resistiria. Apercebeu-se de como ela se tem 
sentido cansada e esgotada nestes ltimos tempos? Era um 
alerta slhencioso! Por isso, Jrome, ponha a sua Lora numa 
redoma de vidro! Assim ela pode viver mais um tempo!" Fiquei 
como que paralisado, Lici...
 - E agora, Jrome? - Felicitas olhou para o copo. - 
Enterramos os planos que fizemos para te poderes separar de 
Lora?
 - O doutor Meyer ainda disse mais.
 - Desembucha, Jrome!
 - Ele perguntou cruamente: "Ballister, voc tem uma amante? 
No negue. Indivduos como voc, na televiso, so muito 
parecidos com um galo no galinheiro! No quero ser nenhum 
padre, meu caro, mas apenas aconselh-lo a no deixar que Lora 
desconfie e muito menos venha a saber! Se der alguma 
escapadela, faa-o de uma maneira elegante, para que nunca 
ningum venha a saber de nada. Eu sei que  tremendamente 
difcil, porque mesmo tomando o maior cuidado, acaba-se sempre 
por cometer algum erro. Isso pode ser a morte de Lora, se ela 
descobrir que voc tem outras mulheres."
 - E tu acreditas nisso? - perguntou Felicitas calmamente.
 - Acredito. J presenciei trs ataques cardacos de Lora e 
sempre pensei que isso no passasse das suas tpicas reaces 
histricas. Agora sei como todas essas coisas podem ser 
perigosas. Lici, imagina que causamos a morte de Lora. 
Teramos de mudar de profisso. As associaes de mulheres 
nunca nos esqueceriam. Hunters conseguiria despedir-nos. Quem 
impulsionaria, ento, a ACF?
 - H uma Sylvie Morris - disse Felicitas e bebeu a sua bebida 
at ao fim - no Hotel Hamlhton,  s hoje! Mais tarde haver 
outras, com nomes diferentes e outro aspecto. Ningum poder 
suspeitar de nada. S temos de ter muito cuidado.

Ballister acenou com a cabea. Para si era terrvel precisar 
disputar cada hora que passava com Felicitas. No entanto, 
todos os planos de separao que havia discutido com ela j 
no valiam nada depois do telefonema do Dr. Meyer e do seu 
diagnstico.
 - Est-nos reservado um destino perverso! - exclamou 
Ballister num tom de voz abafado. - Sempre a viver s 
escondidas...
- Julgas que Lora vai vigiar-te?
 - No sei. Ainda no dei por nada. No entanto,  possvel. 
Quando ela fala de ti, os lbios tremem-lhe. No sei se posso 
sair da festa hoje  noite.
 - Em todo o caso, vou esperar. - Felicitas levantou-se e 
premiu um boto no intercomunicador, anunciando- se no estdio 
7. - J vou fazer o comentrio! O filme est preparado?
 - Estamos  espera, Felicitas!
 - Obrigada. - Felicitas desligou o boto e olhou para 
Ballister com uma expresso interrogativa. - Se Lora nos 
mandar vigiar, Jrome, vamos viver durante muito tempo sobre 
um barril de plvora prestes a explodir.

Captulo 2

Existem jornalistas que precisam primeiro de consultar o saldo 
da conta bancria para poder fazer uma ideia sobre o montante 
dos seus ganhos... tal como Felicitas Saunders. Para eles, 
cada linha, cada palavra vale um monte de ouro. Se isso  
legtimo ou no,  um pouco discutvel: tm um nome sonante e 
paga-se-lhes, por isso, o que eles querem ou esto  espera. 
Abaixo deles encontram-se uns quantos com alguns recursos 
financeiros, que mal podem preocupar-se com dinheiro, porque 
em vez disso andam a dar voltas ao mundo. Contudo, essas so 
as grandes "estrelas" e apenas existem nos Estados Unidos, 
onde os meios de comunicao detm um poder mais forte do que 
o Governo.
Pode dizer-se que a maior parte dos jornalistas, ou quase 
todos, vive da informao e quando tm um emprego fixo 
apresentam-se de um modo elegante e no precisam de perseguir 
a dura sensao diria do mau emprego, perseguio essa em que 
necessitam de ser sempre os primeiros para conseguir algo de 
bom e se interessarem ento pelos mlhhes.
Reconhece-se um desses reprteres pelo seu olhar atento e 
pestanejante de nervoso, a sua expresso fria de descaramento, 
que esto sempre presentes onde no deveria estar mais nada; 
encontram-se por toda a parte, onde olhos estranhos no so 
desejados, ou onde pessoas importantes foram uma vez desviadas 
do seu rumo normal; onde uma entrevista pode ser mortal ou 
onde uma fotografia pode ser desmascarada para sempre. Ento 
so expulsos, mas voltam a entrar pela porta das traseiras; 
so agredidos, mas continuam a fazer as suas fotografias; 
mergulham como homens-rs para desencantar figuras ilustres 
nuas a tomar banhos de sol, ou colam microfones debaixo de 
camas famosas, para nos dizerem que as pessoas em cima de um 
colcho so praticamente todas iguais.
 um trabalho infernal e duro esse de fornecer, todos os dias, 
algo de novo e de interessante e satisfazer o chefe da 
redaco. A concorrncia  grande e implacvel. Ser conhecido 
num jornal com o nome completo - uma reportagem de Harvey 
Smith - iguala qualquer pequena felicidade. Nos Estados 
Unidos, quem exibir o seu nome numa parangona  porque 
conseguiu, com o medo perseguindo o corao e o crebro, 
voltar a superar um dos seus colegas ainda mais geis.
Nesta paisagem de rostos e bocas, Arthur Darkster era uma 
pequena luz sombria e trmula. No  que ele no soubesse 
escrever: o seu estilo era desembaraado, atrevido, romntico, 
sexy, leve, muito parecido com o desejado, da maneira como se 
adaptava ao tema, mas, de facto, no tinha a garra de deixar 
embasbacados os poderosos. Ele s podia sonhar com o que 
Felicitas Saunders punha todos os dias em prtica e quando ele 
- tal como nestes dias - viu e ouviu, atravs do canal da ACF, 
a entrevista com o prncipe Khalif, a bordo do seu avio 
particular, admirou, sem ponta de inveja, a colega, que ele 
considerava entre as maiores na sua profisso.

Darkster era algo parecido com o terceiro membro. Acatava as 
ordens da sua redaco, as quais executava conscienciosamente, 
mas da no emanava sensao especial alguma. Darkster 
trabalhava como profissional liberal, como to simpaticamente 
se dizia, sem vnculo a qualquer jornal: era apenas um 
colaborador espordico, um pssaro livre, daqueles a quem no 
se atira milho, eles prprios, a muito custo,  que tm de o 
procurar. Isso tem algumas vantagens, mas tambm muitas 
desvantagens: uma pessoa  independente, como tal precisa de 
conquistar cada dlar. Para Arthur Darkster significa o 
seguinte: estar sempre na corda-bamba, manter contactos com 
todas as pessoas possveis, proceder a uma perseguio como se 
fosse uma caa ao homem e nunca perder a esperana de sair da 
sombra da sua existncia de reprter.
Por isso, ficou mais do que perplexo quando, na manh seguinte 
 da excelente emisso de Felicitas Saunders sobre
o prncipe Khalif Omar ben Saud, o telefone de sua casa tocou 
e uma voz de homem Lhe pediu para estar, s onze horas, num 
caf de Lincoln Center. A terceira mesa do lado esquerdo da 
entrada. Darkster nem pde fazer perguntas. A pessoa 
desligara. Um reprter deve ter um sexto sentido, isso  o seu 
capital nominal. Darkster tambm sentiu perfeita e claramente 
nesses minutos que este telefonema poderia significar uma 
reviravolta na sua vida. Bebeu mais duas chvenas de caf 
forte do que costumava quando tomava o pequeno-almoo, a 
seguir engoliu um usque e ps-se a caminho um pouco cedo de 
mais. A reportagem sobre a morte de algumas pessoas, entre 
elas uma prostituta no iria alterar a rotina nocturna de Nova 
Iorque. Podia prescindir disso.
No caf do Lincoln Center estava sentado, na terceira mesa do 
lado esquerdo da entrada, um homem de cabelo preto a ler o New 
York Times. Darkster observou-o por breves instantes. "Deve 
ser de terras meridionais", pensou. Uma situao difcil de 
controlar. Mas depressa aquela observao fez com que o seu 
corao batesse mais depressa. A associao com a Mafia 
ocorreu-lhe imediatamente. " impossvel", pensou de seguida. 
"Que querer a cosa nostra de mim, o pequeno Arthur?" Quando 
queriam comunicar alguma coisa, l estavam os grandes 
companheiros. Eles tm a sua rede de comunicaes directa como 
complemento do seu poder secreto.
Darkster procurou ser muito discreto, para poder aproximar-se, 
de modo a no chamar muito a ateno. Dirigiu-se  mesa, tocou 
levemente no jornal aberto e disse:
 - C estou eu. Vamos ficar aqui?
O desconhecido examinou-o, desanimado, acenou com a cabea e 
Darkster sentou-se  sua frente. Um empregado de mesa 
aproximou-se imediatamente e Darkster mandou vir um cocktalh 
de frutas com gelado de baunlhha e recostou-se.
 - Que se passa? - perguntou.
 - Temos uma tarefa para si, Arthur - disse o desconhecido.
 - Ns quem? Em primeiro lugar,  importante saber isso.
 -  perfeitamente irrelevante. Quer ganhar dinheiro?
 - De uma maneira honesta, sempre.
- Pode ganhar mil dlares.
 - Aqui h coisa!
Darkster sentiu-se atrado pelo montante, mas disse para 
consigo, muito acertadamente, que quem vomita mil dlares, 
est disposto a despender mais. Sabia que tinha de ponderar e 
levar algum tempo; no seria correcto abraar o homem e 
apertar-lhe a mo. Ao p de tal oferta, o pquer era um 
negcio honesto.
 - Na verdade, no sei o que tem em mente, senhor... - disse 
Darkster.
 - Trate-me apenas por Bob.

 -  um nome bonito e muito pouco vulgar.
Darkster exibiu um sorriso aberto e irnico. O desconhecido, a 
quem devia chamar apenas Bob, no parecia ter sentido de 
humor. Ficou srio e adoptou uma atitude formal.
 - Ento, Bob, onde  o incndio?
 - Est de acordo?
 - Claro que no!
Darkster gesticulou com ambas as mos. Lambeu a colher, 
aguardou at que o empregado de mesa se afastasse, e sugou 
atravs de uma palhinha o sumo de frutos misturado com lcool 
que estava dentro da taa. Bob aguardou pacientemente e, 
entretanto, dobrou o New York Times.  sua frente tinha um 
copo com sumo de laranja. Darkster estranhou esse facto. Os 
abstmios entre os mafiosos so no s uma raridade como 
tambm uma curiosidade.
 - Por mil dlares no tiro a cera dos ouvidos. Continuo a 
ouvir apenas um murmrio - disse Darkster.
 - S tem de observar e fornecer informaes. Mil dlares e 
todas as despesas pagas.
Darkster inclinou-se um pouco sobre a mesa.
 -  capaz de se calar, Bob?
 - Voc vai entrar em contacto comigo - disse Bob com firmeza. 
- Vai fazer-me um relatrio e entregar-me fotografias e tambm 
as suas despesas.
 - Bob, voc  um tipo fantstico! Quem devo observar e 
porqu? - Darkster fez rolar, atravs das gengivas, uma cereja 
meio gelada. - Alm do mais, eu sou um jornalista e no um 
detective. Deve ter-me confundido com outra pessoa na lista 
telefnica. No sabia que havia um Darkster que era detective.
- O porqu  irrelevante.
Bob retirou uma pasta do casaco e colocou-a em cima da mesa. 
Era uma demonstrao. Darkster viu um monte de notas de banco. 
Tal espectculo fez-lhe subir extraordinariamente a tenso 
arterial e Arthur ficou com o corao quente.
 - Quem , vai ficar a saber agora: vai ficar no encalo de 
Felicitas Saunders.
 - Bob, voc est cado pela sujeita!
 - Dia e noite! Voc deve ser a sombra dela, sem que o 
perceba. Queremos saber tudo a seu respeito. Como vive; o que 
faz; com quem se encontra; onde, quando e o que come e, acima 
de tudo, quais so os seus amantes!
 - Mais nada? - O tom de Darkster era de troa. - Tambm quer 
saber qual o perfume que ela pe antes de ir para a cama?
 - Tambm, se conseguir sab-lo.
 - J estava  espera! - Darkster apanhou um pedao do gelado 
de baunlhha e meteu-o na boca. - Bob, porqu logo eu? 
Precisamente eu e a Saunders? No tenho nada a ver com ela...
 - Isso sabemos ns. Eis a razo por que o incumbimos dessa 
misso, Arthur.
 - Bob, voc  um poo de charme - disse Darkster, azedo.
 - Virarmo-nos para os seus colegas importantes seria um 
disparate. - Bob abriu a carteira. Darkster calculou que no 
seu interior deviam estar pelo menos cinco mil dlares. S 
notas grandes. Era uma viso imponente. - Todos vocs conhecem 
muito bem a Saunders e sabem que ela no se deixa corromper 
pelo dinheiro.
 - Mas eu sim.
 - Claro.

 - Bob, se eu fosse um homem honesto, levava j um murro na 
cara.
 - Mas voc no  um homem honesto. Voc  um reprter menor 
que aceita tudo o que os dlares trazem. Por mil dlares at 
castrava o seu prprio pai.
 - Esse j morreu h doze anos! - disse Darkster,  vontade. - 
Mas, por mil dlares, de boa vontade Lhe desfazia o crnio. 
Bob, isso com a Saunders  irrealizvel. Uma quimera. Em 
primeiro lugar, porque ela vive num mundo aonde eu no tenho 
acesso e, em segundo lugar, esse mundo  to caro que no 
tenho meios de acompanhar.
- Neste caso, o dinheiro no  importante - disse Bob 
calmamente. - Aquilo que voc precisar, vai receber.
 - E diz isso assim? - Darkster engoliu em seco. Calculou 
rapidamente tudo o que seria preciso para estar perto de 
Felicitas e desistiu de fazer malabarismos com os nmeros. 
Para ele eram somas utpicas. - Voc no desiste, Bob!
 - Ento, vai comear?
 - Se a Saunders for de avio para a Florida e alugar um 
iate...
 - Voc faz o mesmo, Arthur.
 - Se ela for para Roma e for morar na Vila Medici!...
 - Voc aluga um quarto perto dela.
 - Em Tquio, em Okura...
 - Voc fica perto dela, mantm os olhos bem abertos, 
informa-me e fotografa. Qualquer insignificncia pode ter 
interesse e  uma pea do quebra-cabeas para ns.
 - E tudo isso por mil dlares? Bob, tenha juzo e v no meu 
lugar. Assim, pode apanhar os pombinhos.
 - Dez mil dlares! - disse Bob prosaico. - Cinco mil agora e 
cinco mil daqui a um ms. Se nos entregar uma fotografia de um 
amante de Felicitas Saunders, recebe um bnus extra de vinte 
mil dlares.
 - Diga l outra vez, Bob! - Darkster desabotoou o colarinho, 
porque comeou subitamente a transpirar. - Bem devagar, meu 
caro Bob! Mais um extra de vinte mil dlares so trinta mil 
dlares para despesas adicionais...
 - Pode mandar verificar tudo num centro de contablhidade, se 
Lhe for muito difcil pronunciar essa soma. - O homem que 
queria que Lhe chamassem Bob levantou-se abruptamente. - Est 
ento tudo esclarecido, Arthur?
 - Sim e no.
 - Que mais quer?
 - Por que razo quer acabar com Felicitas?
 - Voc s tem de se preocupar com os seus dlares e no fazer 
perguntas. - Bob enfiou o New York Times no bolso exterior do 
casaco. - Trata-se de uma grande oportunidade para si, Arthur. 
A Saunders d-lhe dinheiro? O que ir ela fazer, quando voc 
Lhe aparecer e disser: Felicitas, tu que s grande, eu sou 
apenas um pobre reprter insignificante, no tens um emprego 
para mim? Ela vai enxot-lo, como quem sacode a poeira do 
vestido.
 - Acabe com o nmero social, Bob! - Darkster interrompeu e 
levantou-se logo a seguir. - Nem por trinta mil dlares eu vou 
prejudicar Felicitas.
 - Garanto-lhe que  um assunto particular. Palavra de honra.

 - Palavra de honra? - Darkster mirou Bob, divertido. - Onde 
foi buscar essa palavra, Bob? Meu jovem, voc tem jeito para 
lidar com palavras estranhas. No me olhe como se eu fosse um 
serial klhler, d-me os cinco mil dlares e diga-me para onde 
devo enviar o meu relatrio.
Bob voltou a abrir a carteira, atirou as notas para cima da 
mesa, como se fossem pedaos de papel sem valor, e meteu-a 
novamente dentro do casaco.
 - Se quiser acreditar que ns s sabemos lidar com lixo, 
Arthur...
 - Eu sei, eu sei. - Darkster acenou negativamente com a 
cabea. - Nada de ameaas, Bob! Quando aceito um trabalho, 
tiro dele o melhor partido, o que for possvel.  a sua ltima 
palavra?
 - Sim. Envie todas as informaes para este endereo.
Bob deu um carto-de-visita a Darkster e saiu imediatamente do 
caf no Lincoln Center.
Darkster sentou-se novamente  mesa, apanhou as notas  pressa 
e leu o carto-de-visita. Era extremamente aristocrtico. 
Papel feito  mo com gravura em ao.
"Ahmed Sehadi ibn Mahmoud" era o que l estava escrito. E, por 
baixo, escrito  mquina, estava o seguinte: "Actualmente no 
Hotel Plaza, suite 5."
Arthur Darkster ficou com os olhos fixos no papel, deu um 
pequeno assobio, lembrou-se da entrevista de Saunders com o 
prncipe Khalif e admirou-se do seu ar intelectual muito 
prprio.
"Foi daqui que veio a proposta!" A palavra de honra de "Bob" 
era coerente: era um assunto absolutamente privado. Um 
interesse que cheirava a dinheiro  distncia e contra o 
vento. Mas era tambm um interesse que podia ser fatal para 
Darkster, caso ele recusasse ou se passasse clandestinamente 
para o outro lado. No entanto, compreendeu de imediato que 
este carto-de-visita em conjunto com a sua incumbncia valiam 
cem mil. A estao de televiso ACF daria por esta informao 
um ano inteiro de salrios da Saunders.
Darkster comeou a sentir-se mal do estmago. Mandou vir um 
gin fizz, meteu a mao no bolso esquerdo e comeou a brincar 
com as notas. Era uma sensao louca, ter tanto dinheiro de 
uma vez s e estar ainda  espera de mais.
Uma hora mais tarde, Darkster alugou um carro de luxo e saiu 
em direco a New Rochelle, once Felicitas Saunders possua a 
sua vivenda escondida, na costa de Long Island Sound, num 
gigantesco parque. Quando l chegou j era de noite e 
encontrou um apartamento numa casa de campo velha e degradada 
nas proximidades, o qual alugou dando um adiantamento de 
quinhentos dlares. A proprietria da casa j era uma senhora 
idosa de oitenta e nove anos e chamava-se Jenny Havelook. Ela 
no queria alugar de forma nenhuma, mas achou Darkster 
incompreensivelmente simptico e mostrou-lhe devagar a casa em 
ruinas e no se ops a que o inquilino usasse logo de imediato 
o telefone.
Na sala de estar do apartamento, onde Darkster se encontrava 
agora, havia um cheiro nauseabundo a urina. O fedor parecia 
vir de todas as frestas das tbuas do soalho. Em primeiro 
lugar, Darkster escancarou a janela e olhou para baixo, ao 
longo da parede.
 - Aqui em baixo h alguma casa de banho avariada? - 
perguntou.

 - No. - A senhora Havelook sorriu com ar maternal. - O 
senhor Benedictus Havelook, o meu saudoso marido, sofreu 
durante vinte e dois anos de uma doena renal e de bexiga, at 
que morreu aqui nesta sala, devido a uma uremia. Que Deus o 
tenha em descanso! Ainda cheira a alguma coisa? Que 
desagradvel, senhor Darkster! A mim j no me cheira a nada, 
to habituada estou. Vinte e dois anos, precisava ter visto...
Mais tarde, Darkster telefonou para o Hotel Plaza. Ahmed 
Sehadi ibn Mahmoud estava no quarto.
 - Como devo dizer? - perguntou Darkster. - Bob, Ahmed ou Al 
 grande?
 - Onde est voc? O que quer, Arthur?
 - Fiquemos ento por Bob. Estou bem prximo de Felicitas. 
Aluguei aqui um apartamento e vivo entre tbuas de soalho 
impregnadas de urina. Isto vale uma indemnizao  parte, Bob! 
O que eu no fao por si!
- Consegue ver a casa de Miss Saunders?
 - Tenho-a na minha mira!
 - ptimo! Arthur, esqueci-me de perguntar-lhe se tem conta 
aberta num banco. As suas despesas sero depositadas l. 
Quanto j gastou?
 - Seiscentos e quarenta e nove dlares e dezanove cntimos, 
Bob.
 - Ser-lhe-o enviados mais setecentos...
Darkster estava muito satisfeito. O que fazia agora tinha 
muito pouco a ver com jornalismo, mas uma pessoa no olha para 
a maneira como  ganho um dlar.
Darkster instalou-se no seu bonito carro novo, deu umas voltas 
pela regio, viu-se nos limites da vivenda de Saunders e, por 
volta das onze da noite, teve a sorte insolente de poder fazer 
a sua primeira observao: em frente ao porto da entrada da 
vivenda estava parado um carro pequeno. Uma rapariga de cabelo 
louro comprido saiu do carro, deu um beiJo a um rapaz 
desenxabido, caminhou em cima de uns saltos altos, que Lhe 
realavam as pernas esbeltas, e entrou pelo porto. Antes de 
fech-lo, ainda atirou um beijo ao rapaz, o qual respondeu com 
a buzina do seu automvel.
Darkster anotou a matrcula do carro e fotografou a rapariga 
sob a luz do candeeiro do porto com uma mquina de objectiva 
altamente sensvel. Depois, saiu do carro, levantou o cap e 
curvou-se sobre o motor, como se tivesse tido uma avaria. Era 
um truque antiqussimo, mas que ainda surtia efeito, porque 
motores avariados eram a caracterstica do dia-a-dia 
americano. No entanto, o rapaz passou por Arthur, ignorando-o, 
voltando na direco de Nova Iorque.
Rosa Saunders, a filha de Felicitas, tinha dezassete anos e 
regressava a casa aps uma festa do liceu.
O rapaz, de cabelo ralo, chamava-se Red Cummings, era 
estudante de medicina, tinha vinte e trs anos e era a estrela 
da turma de boxe da universidade, na categoria de peso-mdio. 
Contudo, Arthur s veio a saber disto bastante mais tarde, 
apesar de no se ter mostrado nada curioso.

No se podia negar que Lora Ballister era generosa: era capaz 
de organizar festas como poucos. Quando Lora oferecia uma 
recepo, os que tinham a honra de ser convidados sabiam que o 
jet-set se reuniria em casa dos Ballister.

Alm disso, nessa noite, entre eles, movimentavam-se por todas 
as salas alguns mlhhes de dlares. Os copos de cocktails e as 
reunies de negcios so uma simbiose americana.
A nova festa de Lora parecia vir a ser uma grande surpresa. 
Naturalmente, ela organizaria uma festa de beneficincia, tal 
como a maioria dos espectculos privados, sempre oculta pelo 
manto do amor ao prximo. Em primeiro lugar, informavam os 
jornais a esse respeito, o que era importante para a imagem. 
Em segundo lugar, saudavam as associaes feministas com 
aplausos furiosos, imprescindveis para que estas reunies 
tivessem qualquer peso na vida em sociedade. S  capaz de 
perceber isto quem conhece o poder que estas associaes tm 
na Amrica. Em terceiro lugar, no olhavam a despesas, uma vez 
que se sobrassem trs mil ou quatro mil dlares, esse dinheiro 
destinava-se a doaes para centros de desintoxicao para 
alcolicos, orfanatos, cemitrios para caes ou lares de 
raparigas. Desta vez, Lora Ballister convidou os seus antigos 
colegas, os grandes do mundo do espectculo, que h muito 
haviam passado de moda: cantores decrpitos e louras com o 
cabelo pintado por vrias vezes, com os quais ainda se podia 
contar num ambiente selecto e que, com toda a razo, olhavam 
com desprezo para as geraes mais jovens, que apenas abanavam 
o traseiro ou os seios, mas que no sabiam cantar.
Felicitas telefonou imediatamente assim que recebeu o convite 
de Lora. Tirara uns dias para descansar em casa: ficava 
deitada  beira da piscina e lia bastante, principalmente 
contos. Gostava desta arte de narrativas sucintas. Era, na 
verdade, uma arte descrever o mundo em poucas pginas e poucas 
frases expressivas. Felicitas estava a preparar uma nova 
misso para a ACF. Procurava obter uma entrevista, com o 
ditador Idi Amin Dada, escondido na Lbia. Com Khadafi, o 
anfitrio, j tinha falado pelo telefone. Ele conhecia-a por 
causa de uma entrevista singular e prometera influenciar Amin. 
Alm disso, tinham-lhe falado acerca da entrevista sobre as 
nuvens com o prncipe Khalif. Era um xito que Khadafi soubera 
apreciar.
- Fui convidada, meu tesouro, pela tua mulher. - disse 
Felicitas.
- Eu sei, Lici. - Ballister falava, como sempre, com uma voz 
sumida, como se tivesse acabado de subir uns quantos degraus. 
- O xito da festa de Lora com os cantores do momento foi em 
cheio. Agora vem a velharia toda. O sorteio destina-se s 
crianas abandonadas pelos pais. Naturalmente tens de vir.
 - Eu queria recusar, Jrome...
 - Impossvel! Lora est especialmente  tua espera.
 - Porqu?
 - Lora deve ter um co a farejar a tua pista. Por exemplo, 
ela sabe que eu te beijei quando regressaste da entrevista ao 
prncipe. Tu sabes, foi no aeroporto.
 - Eu avisei-te, meu querido!
Felicitas contemplou o convite e a frase infame que Lora 
escrevera, pelo seu prprio punho, debaixo do texto impresso: 
"Minha querida, s tu quem deve conduzir o sorteio. Ficaria 
muito satisfeita com isso." E como se no bastasse, ainda 
havia um pretexto: a doena! E Lora acreditava piamente no Dr. 
Henry Meyer.
 - Que Lhe disseste? - perguntou Felicitas.

 - Que estava l a equipa completa; que tudo aconteceu em 
pblico e que eu fiquei muito satisfeito por te saber 
novamente em terra firme. Finalmente, disse-lhe que a ACF  a 
outra metade da tua vida! Portanto, foi um beijo muito 
profissional! Lora entendeu isso. Agora tenho a prova de que 
ela desconfia de alguma coisa. Se no fores  sua festa de 
gala, vais fornecer-lhe assunto de conversa. Lora evita-me... 
tem alguma coisa a esconder... ela tem medo de olhar-me nos 
olhos... receia uma conversa... tens de vir, Lici! Todos os 
grandes jornais vo dar notcias sobre a festa. Saunders como 
fada-madrinha do sorteio. Tambm  bom para a ACF!
 - No s capaz de pensar em mais nada a no ser na maldita 
TV? - disse Felicitas, amarga.
 - No, quando estou aqui sentado  minha secretria e tenho 
que fazer o programa. Alm do mais, estou sempre a pensar em 
ti. Na Sylvie Morris no Hotel Hamlhton! A rapariga da peruca 
de mlhhares de caracis pequenos e negros. Na verdade, ficas 
irreconhecvel.
 - No domingo vou estar uma loura de cabelo muito claro e 
usarei um atrevido rabo-de-cavalo.
 - Porqu no domingo?
 - Nesse dia encontramo-nos em Staten Richmond, no Hotel 
Crookes Beach.
 - Impossvel, Lici!
 - O meu nome ser Gayle Hunnington. Jrome...
 - Lici, primeiro temos de esperar para ver como Lora se 
comporta na tua presena, na festa. Pensa no diagnstico do 
doutor Meyer: qualquer agitao pode significar a morte dela!
 - Quantos anos tenho eu, meu querido?
 - Acho que... trinta e sete.
 - Precisamente! Demasiado jovem para ser uma viva solitria 
e ainda no to velha para olhar para um homem como tu de uma 
maneira platnica. Quem sabe como ser quando eu tiver 
cinquenta, sessenta, ou setenta anos. Me West, aos oitenta e 
cinco anos ainda arrastava os homens para o seu boudoir.
 - Valha-me Deus, o que falta ainda para chegarmos a! - 
Ballister riu-se. Soava bem, o seu riso: tinha em si algo de 
ertico. Era mais sonoro do que a sua voz quando falava. - 
Lici, como vou conseguir escapar no domingo?
 - Em Washington h uma parada mlhitar de oficiais da 
academia. Devem ter de ir film-la.
 - Claro.
 - Tens de ir tu! Mas s vais at Staten Richmond. Querido,  
preciso dizer-te tudo?
 - No sejas atrevida!
Ballister riu-se outra vez. "Como eu te amo", pensou ento. 
Era inconcebvel continuar a viver sem ela. Mas havia Lora e a 
sua doena cardaca e nisso estavam postos os olhos de 
milhares de beatas, as quais desejariam ter um amante, mas que 
apedrejavam todas as outras que os tinham. Tudo isso era uma 
loucura to grande. Uma Felicitas Saunders tem de ficar 
sozinha! A viva do Vietname que triunfou na vida e alcanou 
uma posio de destaque! Que exemplo radioso! A um tal 
monumento no se desculpa um homem clandestino.
 - Ento sempre vens  festa de Lora? - perPuntou Ballister.
 - Resta-me outra alternativa?
Felicitas pousou o convite na borda da piscina. Uma rajada de 
vento levou o papel e atirou-o para dentro de gua. Felicitas 
soltou um pequeno e dramtico grito, que fez Ballister 
encolher-se na sua cadeira.
 - Que aconteceu, Lici? - gritou ele.

 - O convite de Lora est a nadar na piscina.
 - Mesmo sem ele, Lora deixa-te entrar! - disse Ballister 
sarcstico. - E logo tu!
- Vou ser mais atenciosa do que nunca - disse Felicitas. - At 
vou beijar Lora. Definitivamente, ela  uma velha amiga...

O primeiro relatrio que Arthur Darkster enviou a Ahmed Sehadi 
ibn Mahmoud, mais conhecido por Bob, foi insuficiente, mas 
pareceu agradar a Bob. Dizia que Felicitas Saunders ficava em 
casa a descansar na piscina e que corria pelo parque com um 
biquni reduzido - Darkster conseguiu um bom ngulo, atravs 
da vedao, onde pde ver Felicitas tirar a parte de cima do 
seu biquni para se deitar ao sol, sem se aperceber de que 
estava a ser observada e era um quadro de uma natureza 
arrebatadora, o qual arrancou um suspiro a Arthur - , que no 
recebia visitas e que a sua filha, Rosa, namorava com um 
estudante. Este relatrio arrancou de Bob a seguinte 
observao:
 - Muito bem, Arthur.
Na tarde que antecedeu a festa, Darkster viu-se obrigado a 
mostrar-se mais activo. Um carro parou  porta de Felicitas e 
ele telefonou imediatamente para um conhecido seu na Direco 
de Viao, transmitiu-lhe o nmero da matrcula e ficou a 
saber que o automvel pertencia a uma cabeleireira.
Por acaso, Darkster foi dar um passeio, mais tarde, pelas 
redondezas e quase foi atropelado pela rapariga, porque saltou 
para o meio da estrada quando ouviu a buzina do carro dela.
 - Voc  ptima! - disse Darkster e inclinou-se sobre o 
carro. - Se estiver  procura de um enfeite para o radiador, 
vai ter de procurar outra pessoa. Alm disso, no fao uma 
figura to imponente como o anjo num Rolls-Royce!
 - A culpa  exclusivamente sua! - A pequena cabeleireira 
fitou-o, transtornada. Tivera de fazer uma travagem brusca. O 
medo ainda Lhe estava preso aos membros. - O senhor saltou 
mesmo em frente do meu carro.
 - O susto! A sua buzina... de repente nas minhas costas! Uma 
pessoa j no  capaz de pensar em mais nada.
Darkster fez um sinal na direco da vivenda branca da 
Saunders, debruou-se na janela do carro e perguntou:
 - Esteve em casa da grande estrela?
 - Sim. Para lavar e pentear. Hoje ela tem uma grande festa.
Todos os alarmes soaram dentro de Darkster. Por fora 
permaneceu perfeitamente calmo e disse num tom depreciativo:
 - Essas andam sempre em festas!  essa a sua maneira de 
viver!
 - A de hoje  particularmente importante.  em casa de Lora 
Ballister. Conhece-a? Foi, em tempos, uma cantora famosa. Lora 
Buster.
 - Ah, essa!
Darkster ligou o seu computador cerebral. Dizia-se que Lora 
Buster fora a rainha das canes, at que se casou. Ao que 
parece, esse Ballister tinha dinheiro suficiente para dar 
grandes festas. Se Felicitas Saunders fora convidada para essa 
festa, tudo isso junto poderia ter interesse para Bob.
 - J chega! - disse Darkster e fez um sinal com a cabea. - 
Boa viagem, menina. E no buzine se vir uma pessoa de costas. 
Uma figura decorativa viva pode trazer-lhe imensos problemas.

No era fcil saber alguma coisa sobre Jrome Ballister. 
Darkster, que em toda a sua vida nunca vestira um smoking, foi 
at Nova Iorque, dirigiu-se  melhor loja de roupa para homem 
e comprou um smoking de cerimnia com gola de seda moire e 
tudo o resto de que um homem precisa para uma noite de festa. 
Na florista mais cara da grande cidade mandou arranjar um 
magnfico ramo de rosas amarelas e rosa-plido, embrulhado com 
um lao dourado, no qual se salpicou a palavra LORA em letra 
especial. Assim armado e equipado passou as duas horas de 
espera at ao incio da festa num bar adequado e distinto e 
depois dirigiu-se a casa dos Ballister.
Darkster havia calculado tudo com preciso. Se chegasse vinte 
minutos mais tarde entraria atrs dos outros convidados que 
tambm chegavam mais tarde e eram bastantes. Assim, todos se 
empurravam atravs da porta larga da entrada, onde duas 
criadas e um mordomo contratado recolhiam os casacos e se 
limitavam a deitar um olhar furtivo aos convites. Darkster no 
apresentou qualquer convite e, em vez disso, empurrou o ramo 
de rosas para cima do mordomo, para que ele visse a palavra 
LORA escrita na fita dourada.
 - S um momento! - disse Darkster de seguida.
Despiu o casaco comprido, deu-o a uma das raparigas e ajeitou 
melhor o smoking. Depois voltou a pegar no ramo de rosas e 
atravessou a porta do salo, na qual se achavam Lora e Jrome 
Ballister a cumprimentar os convidados.
Era evidente que o mordomo no voltaria a perguntar pelo 
convite e Darkster ficou muito satisfeito com isso. Venceu a 
sua sombra e demonstrou, pela primeira vez, que tinha grande 
-vontade para conseguir fazer uma grande carreira.
Lora pegou no maravilhoso ramo com um sorriso radioso, deixou 
que Darkster Lhe beijasse a mo e olhou para ele atentamente.
 - Quem era este? - perguntou ela a Jrome, que tinha os olhos 
postos no prximo convidado e olhava impaciente para a porta.
Quando chegaria Felicitas Saunders? E ser que ela vinha 
realmente? Que traria vestido? Olhou de soslaio para a mulher 
e abanou a cabea.
 - Quem, meu amor?
 - O cavaleiro das rosas...
 - Foste tu quem enviou os convites!
 - Deve ser um dos do Clube de Imprensa! Nunca c tinha 
estado. Repara bem: na fita est escrito LORA.
 - Que falta de gosto! - disse Ballister distrado e no notou 
como Lora ficou ofendida. - Isso costuma fazer-se nas coroas 
fnebres.
Lora calou-se. Fez sinal ao mordomo e disse:
 - Ponha-as numa jarra!
Esticou-se para entregar-lhe as flores, como se estica uma 
mola de ao. O sorriso estampado no seu rosto permaneceu, mas 
era como se tivesse congelado numa mscara. Jrome Ballister 
tambm percebeu como o ambiente se modificara. Ele respirou e 
a expresso alarmou-se-lhe simultaneamente.
Felicitas Saunders entrou na casa.
No vinha sozinha, trouxe consigo a sua filha Rosa. "Um 
estratagema refinado", elogiou Ballister intimamente. A mais 
esplndida viva do mundo com a sua filha, que perdeu o pai 
to cedo. E ainda por cima no Vietname. Um heri! Quem se 
atreveria a atacar Felicitas agora? Nem mesmo Lora. O 
esplendor trgico que rodeava Felicitas tornava-a inatingvel.

Estava arrebatadora no seu longo vestido de chiffon vermelho e 
o cabelo penteado ao alto, que Lhe dava um ar oriental, tipo 
japons. Ao seu lado, a filha com o longo cabelo louro 
encaracolado, que Lhe caa sobre a seda bordada verde-garrafa. 
Era uma encenao perfeita. Lora compreendeu isso 
imediatamente. Afastou-se da porta e foi ao encontro de 
Felicitas. Jrome Ballister no se mexeu. Quando duas vagas se 
entrechocam uma pessoa que estiver entre elas ser 
inevitavelmente reduzida a p.
Foi uma cena impressionante. Lora abraou Felicitas, beijou-a 
em ambas as faces e disse em voz alta:
 - Como ficaramos pobres sem a tua presena! Ests 
esplndida!
Depois, beijou Rosa, deu o brao a Felicitas e conduziu-a ao 
salo. Jrome ainda teve tempo e oportunidade para saud-la e 
dizer:
 - At j, Felicitas. Ainda tenho que representar o papel de 
mestre-de-cerimnias.
O convidado seguinte surgiu logo de imediato. Era o cantor 
Piero Dacocca, que h vinte anos cantara por trs vezes na Met 
o papel de Cavaradossi, na Tosca, e que naquela noite 
presentearia os convidados com uma ria. O cantor abraou 
Ballister e a sua voz retumbou com uma impressionante tirada 
teatral:
 - Permita-me que o cumprimente, meu velho amigo!
Beijou Jrome no nariz, antes de este poder desviar o rosto.
Arthur Darkster j estava no bar, equilibrava um copo de 
cocktail na mo e examinava os convidados. O seu pensamento 
estava centrado na doce beleza loura de Rosa Saunders. Esta 
afastou-se da me e de Lora e cumprimentou alguns conhecidos.
"Atravs da filha para chegar  me", pensou Darkster 
satisfeito. Era um caminho bom, normal, directo e inofensivo. 
E podia estar repleto de informaes!
Era uma pssima ideia, mas s mais tarde  que essas coisas se 
sabem.

Captulo 3

Lora Ballister era de uma simpatia encantadora. A ltima vez 
que se encontrara pessoalmente com Felicitas fora h quatro 
meses. Claro que no ecr via-a muitas vezes e nunca perdia uma 
oportunidade de o fazer. E sempre que acabava uma emisso com 
Saunders, Lora sentia um desejo doido de atirar o copo de 
vinho, que estava a beber, contra o televisor.
Era invejosa, porque no reconhec-lo? Qual a mulher que no o 
seria? Havia desistido da sua carreira por causa de Jrome 
Ballister, tal como sempre contava, se bem que todos os da 
profisso soubessem que a estrela radiante do seu casamento 
atingia j o seu termo e se rodeava cada vez mais de 
escurido. Lora sempre considerara o casamento como algo de 
definitivo, fiel  palavra do padre, o qual pronunciara as 
palavras "at que a morte vos separe". E ela resistia - menos 
no primeiro ano da sua unio com Ballister - a todas as 
tentaes que, naturalmente se lhe apresentavam e chegava at 
a contar tudo a Jrome.
 - Imagina que hoje o Jimmy Calender me fez uma proposta 
indecente! - Ou ento: - Ontem, O'Phaerson veio visitar-me. O 
maldito apalpou-me o peito.
Ballister ria-se sempre com o seu riso melodioso e no levava 
nada a srio. No entanto, s escondidas, agarrava os 
malfeitores e ameaava-os com os punhos. Uma vez chegou mesmo 
a bater num, precisamente na estrela da srie de televiso 
Ser Que a Mam Regressa?, o bonito Phil Toppa. Assim, 
bastaram dois sopapos para que Toppa ficasse com uma mossa 
fulminante entre os olhos, que nem o melhor caracterizador 
conseguiria disfarar com cremes ou com p-de-arroz sem 
modificar completamente o rosto do belo Phil.
Por conseguinte, alterou-se o argumento, fez-se com que Toppa 
fosse abandonado pela mulher e, desastrado, fora de encontro  
porta do armrio da cozinha, havendo portanto, um motivo para 
que Toppa continuasse em cena, mesmo com o rosto desfigurado. 
Mais tarde, a crtica elogiara o magnfico trabalho de 
representao de Phil como agredido e marido abandonado. A 
srie Ser Que a Mama Regressa? tornou-se um enorme xito para 
a ACF.
S o presidente Hunters convidou Ballister para uma bebida no 
andar reservado s chefias e disse algo azedo:
 - Jrome, quero pedir-lhe que da prxima vez que bater em 
algum, que seja num que no enfrente as cmaras. E ainda por 
cima na cara! Assim, a produo encarece. Dois dias de 
filmagens perdidos, o autor da srie ficou de cama com dores 
de estmago, porque queria modificar o argumento inteiro. Voc 
j sabe como so os autores, reagem a cada alterao como 
santos castrados, inclusive o prprio Toppa. Meu Deus! Na 
guerra, estive como soldado em Frana, acompanhei a invaso, 
ajudei a tomar de assalto a pennsula de Cotentin. A vi 
feridas de fazer embrulhar o estmago, mas isso no foi nada 
comparado com o inchao no nariz de Toppa! Toppa foi o ferido 
mais grave que j houve! Por favor, Jrome, da prxima vez 
atinja apenas partes do corpo que fiquem tapadas.

Foi apenas uma poca. Lora recordava-se dela com arrepios 
francamente sensuais. Nesse tempo, Ballister ainda era um 
marido que no saa do trabalho um minuto mais tarde do que 
devia e corria para os braos da sua Lora. Dezassete anos 
felizes e sensacionais, nos quais Ballister passara de locutor 
a analista poltico e depois de substituto de apresentador de 
um talk show a chefe do grande departamento de informao e 
tornara-se amigo do presidente Hunters.
A situao modificara-se quando Felicitas Saunders, at  data 
uma jornalista livre com uma lealdade notvel  ACF, assinara 
um contrato fixo e se tornara membro da equipa das estrelas, 
cuja direco tambm competia a Ballister. Da para a frente, 
a pouco e pouco, quase sem se dar por isso, a saudade 
quotidiana que Ballister tinha de Lora fora desvanecendo. 
Naturalmente, isso estava relacionado com o alargamento das 
funes dele; que tudo tinha uma explicao incontestada; que 
Lora tinha de compreender que o brao direito de Hunters tinha 
mais trabalho para fazer do que se fosse apenas um 
subordinado; naturalmente que Jrome tinha de estar muito 
atento para fiscalizar as inmeras produes como se, no 
fundo, fosse um bombeiro da emissora. Evidentemente, para Lora 
a presena constante de Felicitas Saunders tambm era a razo 
por que Ballister estava mais casado com a estao televisiva 
do que com ela.
No podia provar nada. Era esse o problema. Mesmo na ACF 
ningum aludia a qualquer caso entre Ballister e a Saunders E 
isso queria dizer alguma coisa. No era raro um boato dessa 
envergadura numa cadeia de televiso e em mais lado nenhum 
surgiam tantas suspeitas, espionagens, promoes profissionais 
duvidosas, nomeaes lesivas, desvalorizao do trabalho 
alheio, como na televiso.
No entanto, no se comentava nada sobre Ballister. E acerca de 
Felicitas Saunders dizia-se que comparava todos com o seu 
falecido marido, Bob, e desprezava os outros homens que no 
tivessem estado no Vietname.
Lora fez-se amiga de Felicitas. Era um truque to velho quanto 
tolo: s trazia mais desconfiana. Consequentemente, agora 
como frequentadora da casa dos Ballister, por assim dizer, 
Felicitas, como pessoa educada, podia cumprimentar Jrome com 
um beijo, at mesmo na presena de Lora. E, assim,  medida 
que Ballister se despedia do seu casamento, Lora resvalava 
para a histeria. Tudo comeou com acessos de enxaquecas, 
degenerou em descontrolo nervoso por todo o corpo at atingir 
um incompreensvel choro convulsivo, para acabar, por fim, no 
psiquiatra. Uma carreira feminina, sobre a qual ningum se 
admirava mais na Amrica. A troca de impresses acerca de 
psiquiatras fazia parte dos temas preferidos dos crculos 
femininos americanos.
 - Tens de me contar! - dizia Lora nesse momento e conduziu 
Felicitas para uma sala contgua. Na grande sala de estar, a 
qual estava vazia de moblias e parecia um salo, comeou a 
tocar-se um combo com acompanhamento. Mais tarde, passou-se  
msica clssica, com um piano de cauda e uma pequena orquestra 
de cordas, ao mesmo tempo que a ex-grande estrela perguntou 
mais uma vez, por generosidade:
- O prncipe , na verdade, um homem to fascinante?
- Tem dinheiro - respondeu Felicitas. - Tem tanto dinheiro que 
nem sabe ao certo quanto.  assim que ele tambm vive e pensa. 
Quanto a ser fascinante...
 -  verdade que ele te raptou?
 - Quem disse isso?

 - A equipa de filmagens! E o Jrome teimou em calar-se, mas 
eu no o larguei, sem que ele falasse. Na cama, o Jrome  
capaz de derreter como manteiga numa frigideira.
Felicitas aguentou este golpe sem mostrar qualquer reaco. 
Chegou at a sorrir para Lora.
 - O prncipe quis convencer-me a ir com ele.
 - Ento  verdade! E tu recusaste?
 - Estarei  venda?
 - Tornar-te-ias numa das mulheres mais ricas do mundo... sem 
o trabalho estafante dos estdios.
 - Tenho nisso um orgulho sobejamente conhecido e certamente 
imbecil, querida Lora - disse Saunders baixinho. - Quero fazer 
carreira atravs da minha inteligncia e no atravs do meu 
baixo-ventre. Fora de moda, no achas? No faz mal. Gosto 
desta vida.
 - s moralista? - perguntou Lora.
Ao mesmo tempo que fazia esta pergunta, Lora contemplou 
Felicitas como um abutre que rondasse perto da sua presa.
 - No! No sou moralista - negou Saunders sem hesitar. - Quem 
ainda o  hoje em dia?
 - Eras capaz de arranjar um amante?
 - No sou uma mulher?
 - Mesmo que esse homem fosse casado?
 - Porque no?
 - No pensarias na outra mulher?
 - Sempre! Teria cimes por ela ter sempre esse homem consigo, 
dia e noite, e eu apenas por algumas horas e por t-lo quase 
sempre longe de mim.
 - Isso  infame, to terrivelmente infame! - disse Lora e a 
sua voz parecia reduzir-se a p. - Existem milhes de outros 
homens.
 - Segundo dizem os astrlogos, h milhares de milhes de 
estrelas, mas apenas uma delas combina com a nossa 
personalidade.
Felicitas voltou-se. O cantor Raoul Croix espreitou  porta. 
Em tempos, fora um bartono magistral, um aplaudidissimo Don 
Giovanni, at que um terrvel acidente de viao Lhe 
estropiara as pernas. Embora uma pessoa no cante com as 
pernas, saber que j no era o mesmo gal de outrora em cima 
do palco fez com que Croix descarrilasse
Tornou-se alcolico e vivia apenas da fama abandonada. Com 
efeito, a sua excelente voz extinguiu-se mais lentamente do 
que o seu corpo. Hoje queria voltar a cantar a cano da 
estrela da tarde da pera de Wagner, Tannhauser.
 - Acordai, oh beldades! - disse ele em seu redor, num tom de 
voz estudado, como a voz de um actor. - Jrome anda s voltas 
como um galo sem cabea. Sem vocs esta festa no pode 
comear. Alm disso, tem mesmo que ser? Este combo? Esta 
msica de partir as pernas! Uma pessoa at fica indisposta! 
Michalh Tschassnov props sentar-se j ao piano e tocar um 
suave Liszt. Ele j est a aquecer os dedos.
Croix imitou Tschassnov a apertar as mos uma de encontro  
outra, at fazer estalar as articulaes. Depois, riu-se e 
saiu, fechando a porta com estrondo.
 - Tens um amante? - perguntou Lora com voz frgil.
 - Tenho.
 - Meu Deus, e ningum sabe disso! - Lora olhou estarrecida 
para Felicitas e, ao mesmo tempo, cheia de desconfiana. - E 
dizes isso assim?

 - S a ti, minha querida Lora.
O sorriso de Felicitas era uma grosseria abissal aos olhos de 
Lora. Esta apercebeu-se de que os seus nervos comeavam, de 
novo, a tremer e acrescentou:
 - Eu sei que no vais comentar com ningum. E, se 
comentares... nunca falei contigo sobre este assunto. Um 
desmentido meu  mais plausvel do que mil conjecturas.
A porta abriu-se. Ballister precipitou-se para dentro da sala. 
Parecia que a casa abanara como num tremor de terra.
 - Aqui esto vocs! - exclamou ele. O seu olhar cruzou o de 
Felicitas apenas por uma fraco de segundos, mas foi o 
suficiente para captar a preocupao dela: - Os convidados 
esto l em baixo a embriagar-se de tdio. Edward Pemm j 
contou a terceira anedota porca. Vocs tm de vir.
Felicitas acenou com a cabea e deu o brao a Lora, a qual 
havia ficado algo rgida. Quando Pemm comeava a contar 
anedotas, o perigo estava iminente. Edward Pemm era um 
talentoso encenador, principalmente dos clssicos e, em 
especial, de Shakespeare. No porque respeitasse Shakespeare 
em especial, mas porque Shakespeare era, segundo as prprias 
palavras de Pemm, "uma maldio to grandiosa e escreveu umas 
porcarias to dignas de serem desenterradas que todos tm o 
direito de o conhecer"!
 - Tivemos uma conversa interessante, Jrome - disse 
Felicitas, enquanto passava por ele com Lora. - Lora queria 
saber se eu tinha um amante. Naturalmente no tenho nenhum. 
No  assim, Lora?
Lora Ballister abanou a cabea. A sua voz ficou sufocada na 
garganta. Corou, libertou-se de Felicitas e entrou no salo 
com o sorriso teatral mais encantador.
Os convidados aplaudiram.
Ao fundo, Arthur Darkster disse para Rosa Saunders, 
curvando-se perto da sua pequena orelha:
 - Vamos escapar-nos l para fora. Isto aqui est um tdio de 
morte. Tschassnov vai agora para o piano. Os portes 
providenciais foram abertos.
Havia duas coisas - entre outras - que era preciso considerar: 
uma rapariga atrada a um parque escuro, quando o seu namorado 
 um pugilista de meios-pesados e extremamente medroso quando 
confrontado com o inesperado. Parecem duas coisas, mas para 
Arthur Darkster elas so coincidentes.
Red Cummings, o estudante de medicina, naturalmente no era 
merecedor de ser encontrado na festa de Lora. Ela nem sequer o 
conhecia e tambm Felicitas sabia apenas que era amigo da 
filha, que havia jogado com ela algumas partidas de tnis, 
danara umas quantas vezes com ela e depois a levara a casa. 
Ainda no o tinha visto. Quando fazia alguma pergunta a Rosa a 
esse respeito a sua resposta era invariavelmente a seguinte:
 - Claro que  um bom rapaz. Mam, ns queramos...
Ento, a conversa tomava imediatamente outro rumo e 
desviava-se de Red Cummings.

Namorados que no so convidados para os lugares onde as suas 
namoradas danam so, por natureza, alvo de desconfiana. 
Cummings no era uma excepo, at porque estava sempre 
disposto a partir os dentes a qualquer um que duvidasse da 
fidelidade de Rosa, nem que fosse s com um sussuro. Mas isso 
no o impediu de instalar-se num posto de vigia e 
infiltrar-se, atravs do parque, nas traseiras da casa dos 
Ballister. Para isso, precisou de um escadote, com o qual 
transps os dois metros de altura da sebe de loureiros, saltou 
para o outro lado e foi junto aos postes de electricidade que 
ladeavam a sebe que primeiro se apercebeu do erro do seu 
plano: o caminho de volta era incomparavelmente mais difcil, 
porque o escadote estava encostado pelo lado de fora da sebe! 
Em todo o caso, conseguira ter a oportunidade de penetrar no 
grande parque, ocupar um lugar e no perder Rosa de vista. As 
portas que davam para o terrao estavam abertas, as cortinas 
puxadas para trs e podia ver-se toda a sala, onde os convivas 
se reuniam em grupos e conversavam entre si, at que teve 
incio a parte oficial da festa.
Cummings escolheu um lugar alto, encostou-se ao tronco grosso 
da rvore e participou, com os olhos, na famosa festa de Lora. 
Assim, tambm podia ver como os convidados no salo se 
acotovelavam para observar um homem que se dirigia para um 
piano de cauda e como dois convidados se afastaram e se 
encaminharam para o parque.
Red Cummings rangeu os dentes e comeou a mastigar de nervoso. 
Reconheceu Rosa nitidamente no seu vestido bordado. O seu 
cabelo louro brilhava,  medida que ela avanava na noite, e o 
homem que estava ao seu lado conversava com ela e at Lhe ps 
um brao sobre os ombros.
Cummings respirou de boca aberta e ouviu o seu sangue 
rumorejar, o que, como estudante de medicina, sabia ser 
completamente absurdo. No entanto, se assim era, algures no 
seu corpo devia haver uma fogueira secreta que o queimava 
lentamente, Lhe consumia tambm o ltimo travo interior. 
Cummings esgueirou-se para debaixo de um pltano, deixou Rosa 
passar com o seu asqueroso acompanhante e saiu subitamente das 
sombras.
Arthur Darkster estava eufrico: Rosa parecia estar a 
fornecer-lhe uma mina de informaes de primeira qualidade e 
s era preciso sond-la correctamente. Por isso, contou-lhe 
algumas aventuras imaginrias, passadas no Alasca e em Cuba e 
comentou, como quem no queria a coisa, que a me dela tambm 
andava de aventura em aventura.
 - Todos ns admiramos Felicitas - disse Darkster. -  uma 
mulher extraordinria. No entanto, diz-se que ela  muito 
solitria.
- Gostamos de estar sozinhas. - Rosa parou e afastou o 
cabelo da testa com as duas mos. - Mas solitrias  coisa que 
no somos.
-        Claro que no. Foi uma expresso idiota. - Darkster 
bateu com o punho na testa. - Tm imensas visitas. Os 
cocktails de Felicitas devem ser famosos.
A resposta de Rosa, "Isso deve ser um engano", foi ouvida 
por Darkster como se fosse um sussurro.
Uma mo forte agarrou-lhe num ombro e virou-o 
bruscamente. Darkster olhou estarrecido, na escurido, para a 
forma indistinta do rosto de um homem, depois ouviu-se um 
rudo surdo, e ele sentiu um soco no queixo e, de repente, 
todas as luzes se apagaram. Em seguida, caiu para trs, como 
um tronco de rvore sobre um manto de relva.
-        s doido! - exclamou Rosa, assustada. - 
Completamente doido! Red, como vieste aqui parar? Que queres 
tu aqui? No podes simplesmente derrubar todos aqueles com 
quem falo!

-        Ele tinha posto um brao em cima de ti! - Cummings 
ficou de p como um gorila furioso, fitou o imvel Arthur 
Darkster e arrependeu-se do que fizera.
-        Vais imediatamente para casa! - exclamou Rosa em tom 
cortante. - Imediatamente! Ou ento nunca mais nos veremos!
-        Querida - Cummings tentou um pedido de clemncia, 
agarrou a cabea de Rosa e quis beij-la, mas ela bateu-lhe 
rpida e violentamente nos dedos. - Que queria esse tipo de 
ti?
-        O tipo estava a elogiar a minha me! - respondeu 
Rosa mordaz. -  um tipo simptico! Amanh vou encontrar-me 
com ele.
-        Rosa! - Cummings, abatido, encostou-se ao tronco da 
rvore. - Isso vai matar-me! Por favor, no faas iSsO.
-        Somos casados? No! Noivos? No! Nem nunca o 
seremos, Red Cummings, se continuares a portar-te como o King 
Kong... Desaparece!
No fazia sentido continuar a discutir com Rosa. O jovem 
fitou-a com um olhar triste, acabrunhado, e, cheio de um amor 
enorme, passou por cima de Darkster e afastou-Se lentamente, 
atravs do parque escuro. Junto  sebe, demonstrou o seu pouco 
desportivismo, ao destru-la. Fez um buraco na bonita sebe, 
abandonou a propriedade dos Balister e ps ao ombro o 
escadote. Pouco tempo depois, sumiu-se dali com o seu carro 
velho.
Arthur Darkster acordou, porque algum lhe deitou gua 
fria no rosto. Estremeceu e apercebeu-se de que os seus nervos 
ainda no estavam totalmente recuperados e, em seguida, 
sentou-se. Rosa ajoelhou-se ao seu lado e limpou-lhe o rosto 
com um leno hmido e pressionou-o no queixo dele. Parecia que 
ele tinha uma salsicha pendurada a e quando mexeu a boca, 
esta pareceu-lhe feita de gelatina.
-        Quem era aquele? - perguntou ele. Falou 
cuidadosamente, porque ainda lhe doam todos OS ossos da cara 
e acrescentou: - Deixou-me de rastos.
-         verdade - disse Rosa.
No havia mais nada para acrescentar ou para comentar.
-        Um homem...
-        Sim.
-        Conhece-o? Reconheceu-o?
-        No! Aconteceu tudo to de repente... Ele surgiu 
subitamente, bateu-lhe e depois desapareceu. Foi to rpido 
que no dava para reconhecer quem quer que fosse.
-        Seria um dos convidados? Ele usava um smoking?
-        Meu Deus, eu s reparei em si quando caiu.  
provvel que tenha sido um dos convidados! - Rosa agarrou-se a 
esta ideia com alegria. Assim, as suspeitas no recairiam em 
Red. - Tem algum inimigo entre os convidados?
-        Nem conheo ningum!  a primeira vez que venho a 
uma festa de Lora.
Darkster tentou pr-se de p, mas no conseguiu faz-lo 
sozinho e Rosa teve de ampar-lo. Ento, aproveitou para pr 
os dois braos  volta do pescoo dela e iou-se. Um olhar 
seria suficiente para Cummings fazer de Darkster o seu saco de 
pancada. Quando, por fim, conseguiu ficar razoavelmente de p, 
comprimiu o leno hmido de encontro ao queixo e perguntou:
-        Onde foi buscar a gua, Rosa?

-        A mais ou menos doze passos  esquerda daqui h um 
pequeno lago. Oxal no o incomode o facto de naquela gua 
tambm haver rs a desovar.
-        A gua tambm no deve estar to contaminada que no 
me possa ser til neste momento.
Darkster avanou com cuidado, deu alguns passos em frente 
e teve uma vontade indomvel de sentir o toque fresco e hmido 
no seu rosto. Um lago era tudo o que queria agora. Uma enorme 
quantidade de gua. Ento, podia enfiar a cabea e desfazer-se 
daquela salsicha que tinha debaixo do queixo. O sujeito tinha 
c um golpe! Tudo no devia ter passado de um mal-entendido, 
uma confuso no escuro, talvez um acto de vingana entre dois 
amigos que tenha ocorrido ali perto. Quem quereria p-lo a ver 
estrelas, a esse pequeno e insignificante Arthur Darkster?
O lago era realmente perto e a gua cintilava na 
escurido, enquanto que da casa dos Bailister chegava o som da 
msica de um piano. Tschassnov estava a tocar Liszt. Todos se 
encontravam nesta disposio romntica e isso tambm acontecia 
com Arthur, no fora a timidez, que o impedia de suspirar em 
voz alta e depois atrair Rosa a si. Ainda por cima, no tinha 
capacidade nem nervos para o que estava a presenciar, e ento 
escancarou a boca e desatou a gritar, cheio de medo:
-        Socorro! Socoooorro!
No lago desovavam no s rs, como tambm boiavam 
nenfares... at havia l dentro uma pessoa. Estava deitado de 
costas, com as pernas ainda na margem, a cabea na gua pouco 
profunda, a boca aberta e os olhos revirados. Quando Darkster 
o descobriu, o vento fez deslizar um nenfar para cima do 
morto, na direco da sua boca aberta, como se ele fosse um 
porto de abrigo.
Era compreensvel que este quadro fosse demasiado forte 
para o seus nervos arrasados.
Rosa olhou estarrecida, em primeiro lugar, para o morto, 
depois puxou pela manga de Darkster e, por fim, gritou-lhe:
-        Cale-se! Este j no ouve ningum!
Depois, deixou Darkster sozinho, voltou a correr para 
casa e entrou bruscamente no meio do Adgio que Tschassnov 
estava a interpretar com os olhos fechados. Por isso, a voz 
trmula de Rosa foi especialmente clara e ntida, tendo
como pano de fundo a msica de Liszt.
-        Est um morto no lago... no jardim!
As mos de Tschassnov resvalaram no teclado do piano com 
dissonncia, assemelhando-se  muito amada msica moderna. 
Lora Bailister ficou como que paralisada, Felicitas olhou 
imediatamente na direco de Jrome, Ballister abanou a cabea 
como se estivesse no estdio e no concordasse com alguma 
cena.
-        Meu Deus,  Tito Varone! - disse, pouco depois, 
Lora, impressionada.

Estavam todos junto ao lago com lanternas de bolso 
iluminando o terreno, incidindo no morto que estava na gua e 
no nenfar que pairava sobre o seu nariz.
-        Tito Varone, o melhor Lohengrin que eu j tive 
ocasio de ouvir - acrescentou Lora.
-        Quem sabe se um cisne o atirou da sua embarcao? - 
aventou Croix, que nunca simpatizara com Varone. - Alm do 
mais, eu sei que ele tinha medo da gua.

Ningum sorriu. As piadas dos colegas so sempre 
irritantes e este tinha exagerado.
-        J telefonei para a Polcia - disse Balister, 
prosaico. - Mesmo tendo sido um acidente.
-        Tito estava bbedo como uma mangueira rota! - disse 
um dos outros convidados.
Tratava-se do famoso bartono de outros tempos, Edmond 
Harley, um inesquecvel Holands Errante.
-        Ele j estava bbedo quando Lora recebeu o ltimo 
convidado. Devia estar a atravessar uma fase pssima - rematou 
Harley.
E, quebrando o silncio que se seguiu, Arthur Darkster 
disse:
-        No! Ele foi assassinado! Eu tambm fui agredido e, 
se calhar, era o prximo! H entre ns um assassino! Um 
demente! - Darkster olhou na direco de Rosa, a qual estava 
ao lado de Felicitas. - No  verdade, Rosa?
-        Eu no sei de nada - disse Rosa, baixando a cabea, 
depois comeou a soluar e comprimiu o rosto de encontro ao 
peito de Felicitas.

A Brigada de Homicdios chegou logo vinte minutos depois.
Um tenente decidido anunciou, animador:
-        Todos so suspeitos!
O mdico legista examinou o corpo, depois de terem 
fotografado o lago e de o terem tirado da gua. O resultado 
foi inequvoco: assassnio por estrangulamento com uma corda. 
Logo depois desta morte cruel, Tito Varone fora arrastado para 
o lago. Ningum era capaz de indicar um motivo. Varone vivia 
muito retirado e sustentava-se com os dividendos dos seus 
discos de pera, ainda muito vendidos. Cantava, de vez em 
quando, cantigas de embalar em programas infantis - na 
verdade, sem enunciar o seu nome, porque no conseguia 
suportar a decadncia. Passara horas sentado em frente do 
gira-discos a ouvir as gravaes dos seus tempos ureos. 
Depois, para comparar, ouvia os novos cantores interpretarem 
as mesmas rias e ficava feliz quando podia dizer:
-        Os nossos buifos cantam pior hoje do que 
antigamente.
Nos ltimos anos bebia de mais e acabava sempre essas. 
comparaes em completas bebedeiras.
No, inimigos no tinha. Apenas pessoas que o lamentavam. 
E alguns amigos sarcsticos, como Croix. Porque quereria 
algum assassinar Tito Varone?
O tenente organizou uma marcha de apresentao. Cada um 
dos convidados dos Balister tinham de apresentar-se perante 
ele e dois sargentos, levantar as pernas e mostrar os sapatos. 
Era evidente que todos tinham os sapatos incontestavelmente 
limpos, excepto Rosa Saunders e Arthur Darkster. No entanto, 
apenas o atacaram a ele, porque descobrira o corpo e tinha at 
gritado por socorro. Isto agora era, para ele, penoso, porque 
no se coadunava com a imagem de um jornalista que dizia ter 
atravessado sozinho o deserto do Masca em seis semanas, at 
encontrar algum.
J passava da meia-noite quando os convidados se 
retiraram. A festa foi de arromba, s no se realizou o 
peditrio beneficente. Na verdade, o bufete frio foi 
razoavelmente consumido e havia at grandes rombos nas bebidas 
alcolicas. Tito Varone foi trasladado num caixo de zinco.

era assim que ele desejaria ter morrido. Numa entrevista que 
deu uma ocasio, Varone declarara:
-        Se fosse possvel, gostaria de pedir a Deus - tinha 
ele dito -, que me levasse para junto de Si enquanto
fosse transportado para fora do palco, como Siegfried, 
assassinado, sob os acordes magnficos da marcha fnebre de 
wagner...
Agora estava metido numa banheira de zinco com tampa.
Quanto  publicidade de que Bailister tomou conhecimento 
no dia seguinte, de bom grado teria prescindido dela. O 
conceito de "festa assassina" tornou-se uma mxima na cidade 
de Nova Iorque. Os jornalistas da imprensa arruinavam com 
prazer os seus colegas da odiada televiso. A festa foi 
depenada como um ganso e s a lista de convidados deu azo a 
que fossem recordados os grandes artistas - finalmente havia 
pano para mangas, para poder discutir-se durante semanas a 
fio. Atravs do assassnio passou-se  nostalgia florescente. 
A boa disposio que isso iria trazer aos leitores, durante o 
pequeno-almoo!
O assunto j se tinha tornado francamente fantasmagrico, 
quando, logo no segundo dia aps a festa assassina, o 
presidente Hunters chamou Bailister e lhe disse:
- Jrome, Pemm deu-me uma ideia...
- Justamente Pemm! - disse Balister azedo. - No  das 
minhas funes, mas lembrei-me de que j temos Shakespeare que 
chegue.
- E quem est a falar dos velhos mancebos de Inglaterra? 
- Hunters riu-se com sarcasmo. - H muito tempo que eles no 
tinham um tema to  xxxxxx bom: Pemm vai fazer uma srie sobre 
a sua festa assassina. Parece-me uma ptima ideia retratar a 
vida desta cidade. Alm disso,  um aguaceiro romntico e 
social. Quando uma pessoa pensa bem em todos aqueles que Lora 
reuniu  sua volta naquela noite! Esse bando de grandes 
desordeiros. Antigamente, um programa destes no seria 
patrocinado por nenhuma estao de televiso do mundo. No 
entanto, a ACF vai faz-lo. Vamos reconstituir tudo como 
aconteceu na tua casa, Jrome! Vamos deixar as velhas donzelas 
e os mancebos representarem o papel das atraces principais, 
como um flashback das suas vidas. E depois, suspense, enquanto 
Croi:: canta o papel de Papageno, Varone  morto no teu lago! 
Isso dava uma cena de arrepiar o prprio Hitchcock! O final 
que Pemm idealizou  formidvel: os antigos grandes cantores 
ficam, na ltima parte, junto ao lago e cantam o coro final do 
iannhauser. Vai ficar gravado na memria, Jrome. Ningum mais 
vai esquecer essa cena! Isto  uma verdadeira histria para 
televiso! Nunca acreditei que Pemm fosse um jovem to 
inteligente e que pudesse fervilhar de ideias. Que te parece?
-        Uma merda! - respondeu Balister, rude.
-        Uma taxa de audincia na ordem dos oitenta e cinco 
por cento! - Hunters pareceu ficar ofendido. - Em comparao, 
o Bonanza  um sktech sem importncia!
-        Por uma merda dessas, encerro a minha casa! - disse 
Balister em voz alta.

-        Ento construmos um modelo igual no estdio! To 
simples como isto: a fachada e um lago, umas quantas rvores, 
escurido... Jrome, isto  o argumento de um filme. Para os 
outros autores seria ouro sobre azul, se tivessem tido a ideia 
primeiro. Reflecte sobre o assunto, Jrome. Para ti poder 
significar a vice-presidncia da ACF.
Balister bebeu o copo de usque de um s trago, bebida 
essa que Hunters tinha pago, e fez uma careta ao engolir 
aquela mistela.
-  preciso ocorrer um assassnio para que os portes 
abram - disse Balister. - Hunters, sinto-me enojado!
Temos, na verdade, um emprego assim to ftido?
-        Fazemos televiso para cima de cem milhes de 
pessoas. J te esqueceste?
Hunters remexeu num mapa com as novas estatsticas, mas 
Balister acenou negativamente com a cabea. Conhecia-as to 
bem como Hunters. Clculos de computador com os quais eles 
deviam dar saltos de alegria. Indicadores de audincia da 
prpria emissora, os inquritos representativos do Instituto 
de Sondagens, que tinham de ser potenciados para que os 
nmeros reais se aproximassem da realidade, todas estas 
estimativas desumanas onde meio por cento a mais ou a menos 
significava milhes de dlares.
-        No ltimo trimestre, a ABC e a BFN registaram uma 
subida significativa de...
-        Neste trimestre estamos  frente! - interrompeu 
Bailister em tom afectado. - Trs xitos estrondosos, dois dos 
quais se devem a Felicitas.
-        E um a Pemm! - Hunters abanou as orelhas enormes. 
Conseguia faz-lo na perfeio, o que lhe valera a alcunha de 
o Elefante. As ms-lnguas afirmavam que ele transplantara os 
pavilhes auriculares normais por outros substancialmente 
maiores, de modo a poder ouvir o mais leve rudo. - Jrome, 
somos uma empresa que precisa de ganhar dinheiro para no 
desabituar os nossos accionistas de beber champanhe. Preciso 
dizer-te exactamente quanto? Quem seguiu durante anos a pista 
de que Marilyn Monre no morreu por causa de comprimidos, mas 
devido a uma injeco aplicada por um mdico da famlia 
Kennedy? Mesmo que fosse mentira... jornalisticamente falando, 
isso era uma superbomba!
-        Isso era completamente diferente, Hunters.
-        Claro. No tinha nada a ver com a nossa prpria 
casa! Mas um bom espectador de televiso no teme os seus 
prprios limites. - Hunters vergou-se sobre a mesa larga, que 
os dividia. - Na verdade, Jrome, tive a ideia do sculo!
-        Por favor, esquece, Hunters! - disse Balister 
aborrecido.
-        Felicitas vai representar o papel principal! Pela 
primeira vez, Saunders como actriz num papel de estrondo! Ah, 
que grande ideia! - Hunters abanou as orelhas novamente. - 
Vamos arquitectar um enredo que vai arrancar suspiros de 
deleite dos mais novos aos mais velhos! A tua Lora tambm toma 
parte: papel principal nmero dois! Faz o papel de si prpria, 
a mulher do chefe de uma estao televisiva e que  a leoa das 
festas. E Felicitas ser a sua rival, a quem assassinam o 
amante, o prprio Varone.
-        No fico aqui a ouvir mais disparates! - insurgiu-se 
Balister, levantando-se. - Vou preparar uma emisso da Casa 
Branca, que  mais importante.

-        Mas o melhor ainda est para vir, Jrome! Todos 
pensam que Varone  o seu amante, mesmo havendo entre eles uma 
diferena de idades de quase trinta anos. E, enquanto o homem 
est de molho no lago, sem vida, vem a saber-se que ele no  
o seu amante, mas sim o seu pai secreto! Era por isso que ela 
vivia com ele! Portanto, o assassino ciumento matou 
absolutamente sem necessidade! Meu rapaz, em toda a Amrica 
vo esgotar-se os lenos! Se chorarem cem milhes de pessoas, 
vai haver uma inundao! A ACF pode mandar revestir de ouro a 
sua antena retransmissora! E  isso que tu queres recusar?
-        Nem Lora, nem Felicitas, Hunters! - disse Balister 
em voz alta e decisiva. - E como rivais, nem pensar! Antes 
disso, renuncio ao meu emprego!
Bailister deixou o perplexo Hunters e desceu no elevador 
at ao estdio 4, que ficava na cave, onde estava a ir para o 
ar uma emisso de Fsica para o Uso Domstico "No me faltava 
mais nada", pensou Balister, quando olhou espantado para o 
cenrio: Lora e Felicitas frente s cmaras, no seu prprio 
papel. Quem  to idiota que enfrente um tufo quando pode 
evit-lo?
Mais tarde, j no seu gabinete, telefonou a Hunters. O 
presidente estava ofendido e, consequentemente, de mau humor.
-        Que deseja, Bailister? - perguntou Hunters 
cerimonioso.
Bailister esboou um sorriso. Por vezes, Hunters era como 
um garoto amuado. Entre quatro paredes, tratavam-se por tu h 
j quase dez anos. Nessa altura, Hunters tinha sido eleito, 
pela assembleia de accionistas, para novo presidente da ACF. 
Vinha de um meio estranho, directamente da cadeira de director 
de uma fbrica de pirotecnia. No seu discurso inaugural 
dissera o seguinte: "At agora lanava foguetes para o ar. 
Isso vai continuar. Quero lanar ACF no mais alto cu do 
panorama televisivo!" Quatro dias depois foi tomar um copo com 
Bailister, em sinal de confraternizao, porque, com o seu 
olhar decidido, reconheceu que aquele homem poderia vir a ser 
um dos impulsionadores dos seus foguetes.
-        Hunters, s por uma vez, ouve em silncio - 
respondeu Balister severamente. - Agora, vou confiar-te
um segredo. Desiste de Lora. Ela est a morrer. O doutor Meyer 
comunicou-me o diagnstico friamente. Qualquer excitao pode 
significar a morte de Lora.
-        No entanto, ela sobreviveu perfeitamente  morte de 
Varone no vosso lago!
-        Logo a seguir, ficou de cama durante quatro dias a 
tomar comprimidos. Ela no vai aguentar um confronto
com Felicitas!
-        Ah, ento  isso - disse Hunters, esticando-se.
-        Ests a ser maldoso - disse Bailister friamente.
No  nada disso. S no quero imolar Lora a essa televiso 
voraz.


Red Cummings encontrava-se numa situao terrvel. 
Percebeu isso imediatamente quando leu os primeiros jornais. 
As buscas da Polcia concentravam-se, aparentemente, num homem 
desconhecido que tambm agredira Arthur Darkster, porque 
julgava que Darkster tinha reparado em alguma coisa 
respeitante ao assassnio de Varone. Parecia ser 
indiscutivelmente certo que o assassino viera de fora e no se 
encontrava entre os convidados. A sebe de loureiros estava 
danificada na parte de trs. O autor fizera-lhe um buraco para 
entrar na propriedade e abandon-la mais tarde. Assim, uma 
reconstituio do acto seria mais fcil. Apenas faltava ainda 
o motivo. De todos os italo-americanos, Tito Varone fora o 
mais inofensivo. Agora, a Polcia estava a chamar testemunhas 
oculares. Naquela noite, quem vira um homem suspeito nas 
proximidades da vivenda dos Balister? Talvez at mesmo 
camuflado com folhas ou galhos de loureiro?
Cummings meteu-se imediatamente no seu carro 
desconjuntado e dirigiu-se  faculdade. A, mandou chamar 
Rosa, que estava numa aula, com o pretexto de que vinha da 
televiso e precisava dar-lhe um recado urgente da me.
Rosa dirigiu-se ao grande trio da entrada e quando viu 
Cummings imediatamente deu meia volta sobre as suas lindas 
pernas.
-Rosa... - disse Red, suplicante. - S um instante! 
Preciso de ti.
-        E o que poder ser?
Rosa tornou a voltar-se, contemplou-o com um olhar 
reprovador, o qual degenerou numa irresistvel comiserao. 
Cummings parecia algo desorientado e bastante descontrolado.
-        Leste os jornais? - perguntou ele.
-        Claro.
-        Andam  minha procura.
- Quando algum se comporta de uma maneira to idiota, 
no tenho pena nenhuma! - disse Rosa, indo contra os seus 
sentimentos.
-        Eu no matei Varone.
-        Isso sei eu.
-        Nem sequer o conhecia.
-        Tambm no conhecias Arthur. E, no entanto...
-        Ele abraou-te.
-        Vai  Polcia e esclarece tudo.
-        No acreditariam numa nica palavra minha!
-         o que eu tambm receio. Que queres fazer ento?
-        Nada! - respondeu Cummings, num tom miservel. - Vou 
continuar a ser o fantasma que a Polcia persegue.
-        E assim encobres o assassino para sempre.
-        Isso  o que me enlouquece mais! Rosa, com quem 
posso falar sobre este assunto?
-        Com ningum, Red. - Rosa encaminhou-se para ele, 
afagou-lhe o rosto e sorriu-lhe animadora. -  um segredo que 
nos pertence s a ns. E temos de acabar com ele.

Captulo 4

Quem conhecia Hunters, no estaria decerto  espera de que ele 
desistiria, sem lutar, de um plano to bom como o de fazer uma 
srie de televiso baseada na festa dos Balister. O assunto 
tambm era, de facto, passvel de agradar ao pblico e, deste 
modo, no bastava o veto de Ballister para deix-lo morrer.
Pemm apareceu no gabinete de Balister e atirou com 
o seu bon desportivo contra a parede. O bon era a sua imagem 
de marca e Pemm usava-o sempre. Depois, sentou-se em frente de 
Balister, colocou uma pilha de papis em cima da mesa e 
disse:
-        Trabalhei nisto durante dois dias e duas noites. 
 uma super-histria! A ACF vai ser agraciada com o trofu da 
lgrima de ouro!
-        Deixa-me em paz! - rosnou Balister. - Tenho 
mais que fazer! Ao fundo do corredor so as latrinas.  para 
l que deves ir!
-        Hunters est bastante satisfeito.
-        Parabns. Prope-lhe ir brincar aos mortos!
-        J falei com Felicitas - disse Pemm com um olhar 
cndido.
Balister deu um salto, como se tivesse sido picado. 
O rosto avermelhou-se:
-        Isso  uma insolncia! - exclamou com voz 
estridente. - Pemm, Felicitas pertence ao meu pessoal! Ela  
minha subordinada e de mais ningum!
Pemm abanou a cabea, meteu a mo no bolso e atirou 
a Balister um tubo de vidro por cima da mesa.
-        Para qualquer eventualidade.
-        O que  isto?
-        Sete-cloro-trs-carboxi-um, trs-dihitro-dois, dois
-dihidroxi-cinco-fenil-cinco H-um, quatro-benzodiazepina.
-        Fora daqui!
-        Acalma extraordinariamente. Um comprimido de manh e 
outro  noite. Todo o tumulto deste mundo vai ser-te 
completamente indiferente, como um camelo com tosse na Arbia 
Saudita.
-        Que disse Felicitas?
-        Ficou entusiasmada com a histria.
-        No! - Balister levantou-se de um pulo. - Pemm, 
isso  um enorme e completo bluff!
-        Pergunta-lhe.
-         o que vou fazer. Imediatamente! E se mentiste...
-        Fazes o qu? Ora! E se eu estiver a dizer a verdade?
-        Quando falaste com Felicitas?
-        H duas horas. No estdio catorze. Ela estava a 
conversar, frente s cmaras, com um rapaz da Organizao 
Mundial Petrolfera e estava a desfaz-lo com o argumento de 
que tinha falado com o prncipe Khalif.
-        Eu sei. Perguntas da actualidade pela tarde! Onde 
est ela agora?
-        Em casa.
Balister pegou no telefone, mas antes de marcar o 
nmero, olhou desafiador para Pemm mais uma vez.
-        Ainda vais a tempo! Se Felicitas contar exactamente 
o contrrio, o escritrio aqui estar para sempre encerrado 
para ti!

Pemm encolheu os ombros e exibiu um largo sorriso:
-        Se assim for, Jrome, tira a porta dos gonzos. No 
vais precisar mais dela. O que eu disse  absolutamente 
verdade.
Balister marcou o nmero de telefone de Felicitas e 
aproveitou o tempo de espera, enquanto o telefone tocava, para 
chamar a secretria de Hunters pelo intercomunicador e dizer:
-        Blondie, diz ao presidente que estarei a dentro de 
dez minutos.
Blondie era o tipo de mulher caracterstica da antessala, 
que provocava complexos de inferioridade aos visitantes.
-        Certo! - respondeu lacnica e desligou.
Em casa de Felicitas Saunders parecia no estar ningum. 
Ou ela ainda no tinha chegado a casa, ou fora, novamente, dar 
um dos seus passeios pelo jardim, perto do qual no havia 
nenhum telefone que pudesse incomod-la.
-        Vou at casa dela - disse Bailister. - Pemm, toma 
nota do seguinte: vou mandar proibir a srie, como defesa da 
minha pessoa!
-        O teu nome no  citado. No filme, chamas-te Valry 
Sadou.
- Mas toda a gente vai saber quem est por detrs desse 
nome!
Pemm sorriu com prazer.
- As pessoas nem vo reparar!
Hunters preparou-se para a nova visita de Balister:
acendeu um grosso charuto havano, um pouco de usque e 
tamborilou com os dedos em cima do tampo da mesa o ritmo de 
uma marcha militar.
- Aviso-te, Jrome - disse Hunters de imediato, assim que 
Balister entrou a porta -, de que estive na infantaria naval!
-        Isso j foi h mais de trinta anos!
-        Mas ainda est muito enraizado em mim! J no tens 
qualquer hiptese. Felicitas ficou encantada com o papel. A 
amante que, na realidade,  a filhinha adorada e bastarda. Ela 
tinha lgrimas nos olhos quando lhe descrevi o papel!
-        Duvido! - gritou Bailister. - Felicitas reagiria de 
outra maneira a um tal disparate. Se no se risse, afagaria 
levemente o queixo e com isso encerrava-se a questo. Vou j a 
casa dela!  por isso que estou aqui e Pemm j sabe:
vou proibir o filme!
-        Dois milhes de dlares... - disse Hunters jovial.
-        O qu?
-         o que vais ter de pagar de indemnizao  ACF se 
te atravessares no caminho. E ainda estou a ser suave. Estou a 
fazer-te um preo de amigos.
-        Meu Deus... no tens escrpulos?
-        Na televiso? - perguntou Hunters, pasmado.
Balister capitulou. Olhou para Hunters quase com 
complacncia e virou as costas na direco da porta.
-        Vo fazer o filme, mesmo sem Lora e Felicitas? 
perguntou, com a mo na maaneta da porta.
-        Talvez. Mas ento j no faz o mesmo sentido!
-        Nunca fez o menor sentido! - disse Bailister, 
cortante. - Lora e Saunders no vo entrar nesse filme. De 
resto, quem ser o assassino... no filme?

- O assassino s tu! - Hunters soltou uma gargalhada. - Tu s 
o amante de Felicitas e achas que o pobre Varone  o teu rival 
desconhecido. Quando se prova, logo a seguir, que ele  o pai 
dela, tu endoideces por completo, fazes uma cena estupenda e 
inesquecvel como demente e atiras-te ao rio East. Depois, s 
esquartejado pela hlice de um navio de excursionistas, que 
transporta a Associao de Apoio  Manuteno de Limpeza da 
Cidade, cujos membros esto a cantar o hino do clube, "Quando 
as Folhas Coloridas de Outono Caem". Os espectadores at vo 
molhar as calas de entusiasmo. A propsito, o papel de Valry 
Sadou deve ser interpretado por Tenessi Lambord. Fez uma 
representao de muita classe como Macbeth e  capaz de 
exprimir um olhar de louco fantstico.
Para Balister foi de mais. Saiu apressadamente do 
gabinete de Hunters, bateu com a porta e esticou o brao 
direito na direco da amorosa Blondie.
- Ele ainda est vivo! - disse Bailister em tom spero. - 
Mas, quando uma fada boa atender a um grande desejo meu, vai 
ser acometido de uma apoplexia!

Evidentemente, a chegada de Balister  vivenda de 
Saunders foi observada e fotografada por Arthur Darkster. O 
facto de Balister fazer uma visita particular  sua reprter 
estrela no era nada de extraordinrio, tanto mais que as 
mulheres - Lora e ela - eram amigas, coisa que o prprio 
Darkster havia visto claramente. No entanto, fora do normal 
era o facto de Balister dispor de um aparelho de rdio, que 
estava regulado na frequncia de Felicitas. Balister acertava 
o sinal a partir do seu prprio carro, o qual abria 
automaticamente o porto, uma intimidade que se sintonizava 
com a posse das chaves da casa.
Podia ver-se que o perigo muitas vezes se ocultava nas 
coisas mais pequenas e simples.
Darkster apercebeu-se disso. Depois, fez um telefonema, a 
partir do telefone da idosa Jenny Havelook, para o seu 
contacto Ahmed Sehadi ibn Mahmoud, no Hotel Plaza, e disse:
- Bob, meu caro, estou desesperado. No estou a falar de 
despesas adicionais. Felicitas Saunders  o exemplo da mulher 
respeitvel: de casa para a televiso e depois novamente para 
casa, no tempo intermdio no acontece nada.
Sou capaz de entender a sua frustrao, mas quanto  sua vida 
amorosa, no consigo atribuir-lhe nenhum companheiro de cama 
animalesco. Bailister acabou de chegar a casa dela.
-Ah!
-        Que quer dizer esse "ah"? Balister  o chefe dela e 
Felicitas  amiga da mulher dele, Lora. E, mesmo que ele 
viesse tocar  sua campainha durante a noite, continuava tudo 
a ser legal! Voc no conhece Balister.
-        Temos informaes precisas sobre todas as pessoas 
com quem a senhora Saunders se d.

-        Nesse caso, Bob, deve saber que tipo de pessoa  
Balister! Supercorrecto, um trinca-espinhas, um agitador no 
que toca ao trabalho, um devorador de papis, de quem os 
colegas dizem que quando diz uma piada, deve ser decretado 
feriado nacional! Seria verdadeiramente perverso um tronco 
estril como ele ter alguma ligao com Felicitas. E sobre 
Rosa, a filha dela, sei que  a ela que se devem 
exclusivamente as visitas masculinas naquela casa. As visitas 
em geral. Para a Saunders, a casa  uma ilha isolada e 
sossegada, onde ningum deve entrar. Ela d uma festa apenas 
uma nica vez por ano, pouco antes do Natal. Nessa altura, 
convida os colegas da ACF e presenteia-os. E com o qu? Nunca 
conseguir adivinh-lo, Bob: com bolachinhas de erva-doce, 
bolachas de amndoa feitas por ela mesma, e um Christtollent, 
tipicamente alemo! Ela  to inquietantemente solitria...
Ahmed Sehadi ibn Mahmoud rosnou um agradecimento e 
desligou. Estava desconcertado e desiludido, zangado e 
atormentado com perguntas. Havia aqui qualquer coisa que no 
batia certo. A vida que Saunders levava contradizia a sua 
prpria confisso. Havia um homem! Ela mesma o dissera ao 
prncipe Khalif, sem hesitaes e com o orgulho de uma mulher 
apaixonada. Dissera-o de tal forma que o corao de Khalif 
comeara a sangrar e a sentir pelo desconhecido um dio de 
morte.
Teria Arthur Darkster falhado? Ahmed era forado a negar 
esse facto, porque nunca ningum tinha visto Felicitas 
Saunders to de perto e por tanto tempo como ele.

Bailister parou em frente  casa, saiu do carro e fechou a 
porta. Deteve-se no grande trio da entrada, decorado com 
pinturas e esculturas modernas, e chamou em voz alta:
-Lici! Lici!
Contudo, no obteve resposta. A primeira coisa que viu, 
quando se dirigiu  janela das traseiras, foi Felicitas. Ela 
estava a nadar na enorme piscina. Debaixo do toldo de flores 
j usado havia uma cadeira de piscina, uma mesa com sumos de 
fruta e um televisor porttil ligado.
Balister despiu o casaco, pendurou-o numa dobradia 
branca da porta e puxou uma cadeira de verga para junto da 
mesa. Quando Felicitas deu a volta na piscina e se preparava 
para nadar de regresso, viu Bailister, acenou-lhe, saltou da 
gua e correu para ele. Estava nua e era sempre uma emoo 
nova ver o seu corpo. Balister deu um salto, agarrou numa 
grande toalha e enrolou-a  volta de Felicitas, quando ela se 
aproximou de si. Felicitas beijou-o, tornou-se rgida e 
esperou at que Balister acabasse de esfreg-la, desde os 
ombros at s pernas. No parecia ser a primeira vez que o 
fazia, porque as suas mos tinham alguma percia. Quando 
Balister lhe enxugou os seios e os quadris, Felicitas fechou 
os olhos e acariciou-lhe o rosto.
- Estou a pensar em LaRochefoucauld - disse ela. A sua 
voz tinha um timbre mais carregado do que o habitual. - O 
Homem precisava de maiores virtudes para suportar a felicidade 
do que a infelicidade, segundo ele dizia. De acordo com esta 
filosofia, ns somos os maiores hipcritas.
Bailister terminou de limp-la e voltou para a sua 
cadeira de vime. Encheu dois copos com sumo de fruta e levou 
um a Felicitas. Esta deitara-se na cadeira de jardim, deixara 
cair a toalha para o cho, junto de si e ofereceu o seu corpo 
ao sol e a Bailister. Para ela, isso era muito natural. 
Bailister conhecia cada centmetro do seu corpo. Felicitas 
achava que mostrar pudor apenas porque era de dia era de uma 
enorme hipocrisia. Ela pertencia-lhe, para isso no era 
necessrio nenhum relgio.
- Porque ests to srio? - perguntou Felicitas. - J 
sabias que Rosa fica hoje na universidade?
-No...

- No vieste at aqui para aproveitar uma ocasio to 
rara?
-        Venho por causa do Hunters, Lici.
-        Perdo? O senhor presidente est aqui em servio!
Felicitas puxou a toalha para tapar a sua nudez e segurou-a 
sobre os seios. - Ser que d tempo para me vestir 
decentemente?
-        Tambm Pemm andou a incomodar-me.
- Eu sei. Ele quer levar  cena uma Me Coragem de seios 
desnudos e procura por toda a parte patrocinadores para essa 
ideia genial.
-        Ele disse-me que tu tinhas ficado encantada por 
entrar num filme juntamente com Lora e que seria baseado na 
nossa festa horrvel.
- Ele falou-me sobre os seus planos. Achei a ideia 
excelente.
- Lici! - Bailister arregalou os olhos, estupefacto. - 
Desculpa, mas j no consigo perceber-te! Sabes, na verdade, 
qual  o papel?
-        Sim, ele explicou-me.
- Tu vais representar o papel de rival de Lora! s a 
minha amante!
-        Iramos apenas representar a vida real, meu querido.
-        Lora no resistiria! Aperceber-se-ia rapidamente das 
semelhanas.
-        Lora  mais forte do que todos ns julgamos.
- Acho este assunto um disparate pegado! - Balister, 
excitado, corria de um lado para o outro no terrao. - Sou 
contra a ideia de sermos tomados pelo pnico e de sermos 
apossados pelo esprito comercial da questo! E o que mais me 
desilude  o facto de tu concordares com isto! Esperava de ti 
algo muito diferente; que tu...
Balister calou-se. O seu olhar cruzou-se com o de 
Felicitas e sentiu-se subitamente incomodado. Nos olhos dela 
havia um aviso, mas Bailister ainda no sabia qual a forma que 
a agresso tomaria.
-        Bob no regressou do Vietname - disse Felicitas e 
Balister ergueu ambas as mos.
- Novamente esse assunto? Isso  completamente diferente.
- Ele s queria procurar a nascente de gua mais prxima. 
Nem sequer estava na frente de combate; estava na retaguarda a 
restabelecer-se, a descansar, a acolher os reforos e tudo 
estava calmo. A populao da aldeia era sim ptica, as 
raparigas fornicavam com os soldados de Bob, era tudo muito 
natural, porque os soldados tinham gordura vegetal, acar e 
raes de carne e Bob foi  nascente uma vez para buscar gua. 
No regressou. Quando foram procur-lo encontraram-no... numa 
cova que haviam feito prximo da nascente. A cova estava 
aberta com papelo e terra e desabava quando um homem adulto 
passasse por cima. Bob jazia a trs metros de profundidade, 
espetado em estacas afiadas de bambu. Sete estacas tinham 
trespassado o seu corpo.
-Lici... - disse Balister com voz abafada.

- Tambm  horrvel, no achas? Mas incomodou-os o 
suficiente para se lembrarem de fazer um filme sobre isso? 
Talvez fosse pouco doloroso... um capito do exrcito dos 
Estados Unidos que se dirige a uma nascente de gua que fica 
empalado numa cova. O filme seria um grande xito. Nunca 
suportaria v-lo! E tu esperneias tanto porc querem fazer um 
filme baseado numa festa, na qual um velho cantor foi 
estrangulado com uma corda e atirado a um lago pouco profundo?
- No pensaste bem no assunto - disse Balister em 
voz rouca. - Quando te ocorreu esse maldito pensamento? Agora 
mesmo? Neste instante? Junto de Pemm e de Hunters no te 
lembraste disso! Isso posso eu jurar, porque conheo-te bem! 
Quando Pemm veio com essa proposta s pensaste numa coisa: 
"Com isto posso brincar com o fogo! Assim, Lora presencia a 
verdade disfarada em argumento de filme! Assim, pode 
habituar-se  realidade. Se representar este papel, a vida 
real  meramente uma continuao e j no encerra em si 
nenhuma surpresa."
- Eu amo-te! - disse Felicitas calmamente.
- Eu tambm te amo! - gritou Balister, com uma 
sbita e arrebatadora falta de autodomnio. -Mas... raios!. 
temos de ter muito cuidado!
- Eu tenho trinta e sete anos.
- Ningum diria.
- E os anos passam. Voam mais depressa do que...
- No vais arrastar-me para o pnico da velhice, por 
favor! Mais do que iSSO, tenho eu em casa! Quando, no 
aniversrio, Lora recebeu de um colega senil quarenta e quatro 
rosas, uma por cada ano, desatou numa gritaria que eu precisei 
mandar chamar o doutor Meyer e uma ambulncia! Se comeares 
agora tu tambm a fazer malabarismos com os teus trinta e sete 
anos... para mim s uma jovem radiosa!
- At  primeira operao plstica!
- Que tem isto a ver com o filme estpido de Pemm e 
Hunters? - gritou Balister, descontrolado. - S precisas de 
dizer que no e o projecto estoira! E eu estou  espera de que 
recuses...
-  ento disso que ests  espera? - perguntou 
Felicitas, espreguiando-se.
A voz dela tinha sido um aviso para Balister, mas 
ele estava demasiado irritado para prestar ateno s mnimas 
alteraes.
-E!
- Como director da ACF ou como meu amante?
- As duas coisas!
- Mensagem recebida! - Felicitas largou novamente a 
toalha, sentou-se nua na cadeira de jardim e pegou no seu 
copo. -  como director da ACF que ests aqui. Nesse caso, 
devo dizer que a diviso entre o programa Actual no deve 
misturar-se com a diviso do Jogo Televisivo! Pemm no te 
exigiu nenhuma entrevista com Brejnev. E o meu amante? Onde 
est ele? Eu no o vejo! Aqui no terrao s est um homem a 
espumar de raiva e a vociferar. O meu amante Jrome  
afectuoso e no perde a cabea sem motivo.
- Lici! - gritou Balister e bateu com as mos uma na 
outra. - Eu s quero impedir que nos envolvamos num drama 
pessoal.
- Vem sentar-te ao p de mim. - Felicitas bateu levemente 
com a mo na cadeira. - Beija-me e unta-me com creme. 
Principalmente no peito. Tu sabes como a pele  
particularmente sensvel nesse stio... Oh, Balister, 
Bailister, porque havia eu de deitar fora as minhas convices 
mais firmes justamente por tua causa?

Durante este intervalo no se falou mais no projecto 
deste filme.

O funeral de Tito Varone foi um acontecimento em Nova 
Iorque.
O tribunal liberou finalmente o corpo e autorizou que se 
transferisse Varone de um gaveto gelado para um bonito caixo 
de mogno trabalhado, com um crucifixo na tampa.
O cemitrio encheu-se mais de curiosos do que de lutados. 
Queriam ver as antigas estrelas esquecidas que desfilavam 
junto  sepultura, atiravam terra e flores para cima do caixo 
e se mostravam bastante abaladas, sempre que um batalho de 
cmaras as focava e lhes queria perturbar o passado, nem que 
fosse apenas por alguns metros de filme.
Hunters no perdeu a oportunidade de fazer um gesto junto 
ao tmulo, apesar de mal ter conhecido o morto e de este nunca 
ter cantado na ACF. Tal como todos os artistas antigos, 
tornara-se desinteressante para os patres das televises,  
medida que a sua voz se tornava fraca E j nem mesmo as 
melhores mscaras conseguiam disfarar quando Rodolfo cantava. 
Tambm Hunters no foi excepo. Quando Lora, sempre 
ocupadissima com as suas misses de beneficncia, lhe props a 
realizao de um programa chamado Para sempre Inesquecvel, 
Hunters respondeu:
- Lora! Eu tenho dinheiro para gerir e para malUcar. No 
o meu, caso contrrio seria generoso. Ns todos sabemos que 
no ganhamos nada perdendo com emisses sobre gente 
ultrapassada! Preferia um programa de Hal Bobcock! O jovem Faz 
uma entrada triunfante com vidro na bragUiLha das calas! Em 
cada concerto esto de servio cem enfermeiros para remover as 
mulheres histricas.
Contudo, agora, junto ao tmulo, Hunters referiu-se 
pateticamente a Tito Varone como um dos maiores cantores do 
nosso tempo. Depois, aconteceu-lhe um percalo:
Recordou-se do seu grande xito com O Barbeiro de Sevilha, que 
Varone nunca cantou, uma vez que era tenor e bartono. Quem 
cantara O Barbeiro de Sevilha fora o em tempos elegante Croix, 
o qual estava agora junto ao tmulo com ar soturno e escutava 
o elogio fnebre que seria inadequado para si, mas que cedia a 
Varone. Evidentemente, Alhur Darkster tambm estava presente 
no funeral. Tinha registado e participado a visita que 
Balister fizera a Felicitas e que este havia ficado em casa 
dela durante trs horas. Devia ter sido um assunto de 
negcios. Uma fotografia tirada a Balister a sair no seu 
carro pelo porto - tirada com uma excelente teleobjectiva 
mostrava um homem muito zangado. O rosto de Bailister estava 
contrado ao ser posto fora daquela casa por Felicitas. 
Darkster veio a saber mais tarde que tambm na televiso 
reinava um ambiente tenso entre Balister e Saunders. 
Balister j no ia ao estdio quando Felicitas estava no ar e 
Felicitas j no bebia o habitual ch com Bailister na cantina 
depois do trabalho.

Darkster conseguiu uma boa colocao no rdio. Por acaso 
encontrou no corredor um homem que conhecia muito bem. Ewald 
Pytsch, antigo reprter do Daily News e que escrevera uma 
srie de artigos sobre um monstro misterioso que,  noite, 
seguia raparigas nos parques, violava-as e, como prenda de 
despedida, gravava, aparentemente com um cabo elctrico em 
brasa, o seu monograma debaixo do seio esquerdo. A Amrica 
inteira lera fascinada as histrias sobre este monstro do 
sexo, at que uma mulher-polcia disfarada de prostituta 
conseguira domin-lo. Aps um golpe de karat, ele foi ao 
cho. Provou-se que o reprter Ewald Pytsch tambm era o 
monstro gravador sexual. Tinha descrito o seu prprio 
procedimento vergonhoso, o qual ele
- tal como tinha afirmado em tribunal - apenas adoptara para 
poder escrever uma srie sensacionalista!
Deste modo, Pytsch ficara queimado como reprter. Depois 
de passar trs anos na penitenciria, mergulhou na 
clandestinidade e desapareceu. Agora, Darkster voltou a v-lo 
na ACF. Era ajudante de tcnico de luzes, arrastava cabos 
elctricos, montava projectores, examinava as primeiras 
iluminaes e agora chamava-se Je Holland.
Holland-Pytsch no ficou nada entusiasmado com este 
reencontro. Pagou duas cubas livres e dois cachorros-quentes 
na cantina e prometeu a Darkster, em troca do seu silncio de 
ferro, um carto de acesso para ele utilizar e poder entrar na 
emissora a qualquer hora do dia ou da noite. Para o porteiro 
era quase impossvel conhecer o rosto de toda a gente e 
bastava-lhe a exibio do carto de acesso.
Arthur Darkster tambm se aproximou do tmulo, atirou 
algumas flores para a ltima morada de Varone, permaneceu em 
atitude respeitosa durante alguns segundos em inteno dos 
queridos mortos e depois olhou de soslaio para o grupo de 
pessoas que o interessava muito mais. L estavam Bailister, 
Lora, Felicitas, Rosa, Hunters, Croix, Pemm e outras 
celebridades. De entre eles destacava-se o cabelo ondulado de 
artista do pianista russo Tschassnov. E, precisamente, na 
continuao desta cabea marcante, do lado de fora da multido 
cerrada, perto de uma lpide, na qual se destacava um anjo de 
mrmore, estava um homem cujo rosto Darlster conhecia. E, de 
repente, uma ideia atravessou-lhe o pensamento: lembrou-se 
daquele rosto indistinto que surgiu da noite e que havia visto 
apenas por um segundo, antes de
apanhar o golpe no queixo. Era ele, tinha de ser ele! Darkster 
interrompeu o luto por Varone, deu lugar
prxima pessoa que ia atirar flores e correu atravs do 
crculo de enlutados. Abriu caminho na retaguarda, mas quando 
chegou perto do anjo de mrmore, o homem tinha desaparecido.
- Merda! - exclamou Darkster.
Em seguida, passou todos os intervalos entre os tmulos a 
pente fino e agora estava plenamente convencido de ter visto o 
homem que o tinha agredido. Pela lgica, esse homem devia ser 
tambm o assassino de Tito Varone.
Um pouco afastados estavam dois homens vestidos de 
azul-escuro. Cada um deles tinha na mo um ramo de flores, mas 
no os atiraram para o tmulo, nem sequer se aproximaram. 
Darkster sorriu constrangido, dirigiu-se a eles e bateu ao de 
leve com o indicador na testa, em sinal de saudao.
- Ele est aqui, tenente - disse Darkster. - Atirem as 
vossas flores e bloqueiem as portas do cemitrio.
- No me aborrea, Darkster! - O tenente empinou o 
queixo. - Fotografmos tudo. Se ele estiver aqui, ficou nas 
fotografias.
- Nada de pnico. Ele estava a menos de quinze metros 
atrs de vocs. Eu conheci-o.
- Darkster, voc  uma besta! E no disse nada?

O tenente atirou com as flores, que foram cair ao lado
dum tmulo, onde jazia Sarah Bulderness, que morrera
em 1897. - Onde? Como era ele? Porque no deu voc o alarme 
imediatamente?
- Junto a um tmulo? Eu estava em frente do caixo e j 
tinha atirado as minhas flores...
- Voc deixou escapar um assassino! - gritou o tenente. - 
Descreva-o!
-        S lhe conheo a cara. Assim que o descobri, 
afastei-me logo do tmulo e fui atrs dele. Mas j no estava 
l. No posso dizer-lhe como o sujeito estava vestido, 
tenente. Assim que reconheci o rosto dele, tive a certeza 
absoluta.
Era de prever que um funcionrio perfeitamente 
escrupuloso fosse capaz de executar um trabalho insensato. 
Tinham de prender um homem que ningum conhecia. O que 
Darkster descrevera era mais do que insuficiente.
Idade entre os vinte e trinta. Alto, do tipo desportivo. 
Queixo angular. Cabelo? Resposta insuficiente. O homem usava 
um bon amarelo-esverdeado, com uma pala verde. Esta era a 
nica informao que podia ser proveitosa.
Enquanto a Polcia ainda estava a passar o cemitrio a 
pente fino e os ltimos acompanhntes do funeral do Tito 
Varone desfilavam, Red Cummings voltava para casa.
O bon amarelo-esverdeado com a pala verde estava no 
assento ao seu lado. Quisera apenas lanar um olhar a Rosa e 
foi por isso que fora ao cemitrio. Quando viu Arthur 
Darkster, achou que era melhor desaparecer imediatamente.
No tinha a certeza se Darkster havia visto alguma coisa, 
antes de cair desmaiado naquela noite. Posteriormente, Rosa 
contar-lhe-ia se Darkster tivera algum tipo de reaco. Em 
todo o caso, era melhor contar com o pior e ausentar-se por 
uns tempos.
- Venha comigo, Darkster - disse o tenente mais tarde, 
quando todas as pessoas se retiraram e tambm quando Balister 
se foi embora com o seu squito de artistas e se dirigiram ao 
Vesvio, o restaurante italiano de Luigi, numa homenagem da 
ACF a Tito Varone. - Vamos preparar um retrato-rob, baseado 
nas suas informaes, e faz-lo circular por entre as pessoas. 
Por vezes, isso  muito til, mesmo que uns culos escuros e 
um bigode possam modificar completamente uma fisionomia. Sobre 
o resto, est bem esclarecido?
-        Sobre o qu, tenente? - perguntou Darkster 
verdadeiramente surpreendido.
- Se o assassino souber que o reconheceu, voc passa a 
ser uma pessoa ameaada. Ande sempre de costas para as paredes 
e fique em casa quando comear a escurecer.
-        Isso at pode ser divertido - disse Darkster azedo.
-        Se tiver a sorte de ser um sobrevivente! - ironizou 
o tenente, tentando ser sarcstico. - Quer que o ponhamos sob 
proteco policial?
- No! Obrigado! - recusou Darkster. - Prefiro andar de 
costas viradas para a parede.


A conversa com Idi Amin no seu exlio na Lbia fora 
perfeita. O chefe de Estado, Khadafi, manteve a sua promessa 
de convencer Amin a aceitar. Foi o primeiro sinal de vida de 
Idi Amin desde que se dera a sua fuga do Uganda e, 
simultaneamente, a confirmao de todas as conjecturas de que 
a Lbia o tinha acolhido. O jogo das escondidas acabara. Os 
comentrios de todo o mundo a criticar este asilo poltico 
deixaram Khadafi impassvel. O petrleo lbio fazia face ao 
desenvolvimento da economia europeia, assegurava milhes de 
postos de trabalho e garantia a prosperidade e
crescimento da economia. A indignao devia-se, em parte, aos 
aspectos morais, mas principalmente como promessa, no 
permitia a ingerncia dos assuntos polticos. E as promessas 
eram fcil e rapidamente esquecidas. Quem vive no deserto, 
como Khadafi, compreende as coisas de outra maneira, uma vez 
que para eles os espaos de tempo so maiores do que para os 
que vivem dependentes do relgio.
Na realidade, o prncipe Khalif Ornar ben Saud tambm 
exerceu a sua influncia. Telefonou ao seu querido "irmo" 
Khadafi e comunicou-lhe que teria muito interesse em que 
Felicitas Saunders fosse a primeira e a nica entrevistadora a 
ver Anim.
- Eu tambm passarei por ai - disse Khalif. - Podemos at 
conversar sobre vrias coisas que so importantes para o 
futuro.
Estas razes secretas eram, evidentemente, desconhecidas 
em Nova Iorque. Na ACF, no andar das chefias, todas as luzes 
vermelhas estavam, simbolicamente, acesas: segredos ao mais 
alto nvel! Hunters, que recebeu pessoalmente o telex da 
Lbia, sem que este tivesse de passar pelas vias respectivas, 
ofegou antes de mais nada como um hipoptamo submerso, gritou 
para Miss Blondie a pedir uma garrafa de usque, depois 
fechou-se no gabinete e jurou mandar emoldurar aquele telex e 
pendur-lo na parede principal do seu quarto, como se fosse um 
autntico Picasso.
Passado pouco tempo, percebeu que este xito no lhe 
pertencia, mas sim a Felicitas Saunders. Depois, colou o telex 
na parede com fita gomada e mandou chamar Balister e 
Felicitas.
Balister declarou rudemente:
- Se se tratar do projecto sobre a festa, de momento no 
estou disponvel, Hunters!
-        Venha j c acima! - disse Hunters num tom bastante 
formal. - Tem a ver com o departamento de informao.
Felicitas tambm tinha uma pergunta, a qual Hunters 
recebeu com um gemido.
- Balister est consigo?
- H-de vir a.
-        Ento eu vou depois.
- Vm os dois agora! - vociferou Hunters. - Que diabo! 
Que tenho eu a ver com as vossas desavenas? A emissora est 
perante um exclusivo mundial e vocs cospem-se como dois 
lamas! Venham j aqui!
Mais tarde, Balister, Hunters e Felicitas estavam mudos 
em frente do telex afixado. Mostravam-se algo comovidos, mas 
cada um deles pensava em coisas diferentes.
- Isto vai definitivamente pr a ACF nos pncaros! disse 
Hunters no mesmo tom de voz solene que utilizou no falso 
elogio fnebre no funeral de Varone. - Felicitas, nem sei como 
havemos de agradecer-lhe.

- Fico muito feliz com isto! - afirmou ela. -  uma 
sensao estranha ficar cara a cara com um homem que mandou 
atirar a prpria mulher aos crocodilos.
E Balister disse, com a sobriedade que lhe  
caracterstica:
- Felicitas no dever ir  Lbia. Probo-o!
 estranho como ningum se apercebeu de como o edifcio 
da ACF estremeceu com esta bomba.

Captulo 5

Depois de todas as exploses h sempre uma fase de calma e de 
silncio paralisador. Era como se todos os seres vivos 
precisassem de voltar a retomar o flego.
Hunters respirou fundo, afastou-se da parede com o telex 
da Lbia afixado e disse, com voz grave, como se, na verdade, 
tivesse engolido o p resultante da exploso:
- Jrome, agora endoideceste completamente. Vai para 
casa, mete-te na cama e espera pelo psiquiatra. Vou mandar-te 
o doutor Ellworth. Ele tem muita experincia. Est at a 
tratar dois senadores.
- Felicitas no vai viajar! - teimou Balister. - Quando 
ela veio com a proposta para entrevistar Idi Amin no exlio, 
eu concordei, porque achei que no conjunto, isso era 
totalmente impossvel. Mesmo quando Khadafi escreveu que 
deveria levar o assunto por diante, eu no acreditei que 
Felicitas tivesse a alegria de ter um sonho impossvel, porque 
no correria o risco de tornar-se realidade. Mas agora, o caso 
muda completamente de figura!
- Como assim? - perguntou Hunters, ainda no seu tom de 
voz grave. - Ela vai at l de avio, espreme o panudo e 
regressa com um exclusivo mundial.
- E se ela no voltar?
- Idi j no se impressiona com mulheres! - Hunters tirou 
o telex da parede, abanou-se com ele e dirigiu-se  enorme 
janela. Dali de cima podia ver-se, para alm do rio Hudson, um 
panorama de cortar a respirao. - E se ele ou Khadafi forem o 
tipo de Felicitas, no precisas preocupar-te.
- E a mim ningum pergunta nada? - Felicitas Saunders 
encaminhou-se para o sof, sentou-se e pegou no copo de usque 
de Hunters, que estava em cima da mesa. -
Hunters, no preste ateno ao que Bailister est a dizer. H 
j alguns dias que ele est to intragvel como um arenque 
podre.  evidente que vou a Trpoli.
- No! - interrompeu-a Balister em voz alta.
- Temos de mudar a chefia do departamento de informao - 
observou Hunters. - Infelizmente. Infelizmente. O actual chefe 
sofre do juizo.
- Por que razo no devo ir at l? - perguntou 
Felicitas.
A sua voz ressoava num tom beligerante, mas Balister j 
se habituara a isso naqueles ltimos dias. " uma questo de 
principio", pensou ele. "E uma prova de fora irrefutvel. No 
tarda estamos a gritar com algum... e, depois de amanh 
voltamos a encontrar-nos num hotel dos subrbios e grudaremos 
os nossos corpos. De que maneira posso explicar a Hunters que 
morro de medo de que ela v  Lbia e que no quero sacrificar 
o meu amor, nem mesmo por uma reportagem. Como posso dizer-lhe 
isto sem que Hunters descubra o nosso segredo mais ntimo?" No 
entanto, Felicitas provocou uma situao em que Balister 
apenas podia sucumbir.
- Tu j sabes a razo - respondeu Balister.
- Eu no sei de nada. No conheo nenhuma razo que me 
proba de fazer a reportagem da dcada.
- Para a ACF! - ribombou a voz de Hunters do fundo da 
sala, perto da janela.

-  simplesmente perigoso! - retorquiu Balister aos 
gritos. - Se  que no acham razo suficiente!
- Vamos fazer um seguro para Felicitas no valor de um 
milho! Assim, Rosa fica protegida.
- s um amor! - disse Balister, sombrio. - Um corao de 
rinoceronte! Quem so as pessoas que tu realmente estimas?
- Ns aqui fazemos televiso - Hunters suspirou, como se 
tivesse o corao destroado. - No  possvel fazer um filme 
sobre o mrito de uma pessoa.
-Podemos... oferecer Felicitas Saunders em sacrifcio 
como sensao do dia!
- Excelente. - Hunters dirigiu-se  mesa, serviu-se de 
mais um usque e, ao pousar a garrafa, bateu com ela na 
bandeja. - Assumes imediatamente a responsabilidade da emisso 
dos domingos de manh Este E o Dia do Senhor! Assim, podes 
pregar  vontade.
- No sei porque esto a discutir - interveio Felicitas. - 
Jrome, no pode acontecer-me nada. A publicidade mundial j 
est a.
- A publicidade no transformou o mundo por causa de 
Felicitas Saunders. Ela presenciou o horror no Vietname, no 
Camboja e no Bangladesh; a evaso de milhes de pessoas por 
terra e por mar. E que fez ela? Ficou apavorada! Denunciou. 
Deste modo, os acusados passaram algumas horas agradveis. 
Mataram-se a rir  custa da publicidade mundial! Que acham 
vocs que vai acontecer quando Felicitas Saunders desaparecer 
na Lbia? No vai acontecer nada! Meia dzia de linhas nos 
jornais, Hunters vai assumir a sua indignao na televiso, 
mas no vai conseguir fazer frente ao argumento da parte 
contrria; foram bandidos que raptaram Felicitas no deserto! 
Ainda se est  procura dela. Bandidos h-os por toda a parte, 
principalmente nos Estados Unidos! E passados alguns dias 
ningum mais vai falar de Felicitas. Hoje em dia, quem conhece 
ainda aquela velhota judia, pobre e doente, que foi arrastada 
para o avio em Entebe por Amin e que foi assassinada algures? 
Quem fala dela ainda?
- Eu! - disse Felicitas calmamente. - Quero fazer 
perguntas a Ainin sobre ela.
- Est louca! - gritou Bailister horrorizado. - Hunters, 
ao menos confesse que isto  uma estupidez!
-  uma estupidez, Felicitas! - rosnou Hunters e abanou 
as orelhas.
"Agora ele foi longe de mais", pensou Bailister. "Era 
melhor cortar a conversa. Isto j deu o que tinha a dar. S 
vamos conseguir insultar-nos brutalmente."
- Jrome tem toda a razo. Contudo,  uma estupidez sem 
preo, quando  bem sucedida! - concluiu Hunters.
- Alm do mais, quem iria fazer-me desaparecer? E porqu? 
- perguntou Felicitas com alguma lgica.
- Ningum. - A voz de Balister parecia enferrujada pela 
excitao.
- Ele agora est mesmo fora de si! - disse Hunters e 
olhou para Bailister como se este fosse um doente.

- Ningum, se Saunders for para l como turista. No 
entanto, ns conhecmo-la. Como se passou tudo quando foi do 
Arafat? Ele interrompeu a conversa e foi muito atenCiOSO, por 
forma a no met-la imediatamente na cadeia. E como foi com 
Pol Pot'? Esse f-la passar, a todo o custo, a fronteira para 
a Tailndia, e por conseguinte, escapar. Todos eles so 
cavalheiros, ainda por cima tratando-se de Felicitas. Em 
relao a Idi Amin, no tenho dvidas. Quando Felicitas 
iniciar a conversa  sua maneira e lhe perguntar:
" verdade que o senhor mandou atirar a sua mulher aos 
crocodilos?  verdade que matou pessoalmente prisioneiros  
pancada, com golpes de martelo?  verdade que mandou arrancar 
os olhos e a lingua de um dos seus ministros?  verdade que 
mandou amputar os rgos genitais dos seus opositores e depois 
os obrigou a com-los?" Que ir acontecer ento? Ser que Anim 
vai rir com prazer: "Felicitas, tu s uma brincalhona! Tudo 
isso so mentiras do imperialismo!" Hunters, no te embriagues 
como um balde sem fundo... diz qualquer coisa!
-        Felicitas deve evitar esse tipo de perguntas. - 
Hunters lanou a Saunders um olhar algo suplicante. - Sempre 
h outras perguntas...
- Ento, ela no vai. De acordo?
- De acordo! - disse Felicitas. - Sou apenas eu quem 
decide sobre as minhas entrevistas! Fao as perguntas que eu 
achar adequadas! No tenho medo.
-        Mas tenho eu! - vociferou Bailister. - Tenho eu! 
Ds-me licena?
-        Onde vamos parar quando, em televiso, se tornam 
determinantes os sentimentos pessoais? - gritou Hunters entre 
os dois. - Tudo isso  garganta! A grande reportagem est 
dependente do risco e  isso que a distingue das outras!
Balister deu um salto, olhou para Hunters, como se 
procurasse um lugar para aplicar imediatamente uma punhalada 
mortal, ignorou Felicitas e saiu do gabinete a correr. Na 
antessala deu de caras com Blondie, a qual tinha escutado 
tudo.

Duas horas mais tarde, Felicitas telefonou a Bailister. 
Este tinha ido para casa, tomado um duche, como se a conversa 
com Hunters o tivesse sujado terrivelmente, e agora estava 
sentado no jardim de Inverno, por entre plantas tropicais. 
Lora no estava em casa, fora a Nova lorque comprar uns 
sapatos novos na loja de Valentino.
- Jrome? - perguntou Felicitas com doura.
- No est em casa! - respondeu Balister.
- Ests sozinho?
-         engano, menina...
-        No sejas ridculo, querido. Vem at minha casa.
-        Est a falar com um desconhecido, porque se 
realmente me conhecesse, acharia desnecessrio sentar-se para 
me telefonar.
-        Estou deitada, meu amor. E estou com muita vontade 
de ver-te. Rosa foi fazer um piquenique com um amigo
muito simptico, chamado Red Cummings.  estudante de 
medicina. Quer vir a ser cirurgio. Rosa apresentou-mo; parece 
que este  o seu primeiro grande amor. Vem at Jrome. Tenho 
de falar contigo. Preciso de ti agora.
-No.
- Tem a ver com a Lbia.
- Assunto morto e enterrado! Para mim j no tem qualquer 
espcie de interesse!
- No sejas to teimoso, meu amor.
- Com mil demnios! Eu amo-te e morro de medo! Uma pessoa 
no pode calar-se, deixar de acariciar nem

deixar de amar. Por que razo deveria eu ir a? Cada abrao 
teu s faz aumentar o meu medo!
-        Queria propor-te que viesses comigo  Lbia. 
Balister ouviu como ela respirou fundo. - Deve ser
maravilhoso, Jrome, ns nunca fizemos amor no deserto. - Era 
um defeito de Balister, mas perdia sempre o
comportamento sbrio quando estava perto de Felicitas. A 
apresentao prvia da entrevista exclusiva que Saunders 
queria fazer com o exilado Idi Amin Dada, num lugar ainda 
mantido secreto, foi uma enorme sensao. O Minis trio dos 
Negcios Estrangeiros ligou a Hunters, o mesmo acontecendo com 
a CIA e com a Organizao para Democratizar o Uganda. Nos 
pisos reservados  administrao das estaes concorrentes 
notava-se uma correria desenfreada. Felicitas teve de tirar o 
telefone do descanso. As ofertas das editoras livreiras, 
revistas e agncias noticiosas sucediam-se umas s outras. 
Apareceu um homem em casa de Balister que queria 
familiarizar-se com o assunto do debate. Apresentou-se como 
uma pessoa que estava em contacto permanente com os servios 
secretos israelitas.
Quem se viu em apuros foi Arthur Darkster.
-        Que fao agora? - perguntou a Ahmed Sehadi ibn 
Mahmoud. - J tinha previsto que acontecesse algo do gnero. 
Uma pessoa no pode ficar colada  saia da Saunders! Como vou 
fazer para chegar perto de Amin, eu que sou um pobre 
insignificante?  capaz de dizer-me, Bob?
-        Mete-se num avio e vai at l! - respondeu Ahmed 
simplesmente.
-        O seu sentido de humor faz-me calafrios - disse 
Darkster. - Quando parto?
-        Um dia antes de Felicitas Saunders.
-        Que Al lhe beije a testa, Bob. Mas agora falando 
sinceramente, sem piadas...
-        No  nenhuma piada, Darkster. Voc parte no dia 
anterior para a Lbia e hospeda-se no Hotel Es Sidra. 
Encontrar um quarto reservado em seu nome.
-        O vosso servio  realmente de primeira classe!
-        Mas ateno. Felicitas Saunders j conhece a sua 
cara!
-        No posso fazer uma operao plstica assim s 
pressas. - Darkster riu-se da sua prpria resposta idiota. E 
uma mscara daria muito nas vistas.
-        Por isso, tem de ter muito cuidado para que, na 
Lbia, nenhuma das pessoas que o conhece o veja.
-        Vou transformar-me num rabe, com jalabia, barba e 
culos escuros. J tenho experincia disso. - Darkster riu-se 
intimamente com prazer. - Todos os anos a colnia alem em 
Nova Iorque festeja o Carnaval. Eu sou sempre convidado. Nos 
ltimos trs anos mascarei-me de rabe. S lhe digo, Bob, que 
foi um grande xito. H qualquer coisa que vocs os rabes 
devem ter, que enfraquece as mulheres.
-        Ter notcias nossas - disse Alimed de mau humor.
- Amanh ser depositado um adiantamento de dois mil dlares 
na sua conta bancria, para as despesas da viagem.
Antes que Darkster pudesse agradecer com entusiasmo, 
Ahmed desligou.

Balister tambm encontrou algumas dificuldades. Protelou 
at ao ltimo momento a notcia de que tambm ia  Lbia. Lora 
resistira  festa dramtica aparentemente sem efeitos 
visveis. O Dr. Meyer, que a acompanhava, estava menos 
optimista do que Balister.
- Perto de Lora vivemos como num barril de plvora - 
disse o mdico claramente. - No se pode dizer quando se dar 
o ponto crtico, porque no se sabe qual  o detonador que 
pode desencadear a fasca. A morte de Varone abalou-a, contudo 
o choque manteve-se  superfcie. Pode ser outra coisa a 
feri-la psiquicamente. Um golpe inesperado. A isso seria 
difcil ela sobreviver. - O Dr. Meyer lanou a Balister um 
olhar perscrutador. - Jrome, desabafe comigo e conte-me se 
tem uma amante...
- No diga asneiras - retorquiu Ballister, pouco amvel.
- Um mdico no se limita a escutar as batidas cardacas, 
a tomar o pulso e a receitar comprimidos; tambm  o confessor 
mais prximo e, assim, tambm sabe muita coisa. Em comparao 
com os padres, o mdico tem uma enor vantagem, no a de mandar 
rezar o padre-nosso, mas a de oferecer ajuda e propostas 
concretas.
- Vamos mudar de assunto, senhor doutor - disse 
Balister, que se retraa intimamente, como um caracol na 
casca. - Pode indagar a meu respeito  vontade que no vai 
descobrir nada. No sou nenhuma mina secreta de sexo.
- E tambm no tem esse tipo, Jrome! No entanto, voc  
um homem e vive a maior parte do tempo do seu dia no meio de 
uma maldita multido de mulheres bonitas, as quais no so, 
propriamente, um modelo de virtudes.
- A sua fantasia  galopante, senhor doutor. - Ballister 
sorriu algo constrangido. - Uma estao de televiso no  
nenhum bordel!
- Deus me livre de pensar uma coisa dessas! O Dr. Meyer 
ergueu as duas mos. - Contudo, j o visitei algumas vezes na 
televiso. Deparou-se-me a tentao personificada em cada um 
dos corredores.
- Isso  a sua perspectiva de espectador.
- E Lora...
- Essa  a verdadeira doida! Lora  do meio, vive nesse 
ambiente tempo suficiente...
- Por isso mesmo.
- Ela soube que no casou com o guarda-livros de uma 
mercearia.
- Essa da mercearia  excelente!
- Nunca dei motivos a Lora para pensar dessa maneira!
- Ela est nervosa devido ao facto de Felicitas trabalhar 
consigo.
-        Que disparate! - Balister tornou o dilogo bastante 
acalorado. - Eu conheo os cimes dela. Felicitas at  amiga 
de Lora.
-  verdade. Gostam tanto uma da outra como Isabel 
Primeira e Maria Stuart. Felizmente, j no h execues!
- Doutor, o senhor est a exagerar.
Bailister procurou um cigarro, encontrou um todo 
amarrotado no bolso das calas e acendeu-o. O Dr. Meyer 
agradeceu, mas disse que s fumava charuto ou cachimbo.
- Lora confessou-lhe alguma coisa? - perguntou Ballister.
-Sim.
- O qu?

Balister dominou a sua excitao. Mirou o Dr. Meyer com 
alguma frieza.
- Lora disse: "Se Jrome me enganar, no vou conseguir 
sobreviver. E ele tambm no. "
-        Ela disse isso?
-        Palavra por palavra. Guardei bem o teor dessas 
frases curtas, mas bem significativas. Por isso, tenha muito 
cuidado, Jrome, se se meter em algum negcio de saias. 
Geralmente, perde-se a noo da realidade quando se est 
apaixonado. E quanto mais velho for o homem, mais idiota se 
torna.
- Obrigado! Eu ainda s tenho quarenta e cinco anos.
- J no  assim to novo. - O Dr. Meyer acenou vrias 
vezes com a cabea e depois levantou-se. - Se o tranquiliza, 
eu acredito em si, Jrome. Lora  uma mulher extraordinria, 
mas isso no preciso dizer-lhe. Se agora ela est um pouco 
histrica, ningum pode levar-lhe isso a mal. Aos quarenta e 
quatro anos, fervilha em todas as mulheres o pnico do 
envelhecimento inevitvel. Tambm voc, meu caro, vai entrar 
em crise. Aos cinquenta anos os homens endoidecem como um 
carrossel desenfreado.
- L em casa isso est iminente, senhor doutor! - disse 
Balister cauteloso.
- Tambm tu, Brutus!
- O senhor voltou a pensar o mesmo. No, eu tenho de ir  
Lbia.
- Para a tal entrevista louca com Amin?
- Sim.
- Mas isso  o trabalho de Felicitas.
- Eu vou acompanh-la.
- Vo sozinhos?
- Naturalmente que vai a equipa de operadores de cmara e 
tudo o resto. Seremos, ao todo, nove homens.
- Mas Lora no vai.
-No.
- Nesse caso, deve esclarec-la j! - Meyer pareceu muito 
preocupado. - Aqui temos a falha que pode desencadear a 
exploso.
-        Tenho de ir!  preciso. Tenho uma profisso e que 
desempenh-la o melhor possvel. Lora tambm tem que entender 
isso. No posso pr em risco o meu trabalho por causa dos 
cimes dela.
- Voc podia ir para a Lbia com uma centena de raparigas 
nuas, mas no com Saunders.
- S ela pode fazer esta entrevista. S a aprovaram a 
ela! Se formos com outro entrevistador, podemos ser 
imediatamente recambiados.
- Eu sei disso tudo, Jrome! Ento, leve Lora consigo!
- Ela seria capaz de resistir  viagem?
-        No sei.
- Seria uma canseira. Ningum sabe onde Aniin est 
escondido. E se for no meio do deserto, num osis?
-        Nesse caso, no estado em que Lora se encontra, seria 
incapaz de aguentar.

- Ento, todas as respostas esto dadas. No a levo 
comigo, porque pode ter um colapso cardaco. E ento diro 
deviam partir os braos a esse Balister, porque a deixou em 
casa. Se acontecesse alguma coisa a Lora na Lbia, riam: esse 
Balister arrasou-a com a sua viagem. Ele j bia que ela no 
resistiria. Ento, que devo fazer? Seja que for que eu fizer, 
est errado!
- Vou falar com Lora - disse o mdico. - Acho que sou o 
nico que no lhe desperto desconfiana.
O Dr. Meyer falou com Lora. Balister deu por isso essa 
noite, quando, cansado do trabalho, chegou a casa. Ela tinha 
exagerado na maquilhagem, mas, apesar disso, Bailister reparou 
que ela chorara bastante. Isso entristeceu-o sinceramente, mas 
tambm o fez ser mais cauteloso.
- Com que ento, vais com a Felicitas  Lbia - disse
Lora, dominando-se. - Foi simptico teres encomendado o sermo 
antecipado ao doutor Meyer.
Balister absteve-se de relatar os factos verdadeiros. 
Era evidente que Lora no se encontrava em estado de entender 
explicaes.
- Eu no vou  Lbia com Felicitas - disse Ballister -, 
s cumpro o desejo da ACF de acompanh-la, como medida de 
segurana.
- Por acaso s do FBI ou dos Servios Secretos?
- perguntou a mulher, mordaz. - Eles contrataram-te como chefe 
ou como "gorila"?
- Lora, por favor - disse Balister angustiado. - Porque 
ests a falar de coisas que no podem ser alteradas? J sabes 
isso!
-        S sei que Felicitas conseguiu novamente levar a 
cabo outro dos seus planos completamente loucos e todos vocs 
tm de aplaudir! Ela assobia e vocs vo a correr. Porque no 
resolvem emitir na estao, como programa de continuidade, a 
histria de O Ftauttsta de Hamelm? Felicitas podia desempenhar 
o papel de tocador de flauta e vocs todos a, guinchar atrs 
como ratos!
-  intil continuar a falar contigo nesse tom! - disse 
Balister.
Em seguida, dirigiu-se  mesa onde o esperava um prato 
aquecido com os seus petiscos predilectos - peito de peru com 
molho de cogumelos e natas, acompanhado de um leve vinho tinto 
francs - e sentou-se. Lora correu para a mesa e deixou-se 
cair na cadeira defronte dele.
-        Bom apetite! - desejou ela furiosa.
-        Obrigado. Estou estafado. - Balister serviu-se de 
vinho. - Excelente peru...
-        Mandei-o vir da Mackenzie. - Lora no se mexeu e 
tambm ignorou o facto de Balister lhe ter enchido o copo. - 
Quando queres partir?
-        Eu no quero nada.
-        Quando tens de partir? - perguntou Lora, trocista.
-        Depois de amanh bem cedo vamos para Paris. Da 
vamos at Trpoli. Este  o caminho mais rpido.
-        O que dirias se eu tambm fosse? Oh, no! No 
convosco da ACF! No quero intrometer-me no vosso grupo. Vou 
por conta prpria! Sozinha! Talvez at no mesmo avio, ou em 
qualquer outro que parta mais cedo ou mais tarde do que o teu. 
Que dirias se eu aparecesse de repente no teu quarto de hotel 
em Trpoli?
-        Bom dia, Lora. Hoje est um calor danado, no achas?
-        Muito engraado! Transformaste-te com a idade... em 
todos os aspectos!  preciso ter cuidado com a detonao. 
Podem facilmente surgir problemas de ignio!

-        Andaste a ler algum livro sobre granadas? - 
perguntou Balister calmamente. Comia com gosto o peito de 
peru e espalhava o molho de cogumelos sobre a carne. - Que 
estavas  espera que eu dissesse? - voltou Balister a 
perguntar.
-        Eu vou l estar, meu amor! Isso te juro. Podias at 
sentir-te abandonado! A mim ningum me atira para um canto, 
para criar bolor. No a mim! No preciso da vossa 
condescendncia. Seja como for, no vejo necessidade de pedir 
autorizao a ningum. Posso muito bem ir sozinha  Lbia!
-        Se tivesses um visto...
-        O meu advogado vai tratar disso. No tenhas falsas 
esperanas...
-        Tu tens um advogado? - perguntou Balister, 
espantado. - Desde quando?
-        Desde h muito tempo!
-E quem ?
-        No posso mencionar nomes!
-        Est certo. No tens de fazer nada! s uma mulher 
americana livre, cheia de direitos...
-        Eu sou tua mulher!
-        Isso ningum pode contestar.
-        H coisas que parecem vermelhas, apesar de serem 
negras.
-        Nesse caso,  absolutamente necessrio consultar um 
oftalmologista. A essa doena d-se o nome de "acromatopia 
parcial".
-        Tu s asqueroso! Asqueroso! Asqueroso!
-        Agora tambm h sintomas de fonofobia.
-        Que  isso?
-Gaguez...
-        Odeio-te! - disse Lora em tom sombrio. - Oh, meu 
Deus, como te odeio! s um demnio!
Bailister pensou bastante nas palavras do Dr. Meyer e 
desistiu de responder ou fazer outro tipo de comentrios. 
Continuou a comer sob o olhar letal de Lora, bebeu o seu copo 
de vinho e, em seguida, levantou-se.
- Acompanhas-me? - perguntou Balister.
-        Onde?  Lbia?
A voz de Lora soou mordaz e sonora.
-        No. At  sala de fumo. Quero fumar um bom cachimbo 
em paz.
-        Queres que te encha o cachimbo?
-        Por favor, no. Desde novo que tenho um calo no 
polegar direito, por fazer isso.
-        Que te faa bom proveito! - gritou Lora. - Vou para 
a cama.
Balister limitou-se a encolher os ombros e esperou at 
que Lora sasse pela porta e atravessasse a sala de fumo. Era 
uma sala em estilo ingls antigo, algo atravancada com 
retratos de antepassados, que no eram de Balister, e armas 
antigas, as quais serviam apenas para acumular p. Contudo, a 
lareira, guarnecida de mrmore, tinha uma ventilao 
excelente, que no deixava o fumo vir para a sala. Em vez 
disso, ardia de uma maneira agradvel, com romnticas falhas 
crepitantes.

Balister sentou-se num cadeiro ingls de couro, acendeu 
um precioso cachimbo e contemplou a lenha, que todas as noites 
o jardineiro se encarregava de atear, independentemente de a 
sala ser ou no utilizada.
"Ela vai  Lbia", pensou Balister. "Eu conheo-a. De 
repente, l est ela a abraar e a beijar Felicitas e a mim 
tambm, representando as suas dramticas cenas de teatro. E 
vai acompanhar-nos na nossa incurso pelo deserto."
Pela primeira vez na sua vida, Balister deu-se conta de 
que um deserto poderia ser muito perigoso e que uma mulher 
como Lora poderia ser devorada. No havia quaisquer 
alternativas... era o destino.
Balister contemplou o fumo que saa do seu cachimbo.

Arthur Darkster partiu para Trpoli, tal como planeado, 
um dia antes de Felicitas Saunders.
A organizao funcionou primorosamente. Esperou  porta 
do Hotel Plaza, para que Ahmed Sehadi ibn Mahmoud lhe 
entregasse o passaporte, a reserva do hotel, os bilhetes de 
avio e um documento escrito em rabe, no qual se destacavam 
alguns selos de bom efeito. Darkster mirou o documento e 
estendeu-o a Ahmed.
-        Estou radiante, Bob, por me tratar como um 
diplomata, mas que significa este documento aqui?
- Esse passe vai permitir-lhe circular por todo o lado na 
Lbia, mesmo nas chamadas zonas proibidas.
- Estupendo! Sem risco?
- S tem de apresentar esse passe.
- Posso ter a certeza de que os servios de controlo 
tambm sabem ler?
- Quando quiser ofender o mundo rabe, diga-o claramente. 
Assim, terei um motivo para atir-lo pela janela.
Darkster desculpou-se de imediato, pegou nos papis e 
deixou Ahmed com a sensao de ter entrado num negcio que 
valia, pelo menos, trinta mil dlares. Para si, a sua vida 
valia mais do que isso. Pagou adiantado mais um ms de renda  
viva Jenny Havelook, meteu apenas o estritamente necessrio 
numa pequena mala de mo, dormiu algumas horas e perdeu o seu 
terceiro encontro com Cummings.
Red aparecera em casa de Felicitas, a qual estava a 
ultimar os preparativos para a viagem e explicou que queria 
tomar conta de Rosa como um co treinado. A senhora Saunders 
no precisava preocupar-se.
- Felizmente! - disse Felicitas. - Voc sabe o que eu 
penso, Red. Pode falar comigo sobre todos os assuntos. J no 
perteno  gerao que contava aos filhos a histria da 
cegonha.
- Dou-lhe a minha palavra de honra - disse Cummings -, de 
que vai encontrar Rosa tal como a deixou.
- E como foi que a deixei, Red?
- Tem alguma dvida?
- No. - Felicitas olhou pensativa para Cummings. - 
Ganhou recentemente algum combate de boxe cuja notcia tenha 
vindo no jornal?
-No. Porqu?
- Parece-me ter visto um retrato seu.
- Impossvel.

Cummings exibiu um sorriso aberto e desarmado. A maldita 
fotografia do retrato-rob, que a Polcia tinha divulgado, 
aparecera em todos os jornais e j havia causado bastantes 
desgostos a Cummings. Os seus colegas da faculdade 
cumprimentavam-no sorridentes com um "seu assassino de 
festas!" e, embora Rosa h j muito tempo andasse a tremer de 
medo, no havia chamado a ateno da Polcia, tanto quanto 
Cummings tinha conhecimento. No conjunto, toda aquela situao 
era demasiado ridcula e absurda. Alm do mais, era assim o 
aspecto de centenas de milhares
de jovens americanos e ainda por cima a Polcia andava tambm 
a mostrar uma segunda fotografia diferente, que representava o 
mesmo homem com culos e bigode. A Polcia dizia ao mesmo 
tempo: " possvel que ele tenha modificado o seu aspecto." 
Troava-se bastante de Cummings, mas deixava-se a Polcia 
continuar a procurar. Uma referncia seria suficiente para 
terminar com toda esta comdia. Entretanto, o verdadeiro 
assassino de Varone continuava impunemente  solta e 
divertia-se com o retrato falado. Pelo menos, Rosa via isso e 
Cummings dava-lhe razo. Contudo, recusava-se a esclarecer o 
equvoco com a Polcia.
- Sou alrgico  Polcia! - disse Cummings a Rosa. Por 
norma, uma pessoa no deve submeter-se, de livre vontade, s 
garras do poder. Naturalmente, no atraio um tigre quando no 
h grades a separar-nos.
Na manh seguinte, Darkster dirigiu-se ao Aeroporto 
Idlewild. O seu voo era um pouco mais complicado do que o de 
Felicitas Saunders. Darkster voou de Nova iorque at Lisboa, 
de Lisboa at ao Cairo e do Cairo at Trpoli. Foi uma viagem 
que durou catorze horas, mas Darkster teve a vantagem de ter 
uma escala de quatro horas no Cairo. Aproveitou-as para 
comprar roupas orientais no bazar e prosseguiu a ltima etapa 
da viagem como um perfeito rabe. A sua barba de quatro dias 
tinha, na verdade, um aspecto deplorvel, mas, em compensao, 
Darkster possuia um cabelo espesso, o que significava, a cada 
dia que passava, um mimetismo perfeito.
Com efeito, encontrou o seu quarto reservado em Trpoli e 
sentiu uma sede incontrolada por um usque com gelo. J se 
encontrava a caminho do bar do hotel quando se lembrou de que 
um muulmano no consumia bebidas alcolicas e isto devido ao 
aspecto de rabe com que se apresentava.
Lanou um olhar pleno de inveja na direco do bar, onde 
alguns "irmos" ocidentais se encontravam a beber, encolheu-se 
num canto, mandou vir um sumo de fruta e planeou o seu 
programa para essa noite. Trpoli no tinha aquilo a que podia 
chamar-se vida nocturna. Por isso, deu uma volta pela cidade, 
vagueou pelo velho casbah, com as suas ruas estreitas e becos, 
observou os muulmanos nas oraes da noite e foi interpelado 
por nove prostitutas no caminho de regresso ao hotel. Uma vez 
que elas falavam em rabe, Darkster procedeu como se elas 
estivessem a incomod-lo, empurrou bruscamente as raparigas 
para o lado e ficou feliz por se encontrar novamente no seu 
quarto, de temperatura agradvel. Foi o primeiro contacto de 
Darkster com o Oriente. Achou tudo interessante e extico, 
mas, ao mesmo tempo, aborrecido. No  uma contradio, mas 
Darkster sentiu falta de uma garrafa de verdadeiro teor 
alcolico.
No dia seguinte chegou a equipa da ACF, vinda de Paris. 
Foi como se tivesse cado um anjo do cu.
Antes de a porta de acesso do aeroporto se abrir, chegou 
um carro cheio de flores.

Oito criados, vestindo jalabias brancos, espalhavam 
flores sobre os degraus e descarregavam gigantescos cestos com 
flores. Em seguida, a pesada porta rangeu. Balister foi o 
primeiro a sair e depois o chefe dos operadores de cmara. 
Ambos pararam quando viram as flores e voltaram-se, 
gesticulando, na direco do avio.
Felicitas atravessou a porta, usando um vestido simples 
azul-claro e os cabelos ao vento. Parou, algo confusa diante 
deste luxo de flores e depois endireitou-se, ao olhar para 
baixo para a entrada do aeroporto.
Ao fundo dos degraus, estava parado um Rolls-Royce branco 
com um motorista fardado.
Um homem, com um fato de seda creme, fez uma vnia quase 
respeitosa.
O prncipe Khalif Omar ben Saud estava  espera de 
Felicitas.

Captulo 6

Arthur Darkster viu, pela primeira vez, o seu "patro". Em 
todo o caso, partiu do princpio de que era ele, porque lhe 
parecia improvvel que um americano se fizesse representar por 
um rabe. Trs horas antes da chegada de Felicitas  Lbia, 
Ahmed Sehadi ibn Mahmoud telefonou-lhe para o hotel e 
perguntou-lhe:
- Que sabe voc sobre Balister?
- J lhe contei tudo o que sabia!  um tipo aparentemente 
magricela, que mal sabe rir, mas que est muito acima na 
chefia da ACF.  muito bem casado com Lora, que antigamente 
deixava filas de homens literalmente paralisados. Est bem 
assim?
- No  possvel ficar paralisado de um momento para o 
outro. A paralisia  uma doena que se desenvolve lentamente.
- No leve tudo to  letra, Bob! - disse Darkster e 
lanou um olhar desesperado para o tecto. - Era apenas uma 
comparao. Admitamos que foi m, mas eu tambm no sou nenhum 
poeta! Em suma, digamos que Balister  um sujeito que trata 
do departamento mais importante da ACF da mesma forma como 
Napoleo fazia em relao s suas tropas. Esta tambm no foi 
famosa, pois no?
- Por que razo ele tambm veio  Lbia?
- Devia fazer-lhe essa pergunta a ele, Bob.
- Isso  o que voc vai tratar de descobrir!
Ahmed parecia ter ficado surpreendido com a viagem de 
Balister. Efectivamente, parecia que Felicitas vinha com uma 
equipa de operadores de cmara e um assistente e foi para 
estes homens que fora concedido o visto. Depois, bastante mais 
tarde, descobriu-se, atravs de uma investigao feita  lista 
de pessoal da ACF, que esse Balister no era, de modo nenhum, 
um assistente, mas sim o chefe directo de Felicitas. Mas 
ento, era tarde de mais: no se podia anular um visto sem 
argumentos inequvocos. O prncipe Khalif enfureceu-se, chamou 
falhado a Ahmed e ordenou que se vigiasse Ballister em 
especial. Esta tarefa recaiu precisamente sobre Arthur 
Darkster.
- Vou tentar infiltrar-me com xito no meio deles - disse 
Darkster, sarcstico. - Com um olho, ocupo-me de Balister e 
com o outro no perco Felicitas de vista. A vista... j s  
uma. E em breve no me vai servir de nada. Saunders  capaz de 
assustar-se por estar sempre a encontrar apenas metade de uma 
pessoa. Que eu saiba, Felicitas  uma esteta...
- Se voc recebesse um dlar por cada palavra imbecil que 
profere, estaria rico! - disse Ahmed, inflexvel. - Deve 
ocupar-se exclusivamente de Balister.
- Pelo mesmo preo? - perguntou Darkster, cauteloso.
A modificao da sua tarefa tambm podia significar uma 
reduo nos seus honorrios.
- Fica tudo como estava.
Neste momento, Darkster encontrava-se perto do avio 
recm-chegado. Tinha vestido o seu jalabia, como se fizesse 
parte do pessoal do aeroporto, e estava estupefacto com o 
efeito que o seu passe surtia.

S precisava exibi-lo sem dizer uma palavra e todas as 
portas se abriam para si imediatamente. Ningum lhe perguntava 
nada, tratavam-no com a maior cortesia e deixavam-no fazer o 
que muito bem entendia. Darkster chegou inclusive a fazer uma 
tentativa: puxou do documento, atravessou a barreira de 
interdio e deambulou pela pista
de aterragem do aeroporto. "Agora vem j a um jipe a toda a 
velocidade buscar-me", pensou. No entanto, ningum
se importou consigo. Com o jalabia a esvoaar ao vento 
Darkster deu a sua experincia por terminada, regressou ao 
edifcio do aeroporto e aguardou a chegada de Felicitas.
Ela j l estava, sorrindo para todos os lados. Desceu as 
escadas, esmagou as flores com os sapatos e foi recebida pelo 
prncipe Khalif. Veio tambm um representante do Ministrio do 
Interior da Lbia, mas s conseguiu cumprimentar Saunders com 
meia dzia de palavras formais e apertar-lhe a mo. O 
Rolls-Royce branco, que continuava de porta aberta, no 
permitiu cerimnias demoradas.
Darkster observava Bailister atravs do visor da sua 
mquina fotogrfica. Tinha instalado uma teleobjectiva e, 
deste modo, podia ver muito claramente e a pouca distncia 
cada ruga no rosto de Bailister e, sempre que necessrio, 
fotograf-lo. Pareceu-lhe importante o facto de Ballister no 
ir imediatamente atrs de Felicitas. Em vez disso e, aps 
algumas hesitaes, desceu calmamente as escadas. O seu rosto 
no denunciava absolutamente nada. Era um rosto 
desinteressante, tal como Darkster estava  espera. "Eles no 
regulam bem", pensou ele. "O absurdo seria se houvesse alguma 
coisa entre Felicitas e Balister, como se se quisesse fazer 
uma nova massa de fogo e gua."
O prncipe Khalif sorriu amigavelmente para Felicitas, 
como se comeasse aqui em Trpoli a sua viagem de lua-de-mel.
- Prometi-lhe que voltaramos a ver-nos - disse o 
prncipe. - E at hoje nunca esqueci uma promessa que tenha 
feito a uma mulher bonita.
- Eu vim at aqui para entrevistar Amin.
Felicitas no prestou ateno  porta aberta do 
automvel, mas sim  cabea baixa do motorista fardado.
- Falar pessoalmente com Amin, Felicitas.
- Tenho a palavra do prprio Khadafi.
- Ele  para miin como um irmo. - Khalif sorriu com 
charme. - Ps  sua disposio um pequeno palcio deslumbrante 
directamente sobre o mar, junto a Sabrathah.
- Eu vou ficar hospedada no Hotel Es Sidra. Os quartos j 
esto reservados, prncipe.
- As coisas j foram decididas de outra maneira. 
Achou-se, e eu dei-lhes toda a razo, que um palcio  melhor 
para si do que um quarto inspido de hotel.
- Estou habituada a decidir por mim prpria! - A voz de 
Felicitas soou determinada. - Vou para o hotel!
- O palcio  uma oferta do Estado. Habitar nele 
significa uma grande distino. E voc  para ns uma hspede 
querida e muito especial.
- Quero ir ficar no hotel! - insistiu Felicitas.
Parecia ser teimosia, mas quem conhecesse Saunders j 
sabia que ela era alrgica a todas as tutelas, mesmo que elas 
viessem de um chefe de Estado ou de um prncipe. Neste caso, 
era talvez uma coisa  parte.
- Eu fico onde ficar a minha equipa. Eles tambm so 
convidados para o tal palcio  beira-mar? - indagou ela.

- Voc no pode fazer uma desfeita a Khadafi. - Khalif 
desviou-se e lanou um olhar rpido, mas penetrante, a 
Balister, o qual vinha agora a descer as escadas cobertas de 
flores. Atrs dele vinha a equipa de filmagens. Era gente 
jovem de calas de ganga e camisas abertas, -vontade e 
despreocupada, e que dominava todos os truques da sua 
profisso. Havia pouca coisa que os abalasse e j estavam 
animados com as aventuras com as lbias de PEle aveludada fora 
das paredes frias do hotel.
-        No passou pela cabea de ningum que eu seria 
desagradvel? - perguntou Felicitas agressiva. - A situao 
tal como a vejo agora  a seguinte: a minha vinda aqui  vista 
no como uma visita profissional, mas sim como uma curta 
estada feudal.
-        Voc vai ver e entrevistar Idi Anim - disse Khalif 
pacientemente. - Mas tambm pode amenizar esse trabalho com 
alguma beleza nas horas vagas. Em todo o caso, est  sua 
disposio um iate.
-        O senhor no conhece o meu ritmo de trabalho, 
prncipe. Vou at junto de Amin, interrogo-o, volto para o 
hotel e regresso no prximo avio.
-        Como pode uma pessoa, justamente na sua profisso, 
ver o mundo de uma forma to simplificada?
-        Porque de facto assim ... e porque o ajusto  minha 
medida! O meu tempo  demasiado curto para presente-lo com 
insignificncias.
-        O que se passa? - perguntou Balister e aproximou-se 
de Felicitas e do Rolls-Royce.
Naturalmente, Balister conhecia o prncipe Khalif 
atravs de muitas fotografias, contudo esforou-se com ele 
para representar o papel de ignorante.
-        H alguma dificuldade com os criados? - perguntou 
Balister.
Os olhos de Felicitas iluminaram-se e ficaram 
esbugalhados.
-        De que criados ests a falar, Jrome?
Ballister apontou para o prncipe Khalf, cujo rosto 
tomou a forma de uma mscara contrada.
- Esse a! No  um criado do hotel?
- Mas, Jrome! - Felicitas abanou o dedo indicador  sua 
frente. - Tu no conheces o prncipe Khalif Omar ben Saud? A 
entrevista no avio...
-        Ah!  esse? - A fisionomia de Bailister iluminou-se. 
Exibia uma alegria frvola. - Tenho de apresentar-lhe as 
minhas desculpas, Alteza. S o conheo vestido com jalabia e 
usando o nakal. Vestido com um fato -me completamente 
desconhecido. -me extremamente penoso...
-        O prncipe tem um palcio para ns! - disse 
Felicitas e piscou o olho a Balister. -  beira-mar. E tambm 
temos um iate  disposio.
-        Eu prefiro um hotel.
Balister virou-se para o mudo Khalif. Os olhos de ambos 
cruzaram-se em silncio, mas se o choque entre os dois tivesse 
produzido barulho, teria ribombado por todo o universo.
-        Principalmente por causa das ligaes telefnicas. 
Tu sabes que eu preciso telefonar para Nova iorque vrias 
vezes por dia! Alteza, estes dois dias sero muito agitados.
-        Est a contar com dois dias? - perguntou Khalif, 
cerimonioso.

- No mximo! Que poder haver aqui para ser preciso mais 
tempo?
- Desconfio de que s poder falar com Amin daqui a dois 
dias.
-Garantiram-me... - disse Felicitas em voz alta.
-... que teria a sua entrevista. No entanto, ningum pode 
obrigar Anim a submeter-se ao vosso plano de tempo. Ele faz o 
seu prprio aproveitamento de tempo. Pode acontecer que ele 
estabelea para depois de amanh s onze horas... e meia hora 
antes cancele e adie tudo para da a mais dois dias.  uma 
pessoa independente.
-        Ns somos uma estao de televiso independente e 
equilibrada. Se  entrevista se deparar dificuldades 
desnecessrias, regressaremos a Nova iorque - disse Balister 
com leviandade.
A fisionomia do prncipe Khalif tornou-se ainda mais 
carrancuda.
-        Foi isso que determinou? - perguntou o prncipe.
-        Sim. - Bailister sorriu com uma amabilidade 
impertinente. - Esqueci-me completamente de apresentar-me, 
Alteza. Balister, Jrome Bailister. A senhora Saunders 
trabalha sob a minha direco.
-        Acho que ela  uma jornalista independente, ou no?
- Quando ela aceita desempenhar uma tarefa, pertence a 
uma equipa como qualquer outro. - Ballister fez questo de 
continuar a falar. - Peo, portanto, que para qualquer dvida 
ou deciso se dirija a mim. Eu sou o responsvel aqui. E, na 
minha opinio, acho que devamos ir j para o hotel. E se a 
senhora Saunders insistir em ir para o palcio, essa deciso 
ser apenas dela.
- Para qu esta discusso? - Felicitas sentou-se no 
RolLs-Royce branco. -  claro que o prncipe Khalif
vai levar-me para o hotel. No quero ter nenhum tratamento 
especial!
Balister ficou parado em frente ao avio, at que Khalif
e Felicitas deixaram o aeroporto a grande velocidade. Saram 
por um porto vigiado por militares. Ningum os controlou, 
pelo contrrio, a guarda chegou at a fazer continncia ao 
carro branco.
"Que vai acontecer se agora, em vez de irem para o tel, 
forem para o palcio?", meditou Balister. "No acontece 
nada!" Podia protestar-se e intervir... s estavam a
divertir-se com a situao. J no era possvel nenhuma 
conversa telefnica. Podiam isol-los do mundo e ningun se 
importaria com isso. Embora Hunters andasse sempre
na corda bamba, que poderia fazer quando o informassem
que tinha havido uma qualquer tempestade no deserto que 
afectara temporariamente a rede telefnica? Se ele acreditasse 
nisso, nem daria importncia. Estavam numa jurisdio que no 
 permevel  interveno de ningum. O totalitarismo ali era 
lei.
Por fim, Balister entrou, preocupado, num txi ali 
parado e dirigiu-se ao Hotel Es Sidra. Arthur Darkster 
seguiu-o, de muito mau humor, num segundo automvel porque 
esta vigilncia no levava a nada. Ao chegar ao ho tel, 
Bailister respirou aliviado. O Rolls-Royce do prncipe

estava estacionado  porta e o prprio Khalif estava sentado 
no trio do hotel, cercado dos seus guarda-costas. Ignorou 
Balister e continuou a beber um copo de sumo de fruta.
Bailister recebeu um quarto bonito, com uma varanda com 
vista para o jardim. Atirou a mala para cima da cama
e foi at l. Palmeiras alternavam com rvores mouriscas bem 
ao jeito da tradio antiqussima dos califas. So idnticas 
s que podem encontrar-se em Mlaga, no jardim
Generalife. No meio desta paisagem luxuriante e cheia de 
fantasia, cintilava uma enorme piscina de azulejos azuis.
O telefone tocou atrs de Balister. Entrou no quarto, 
atendeu e ouviu a voz de Felicitas.
- Estou a ver-te na varanda - disse ela. - O meu quarto 
fica  esquerda sobre o teu. Aquela enorme varanda de canto 
pertence-lhe. Queria fazer-te uma pergunta, meu amor...
- Proponho que nos encontremos dentro de dez minutos no 
jardim e vamos passear durante um bocado por entre a natureza, 
Miss Saunders - respondeu Balister cerimonioso.
- Ests doido? - A voz dela vibrou divertida. - Confessa 
que ests com cimes! Justamente de Khalif.
- Dentro de dez minutos, est bem? - teimou Bailister.
E, subitamente, Felicitas compreendeu, com um laivo de 
excitao, que o que ela e Balister pensavam, era a mesma 
coisa. Exactamente.
- Achas que puseram os nossos telefones sob escuta? - 
perguntou Felicitas, provocadora.
-  preciso contar com isso.
- No estamos propriamente em Moscovo.
- As curiosidades ocultas fazem parte dos princpios 
bsicos de um Estado totalitarista. Portanto... dentro de dez 
minutos?
A suspeita de Balister no parecia ser sem fundamento. 
Antes de ir para o jardim, voltou novamente  varanda e olhou 
para baixo. A administrao do hotel parecia ter tido um 
sbito desejo de limpeza. Na piscina trabalhavam dois guardas 
vestidos de branco e no jardim trs jardineiros apanhavam 
flores e limpavam as folhas com ancinhos. "Ento era isso", 
pensou Balister, satisfeito. "Nem sequer fazem um esforo 
para serem discretos. Querem demonstrar que so os mais 
fortes. Nem do hipteses a perguntas.
Felicitas j se encontrava  sua espera no jardim. 
Darkster estava sentado com a sua mquina fotogrfica e 
respectiva teleobjectiva num recanto decorado de um pavilho, 
de cujo telhado se podia ver o jardim de todos os ngulos. 
Darkster observava Felicitas atravs da objectiva. 
Cumprimentou Bailister com frieza, como se estivesse 
profundamente ofendida.
- Estamos a ser observados como factor de segurana 
nmero um. O teu prncipe exagerou ao mximo - disse Balister 
baixinho.
Felicitas ficou impassvel:
- Ele no  o meu prncipe! No posso impedir que esteja 
aqui e execute as artes do acasalamento quando fala comigo. Eu 
sei muito bem que achas esta viagem  Lbia um assunto 
escaldante!
-        Temos de concordar que nenhum de ns tomou qualquer 
providncia ou foi arrastado para aqui. Agora estou satisfeito 
por tambm ter vindo. O prncipe mordaz complica-me com os 
nervos.
-        Peo-te, Jrome, tem cuidado.

-        No tenho medo.
-No  isso.
De repente, Felicitas riu-se e apeteceu-lhe abraar
Bailister, mas no ltimo momento deteve-se e, antes de iniciar 
o movimento, deixou os braos carem de novo.
-        Tu sabes como a humanidade inteira entra em 
desespero quando a ira de Khalif faz voltar a subir o preo do 
petrleo! Tm-nos nas suas mos, ns somos vulnerveis e eles 
sabem isso muito bem. Podem fazer connosco o
que quiserem - disse Felicitas.
-        At uns certos limites. At que algum lhes diga: 
"Bebam o vosso petrleo sozinhos!"
-        Isso ainda pode durar anos!
-        Mas o momento est a chegar.
-        Nessa altura j tm os milhes suficientes para 
poderem sobreviver. J so uma quantidade de xeques. O povo 
no sente a falta de riqueza, porque nunca soube o que isso 
era - Felicitas abanou a cabea. - J no estamos  altura 
deles, Jrome. Esto sentados sobre o suco da vida da 
sociedade de consumo. - Felicitas parou, afastou o cabelo da 
testa e olhou em redor. Os jardineiros trabalhavam quase sem 
fazer barulho e estavam a formar um amplo semicrculo. - 
Pediste-me para vir at ao jardim a fim de conversarmos sobre 
poltica? - perguntou ela.
-        S queria dizer-te que no deves ir a lado nenhum 
sem mim.
-        Tem pacincia, mas  casa de banho vou sozinha!
-        A situao  demasiado sria para se fazerem piadas 
- disse Bailister, azedo. - Sempre tive medo de que surgissem 
dificuldades com Amin. Mas quem se lembrou de pensar em 
Khalif? Agora, porm, tudo se modificou. O perigo j se tornou 
real e d pelo nome de Khalif!
-        Ests ento com cimes, meu amor?
-        Quem o impedir de levar-te daqui? Quem sabe no 
ser censura s notcias!
-        No sabia que estavas to ligado ao departamento de 
concursos de televiso - disse Felicitas, trocista. - Um
disparate to grande s pode vir dessa cabea. Prncipe rabe 
rapta reprter de televiso para deliciar-se com ela. Contudo, 
ela lutou pela sua honra, at que o prncipe a despertou para 
a paixo. Ser que devemos tentar vender este argumento 
grandioso a Hollywood?
-        No consigo achar graa nenhuma - disse Bailister 
muito srio. - Desculpa, mas estou com este assunto entalado 
na garganta!
-        E como tencionas engoli-lo?
-        Com um ultimato! Se dentro dos prximos dois dias a 
entrevista com Amin no se realizar, voltamos para Nova 
iorque.
-        Hunters  capaz de atirar-te pela janela. Depois de 
toda a publicidade estrondosa por parte da ACF, acontecer essa 
vergonha. Felicitas Saunders regressa arruinada.  a primeira 
vez que ela no consegue uma entrevista! No pensas nisso? 
Seria uma ndoa vergonhosa para o meu nome!
-        Tambm  preciso saber aguentar as derrotas! Ningum 
pode esperar que Saunders s tenha xitos!
-        Queres ento pr termo a esta situao, caso eu no 
consiga nada dentro de dois dias?

-        E de que maneira. Toda esta tenso! Enquanto tiver 
de ficar na Lbia, no vou andar s ordens de um Khalif 
qualquer!
A uns escassos cem metros deles, num pequeno salo perto 
do bar do hotel, o prncipe ben Saud reuniu  sua volta quatro 
homens de rosto impassvel.
-        No gosto desse Balister! - declarou o prncipe com 
voz calma e os seus olhos negros observavam cada um dos quatro 
homens. -  uma cara que no me agrada ver. Mas, por favor, 
nada de escndalos. Nada de solues "fceis". Fico  espera 
de fantasia e discrio e nada de sangue!
-        Quem morre de sede no sangra - disse um dos homens. 
- At mesmo um afogamento  um trabalho asseado.
O prncipe Khalif encolheu os ombros e mostrou um Sorriso 
tnue.
-        Vou deixar-me surpreender. A minha tristeza ser 
autntica. - Khalif acenou com a mo, como se estivesse 
subitamente a enxotar moscas que zumbiam  sua volta.
Mohammad vai distribuir o dinheiro. Ele est sentado no trio. 
Saiam...
Os quatro homens voltaram-se e abandonaram o salo em 
silncio. Mohammad era o secretrio do prncipe. Fez sinal aos 
quatro homens, retirou-se com eles para um canto do trio do 
hotel e entregou-lhes um sobrescrito estreito.
Todo aquele procedimento tinha apenas um erro lgico, que 
podia vir a ser fatal. Como Khalif se esqueceu de uma coisa, 
viu-se enredado no seu prprio plano. O prncipe no tinha 
pensado em Arthur Darkster. Emaranhado na sua vingana, Khalif 
no reparou nele. Contudo, Darkster estava incumbido de no 
perder Balister de vista e dedicou-se de corpo e alma a esta 
tarefa, mesmo sendo considerado um idiota. Para Darkster, 
Ballister valia trinta mil d lares e isso era uma coisa que 
no se deixa escapar sem resistncia.
Quer deixassem Balister morrer de sede, quer o 
afogassem, quer ele fosse deixado no meio do deserto por algum 
condutor enlouquecido, ou quer o fizessem simplesmente 
desaparecer num dos becos do casbah da cidade velha, era 
preciso contar com Arthur Darkster, porque ele movia-se sempre 
no horizonte de Ballister.
Se tivessem dito a Darkster que se transformaria em
anjo-da-guarda, ele ter-se-ia embriagado apesar da sua mscara 
rabe. Por isso, Darkster esperou que Balister e Felicitas 
abandonassem o jardim, desceu do telhado do seu pavilho e 
disse em voz alta:
- Estes so os primeiros trinta mil dlares que se ganham 
por estupidez.
Darkster estava profundamente enganado.

Os planos para aquela noite sairam furados. O prncipe 
Khalif ofereceu um jantar a Felicitas, para o qual foi 
obrigado a convidar toda a equipa. Em seguida, deveria ter 
lugar um passeio atravs da cidade de Trpoli e uma caminhada 
atravs do casbah.
O fascnio da noite do Norte de frica. Os milhares de 
fragrncias dos bazares. Uma dana do ventre num clube 
nocturno lbio. E, s portas da cidade, onde comeava o 
deserto, o esplendoroso e submisso cu estrelado sobre um mar 
de areia.

Foi uma noite cheia de amabilidades contradas. Trs 
homens dos Servios de Informao lbios cercaram Felicitas e 
relataram-lhe experincias das suas vidas. Ballister desfrutou 
da grande alegria de conversar com o prncipe
Khalif e explicou-lhe, com satisfao, o conceito que ele, 
como americano, fazia da liberdade de informao. Darkster, 
que no fora convidado, no quis deixar de vigiar nem 
Balister nem Felicitas. Foi comer, numa sala contgua, perna 
de carneiro com cuscuz e molho de pimenta. Apetecia-lhe um 
usque para animar, mas, como muulmano corajoso, tinha de 
beber gua. Terminaria a refeio com um caf tremendamente 
forte e doce.
O passeio pela cidade no se efectuou, para grande 
decepo de Khalif. No entanto, tambm para os quatro 
solucionadores de problemas a soldo, sempre alerta, a pequena 
festa teve de ser interrompida.
Felicitas Saunders pediu desculpas: estava muito cansada, 
queixou-se de dores de cabea, atribuiu o facto  diferena 
horria entre Nova iorque e a Lbia e props que continuassem 
o que estava estabelecido, mas sem a sua presena. 
Naturalmente que o prncipe recusou. A equipa de operadores de 
cmara ficou desapontada e resolveu, num piscar de olhos, ir  
caa de mulheres rabes de olhos flamejantes. Felicitas 
levantou-se, permitiu que Khalif a acompanhasse at ao 
elevador e lhe beijasse a mo. Ballister escapou-se para o 
bar, lanou um olhar a Darkster e no o reconheceu 
imediatamente, devido ao jalabia e  barba de vrios dias e 
pediu um Manhattan.
Claro que Felicitas nem estava cansada nem tinha nenhuma 
terrvel dor de cabea. As diferenas horrias nunca a 
incomodavam. Balister conhecia-a demasiado bem para dar um 
desconto ao seu cansao. Perguntou-se apenas qual seria o 
objectivo dela ao estragar a noite. Quereria Felicitas 
demonstrar claramente a Khalif quem mandava ali, ou teria medo 
de que ele, Balister, pudesse ter outro conflito com o 
prncipe? Ballister pretendia telefonar-lhe para o quarto logo 
em seguida, para saber se ela tinha melhorado da dor de 
cabea.
Bailister achou os hspedes do hotel aborrecidos. Na sua 
maioria eram comerciantes franceses, alguns homens ligados  
perfurao de poos petroliferos, engenheiros, dois alemes 
ligados ao ramo do turismo, mas nenhum americano. Dois lbios 
ricos estavam sentados no bar a conversar em voz baixa e 
petiscavam uns pastis de mel, acompanhados de cocktails de 
fruta ou caf.
Passada meia hora, Balister pagou, abandonou o bar e deu 
alguns passos fora do hotel. O Rolts-Royce branco j no 
estava ali. Por hoje, o prncipe tinha-se rendido. Ballister 
rejubilou, voltou para o hotel e subiu no elevador 
directamente para o seu andar.
Arthur Darkster hesitou. O facto de Balister ter ido 
para o seu quarto no queria ainda dizer que tivesse ido 
directamente para a cama. Podia mudar de roupa e descer 
novamente, para, livre de todos os deveres e longe da sua 
mulher, tambm experimentar alguns dos encantos peculiares no 
Norte de frica. Por que razo Balister deveria
ser diferente da maioria dos homens que viajam sozinhos?

Portanto, Darkster resolveu deixar de observar o bar e 
abandonar o seu posto de vigia no trio do hotel e juntar-se a 
Balister, partindo do princpio de que este tinha ido para a 
sua viagem ntima de explorao. No entanto, no desceu. Por 
volta da meia-noite Darkster certificou-se de que tinha 
cumprido inteiramente as suas funes e achou que estava no 
seu direito de uma boa noite de sono. Fora um dia pssimo, e 
nada havia para relatar. Contudo, ele j havia previsto isso e 
j dissera a Ahmed Sehadi ibn Mahmoud, em Nova iorque: "Vigiar 
Bailister  a mesma coisa que contar os desenhos de um 
tapete." Trabalho mais estpido. Balister no tinha interesse 
absolutamente nenhum.
Quase ao mesmo tempo em que Darkster subia as escadas a 
bocejar e atirava o seu jalabia para um canto do quarto, 
batiam  porta do quarto de Bailister.
Bailister levantou-se da cama, pegou no trip de apoio da 
mquina de filmar que a equipa de filmagens lhe tinha 
emprestado e abriu a porta de rompante.
Felicitas, vestida com um roupo comprido e largo, 
esgueirou-se para dentro do quarto e fechou a porta atrs de 
si.
-        Queres bater-me com o trip? - perguntou Felicitas.
E Ballister replicou com um terror sincero:
-        Ficaste doida? Que queres aqui?
-A ti...
-        Que queres dizer com isso: a ti?
Bailister olhou para ela obtuso.
-        Apesar de tudo o que se diz, ainda h uma pessoa que 
te ama.
Bailister estava mais confuso do que comovido e falou sem 
papas na lngua.
-        Algum te viu? - perguntou.
-Acho que no.
Felicitas despiu o robe, tirou as pantufas dos ps e 
enfiou-se na cama de Balister. Trazia vestida uma verso 
reduzida de camisa de noite, a qual despiu, at ficar 
completamente nua, produzindo um certo efeito em Balister. 
Este ficou parado, indeciso. Sabia que todo o juizo do seu 
crebro seria eliminado quando tomasse o corpo de Felicitas 
nos braos. Era sempre assim, os abraos dela desvendavam um 
mundo novo e muito prprio e tudo o que houvesse alm disso 
tornava-se totalmente desinteressante.
-        E como vais voltar a sair sem ser vista?
-        Pelas escadas. Os hspedes utilizam quase sempre o 
elevador. - Felicitas comeou a bater com os dedos na almofada 
que estava perto de si. - Vem, meu amor.
-        Eu achava melhor voltares para a tua suite.
-        E eu estive na expectativa destas noites lbias 
durante todo o dia. Aqui estamos finalmente a ss! Aqui 
ningum pode surpreender-nos. Aqui no preciso de perucas nem 
de caracterizaes de teatro.
-        E se Lora surgir, de repente, por aquela porta? 
Balister rendeu-se a meio caminho e sentou-se na borda da 
cama. - Ela queria vir.
-        Agora j no chegam mais avies. Se ela vier, ento 
ser amanh. As horas que faltam at ao nascer do Sol 
pertencem-nos. - Felicitas abraou-o, atraiu-o a si para 
dentro da cama e beijou-o. - Achas que sou louca, no  
verdade?

-        O que estamos a fazer  uma imprudncia perigosa!
-        Eu vou-me embora mal apaream os primeiros raios de 
claridade no cu. - Felicitas enroscou-se nele e esticou-se 
com prazer quando as mos de Balister se demoraram no seu 
corpo. - Por que razo te amo assim tanto? J me fiz esta 
pergunta tantas vezes.
-        E qual  a resposta?
-        No sei. No entanto, se no te vejo um dia que seja, 
este fica logo estragado. Nem mesmo quando s abominavelmente 
asqueroso como chefe! Beija-me! Maldito sejas, Jrome,
beija-me neste instante...
O telefone acordou-a e ela soergueu-se sobressaltada, 
Balister olhou  distncia para o relgio de pulso e fitou 
estarrecido e preocupadissimo Felicitas. Passava pouco das 
quatro horas da manh e no era a hora mais normal para um 
telefonema.
Balister atendeu e ouviu a telefonista do hotel dizer:
- Um momento, por favor. Vou passar a ligao!
Depois ouviu a voz provocadora de Lora, entrecortada pela 
sua respirao arrebatada.
-        Jrome! - gritou Lora. A voz dela parecia 
desesperada. Balister sentou-se na cama e encolheu os ombros 
apavorado ao ouvi-la dizer: - Ests a ouvir-me? Consegues 
ouvir-me bem? Jrome!
-        Perfeitamente, Lora! - Balister imprimiu  sua voz 
um ar sonolento. - Mas onde ests tu? De onde ests a 
telefonar?
-        Daqui. De nossa casa. De casa! Pareces to longe.
-        Estou na Lbia - respondeu Bailister sarcstico. - 
Que se passa? Voltaste a ter dores? J telefonaste ao doutor 
Meyer?
-        Aqui anda o diabo  solta, Jrome!
- Mas ento porqu?
Balister comeou a fazer sinais em silncio e Felicitas 
colocou o ouvido no outro lado do telefone, para poder ouvir 
tambm. Era uma situao francamente abjecta: a amante nua, na 
cama de um homem casado a ouvir a conversa que ele estava a 
ter com a mulher.
-        Rosa dorme hoje aqui em casa.
Atnita, Felicitas olhou para Balister, e, perplexa, 
encolheu os ombros. Por que razo ia Rosa dormir a casa de 
Lora? Ela nunca mencionara esse facto. Lora respondeu a essa 
pergunta de imediato.
-        Rosa telefonou-me esta manh e perguntou-me:
"Posso ir dormir a tua casa hoje? Esta casa fica muito vazia 
sem a mam! Tenho medo de estar sozinha e os dispositivos de 
alarme tambm no ajudam nada." Claro que lhe disse. 
imediatamente que sim. Ento, Rosa chegou a nossa casa  tarde 
e trouxe um rapaz consigo. Um estudante de medicina. Chama-se 
Red Cummings.

Felicitas acenou vrias vezes com a cabea quando 
Ballister olhou para ela com olhar inquiridor.  verdade. 
Cummings  um bom rapaz. Quer tomar conta de Rosa, mas mesmo 
assim ela tem medo. Fora uma boa ideia ir para casa de Lora. 
Depois, Felicitas foi obrigada a sorrir e acariciou o rosto de 
Balister. "No h dvida de que somos uma corja imoral", 
pensou Felicitas. A filha ir dormir a casa da mulher do amante 
e, em compensao, a me, por seu lado, dormia com o marido da 
outra mulher.
- Cummings ficou c at perto das nove horas - prosseguiu 
Lora. -  um jovem, simptico, com modos educados e grandes 
planos. E Rosa est apaixonada. Passmos uma noite agradvel. 
Depois, ele foi para casa, Rosa e eu bebemos ainda um outro 
copo de vinho e estvamos muito contentes por saber que, por 
volta das dez horas, Stan Barley passaria por c. Tu conheces 
o Stan, no conheces, Jrome? Tem uma orquestra meio jazz, 
meio sinfnica e comps uma primeira sinfonia em estilo de 
jazz. Stan tinha ensaio, mas antes disso ainda queria passar 
por c para tomar uma bebida e tocar-me uma das suas novas 
composies. - Lora deu uma gargalhada estridente e histrica.
- Sabes, Jrome... H j quase dezanove anos que Stan est 
apaixonado por mim e no te desculpou por teres casado comigo. 
Contudo, Stan no apareceu. Espermos at s onze horas, 
depois voltei a soltar os ces. Eles correram a toda a pressa 
para o jardim e pareciam doidos. Os ces nunca mais apareciam 
e quando fui atrs deles, Jrome, quando fui atrs deles... - 
a voz dela era estridente - Stan estava l! Assassinado. Tal 
como Varone... estrangulado com uma corda... - Lora comeou a 
chorar em voz alta e Balister ficou com a testa encharcada em 
suor. - Aqui em casa est um corrupio de gente. A Brigada de 
Homicdios est c! Um monte de reprteres! Estou desfeita, 
Jrome; No podes regressar imediatamente? Ests a ouvir-me?  
o segundo assassnio no nosso jardim. Quem querer acabar 
connosco? Quem querer aniquilar-nos? E por que carga de gua? 
Porqu? Tens, por acaso, uma resposta para isto?
Balister no tinha nenhuma... Estava sentado na cama, 
como que petrificado, e Felicitas limpou-lhe o suor do rosto, 
ao de leve, com a sua camisa de noite transparente.

Captulo 7

Mesmo para um homem como Balister, sobre o qual se dizia 
ser to gelado que nem nos dias mais quentes do Vero de Nova 
iorque precisava de frigorfico, porque a sua presena emanava 
frio suficiente, era preciso algum tempo para compreender a 
situao. Felicitas coou-lhe o pescoo, porque sabia que isso 
o acalmava extraordinariamente. No entanto, desta vez, 
Ballister segurou-lhe a mo e sacudiu a cabea para repeli-la.
-        Regressar  completamente impossvel - disse 
Balister com voz sumida. - Tens de compreender, Lora.
-        Eu no compreendo nada! - gritou ela, histrica. - 
Tu andas a tomar banhos de sol no deserto, enquanto aqui na 
nossa casa as pessoas esto a ser assassinadas em srie.
-        At agora s foram duas.
-        At agora? - Lora ficou aparentemente sem ar. - E 
no achas que  suficiente? Ainda ests  espera de mais?
De repente, Lora comeou a chorar de uma forma comovente 
e Balister viu-a  sua frente em pensamento, deitada na cama, 
olhando fixamente para o tecto, tendo na mo um leno de 
assoar amarrotado. Ao mesmo tempo recordou-se do que o Dr. 
Meyer tinha dito: "Nada de emoes. O mnimo choque pode 
transformar-se numa catstrofe!"
-        Lora, por favor, no te aflijas! - implorou 
Bailister. - A Polcia vai ocupar-se de tudo.
-        No me aflijo? - gritou Lora. - Isso dizes tu da! 
Desse canto do mundo  fcil dar conselhos baratos! No 
percebes que eu morro de medo? Anda  solta na nossa casa um 
serial killer! Um estripador! E porqu?
-        Para isso no h resposta! - disse Balister 
pensativo. - So assassinadas a pessoas estranhas e no 
ns...
-        A tua sensibilidade ultrapassa a de um elefante!
-        Um elefante  um animal sensvel... pelo menos do 
ponto de vista psquico - disse Balister. - Devias saber 
iSSO! Contudo, a tua pergunta  legtima: por que razo nos 
enchem a casa de mortos?
-        Ah! Ento, sempre vens?
-        O mais depressa que puder! Amanh, suponho eu, vamos 
encontrar-nos com Amin.
-        Esse Idi Amin  para ti mais importante do que a 
nossa casa? - gritou Lora em tom estridente.
-        Neste momento, sim! - Balister adquiriu uma 
expresso severa. - Para ns  o seguinte: o trabalho tem de 
continuar! No  provvel que amanh esteja outro morto no 
jardim. O mais tardar dentro de trs dias estou de volta. 
Lora, temos bastantes pessoas conhecidas que podem ir dormir 
a a casa! Ou ento, contrata dois guardas pessoais. Fala com 
o tenente. - Balister hesitou e depois disse: - E deixa ficar 
Rosa a contigo. Ela est com medo?
-        E isso  de admirar? Tambm vou pedir ao amigo dela, 
Red Cummings, para ficar aqui de sentinela. Ele , na verdade, 
um rapaz simptico e robusto.  campeo de boxe na 
universidade! Red seria perfeito para tomar conta de ns.
-        ptimo! E daqui a trs dias j a estarei! - A voz 
de Balister adquiriu um tom amigvel. - Lora, coragem!
Agora vou j telefonar a Hunters. Ele vai resolver tudo
com a Polcia. E essa ideia sobre Cummings  excelente.

Lora, por favor, no tenhas mais medo...
Balister ouviu Lora assoar-se. Depois, ela perguntou:
-        Que est Felicitas a fazer?
Balister olhou para Felicitas. Ela estava nua, de pernas 
cruzadas, perto dele e parecia nervosa a fumar um cigarro.
-        Que queres tu que ela esteja a fazer a esta hora? 
Est a dormir. - Depois, Bailister teve uma ideia louca e 
perguntou: - Queres falar com ela? A sua suite fica no ltimo 
andar do hotel. Talvez seja possvel transferir a ligao. 
Queres que tente?
-        No! - Esta oferta pareceu acalmar Lora. - Deixa-a 
dormir. Era de mais sermos duas a no ter um repouso merecido. 
Certamente que ela teria medo por causa de Rosa.
-        Com toda a certeza.
-        Ento, d-lhe a notcia amanh de manh bem cedo e 
com cuidado. Amo-te, Jrome. No te esqueas disso...
E, ao dizer estas palavras, Lora desligou.
Balister pousou o auscultador. Felicitas deixou o fumo 
do cigarro sair pelo nariz.
-        Agora j sei o que significa o pquer como jogo de 
risco - disse Felicitas. - E tenho de reconhecer que s um 
jogador que arrisca! E se Lora tivesse dito: "Sim, passa-lhe a 
chamada!" Que farias?
-        Nesse caso eu teria estalado os dedos, como num 
passe de mgica, e tu aparecerias em linha.
-        Nua ao teu lado...
-        Ainda no h telefone com televiso. Isso seria o 
fim de toda a privacidade!
-        E agora, que queres fazer, meu amor?
-        Dormir! - Balister atraiu Felicitas a si,
beijou-lhe os seios e colocou a cabea entre eles. - Que posso 
fazer aqui na Lbia se estrangularam um homem em Nova iorque?
-        Tu tens nervos de hipoptamo!
-        Vocs as mulheres gostam mesmo de comparaes com 
animais, no ? Lora com elefantes e tu com hipoptamos. E 
esto sempre erradas. A nica coisa espessa nesses animais  a 
pele! Apaga a luz, Lici. Sabias que a tua pele cheira a 
laranjas?
Felicitas apagou a luz, abraou-o e contemplou a 
escurido. Com efeito, Balister voltou a adormecer 
rapidamente, ao passo que ela ainda ficou acordada durante 
muito tempo. Tambm a preocupava a pergunta da qual Lora no 
sabia a resposta: Quem andava a assassinar no jardim dos 
Balister e por que razo? J no podia ser um acaso.

Arthur Darkster dormira primorosamente.
E isso tinha uma razo de ser. Antes de se enfiar na 
cama, trocara o jalabia de l pelo seu fato ocidental, desceu 
ao bar e mandou vir uma garrafa inteira de usque e um balde 
de gelo. Com este tesouro debaixo do brao, voou pelo elevador 
novamente para o seu quarto, despiu-se, deitou-se nu em cima 
da cama numa atitude descontrada e comeou a soltar a sua 
abstinncia forada, mergulhando no usque como se este fosse 
um banho de cido. Darkster f-lo muito bem. Esvaziou meia 
garrafa, deixou tilintar os
cubos de gelo dentro do copo, o que, na altura, lhe pareceu a 
mais linda das melodias. Depois, adormeceu e acordou 
sobressaltado com a bexiga apertada.

J era dia claro, embora ainda fosse muito cedo. No 
entanto, o sol j estava razoavelmente quente e era uma mancha 
esbranquiada no azul do cu. Darkster procedeu  satisfao 
das suas necessidades e depois foi at  pequena varanda, para 
abrir os braos e apanhar um pouco de ar fresco. Ao comear a 
fazer este movimento, deteve-se de repente a meio e olhou 
estupefacto para a varanda de Ballister, que ficava por baixo 
da sua, um pouco ao lado. Depois, foi como se o cho estivesse 
carregado de electricidade. Darkster deu um salto para dentro, 
pegou na mquina fotogrfica, voltou a correr para a varanda e 
ajoelhou-se por detrs da balaustrada. Apenas a lente 
espreitava sobre o parapeito e Darkster olhava com espanto, 
atravs da objectiva, o quadro mais singular e sensacional que 
a sua cmara podia fotografar.
Felicitas Saunders estava nua, mas completamente nua, na 
varanda do quarto de Balister. Saunders espreguiava-se e 
esticava-se com prazer ao sol. Agitou os cabelos com as duas 
mos e afagou-os sobre os seus famosos seios, disse qualquer 
coisa para dentro do quarto e riu-se com alegria. E ento, 
Jrome Balister, o cabeudo da ACF, estupidamente 
decepcionante nos seus cales de banho de cor lisa, em 
contraste com o corpo divinal de Saunders, tambm saiu para a 
varanda e disse algo a Felicitas. Ela soltou uma gargalhada, 
abraou-o e beijou-o e, ao ser beijado, este Balister pousou 
pomposamente ambas as mos no traseiro de Felicitas e atraiu-a 
a si.
A mquina disparou. Trs fotografias por segundo. Uma 
srie completa da secreta vida amorosa da Saunders com o 
fanfarro Balister. Fotografias plenas de carinho tranquilo. 
Fotografias que cessaram quando Bailister puxou Felicitas para 
dentro do quarto e Darkster comentou, cheio de inveja,
Antes do pequeno-almoo: "Com mil raios!"
Tambm Darkster se retirou da varanda, sentou-se em cima 
da cama e se apercebeu logo como tremia de excitao. O que 
ele tinha registado com a mquina fotogrfica era simplesmente 
impagvel! Darkster retomou completamente a conscincia dos 
factos: nenhum prncipe, nenhum multimilionrio do petrleo 
era to poderoso para conseguir adquirir estas fotografias. 
No estariam  venda por uns mseros trinta mil dlares nem 
por cinquenta mil nem mesmo por cem mil dlares. Por qualquer 
uma dessas quantias Arthur Darkster dava-se agora ao luxo de 
poder sorrir. O rolo que estava na mquina mudaria 
completamente a sua vida. Catapult-lo-ia para o grupo dos 
vencedores. Faria dele um capitalista, que poderia organizar a 
sua vida  vontade. Enquanto tivesse esses negativos, o mundo
continuaria a brilhar para Arthur Darkster.
Estes pensamentos eram extraordinrios. No apenas por 
eles prprios, antes sim pelas suas consequncias.
A palavra "chantagem" no estava sequer no pensamento de 
Darkster. S conseguia ver um negcio honesto de mutuo acordo: 
"Eu no utilizo as fotografias e tu pagas
por elas um pequeno encargo, na forma de uma boa renda 
vitalcia."  como se uma pessoa comprasse uma casa, pedindo
um emprstimo; s que a honra feminina e a decncia valem mais 
do que uma simples casa.

Darkster resistiu ao impulso de festejar o seu triunfo 
com a outra metade da garrafa de usque. Rebobinou o rolo 
dentro da mquina fotogrfica, retirou-o, meteu-o numa caixa 
de plstico e selou a tampa. Espirituoso como era, Darkster 
escreveu com uma caneta de ponta de feltro sobre a fita 
gomada: "Fotografias de animais - zona livre de caa." Enfiou 
o precioso rolo na mala das fotografias.
Assim, a misso de Darkster na Lbia ficou, na verdade, 
concluda. Tudo o que pudesse vir a seguir seriam instantneos 
hilariantes: talvez Balister a pr a mo no traseiro de
Felicitas; a vir de brao dado com ela nadar na piscina 
salpicarem-se mutuamente com gua; a fazer brindes com vinho. 
Era tudo estupidamente banal e, tal como eles, milhes de 
outras pessoas faziam a mesma coisa, sem que para isso fosse 
preciso pagar muitos dlares para fotografar essa 
trivialidade.
Darkster tomou um duche, cantou rias de pera debaixo do 
chuveiro, apesar de ter um timbre de voz
perfeitamente desafinado, e fez uma ligao para Nova
Iorque. J era uma piada estar a trabalhar na Lbia prximo do 
seu cliente, mas tinha de comunicar os recentes acontecimentos 
a Nova iorque. Ahmed Sehadi ibn Mahmoud parecia estar 
satisfeito. Darkster ouviu-o com espanto.
- J no precisa preocupar-se mais com o senhor Balister 
- disse Ahmed amigavelmente. - Descanse, visite Trpoli e os 
osis, tome banhos de mar e s fique novamente alerta quando a 
senhora Saunders regressar a Nova iorque. Tambm pode 
acontecer que no regresse e, ento, a sua misso estar 
terminada e voc poder voltar para Nova iorque.
Darkster ficou, de certo modo, preocupado com esta 
conversa. Que significava: "Se ela no regressar?" Por que 
razo no haveria Felicitas de voltar depois de fazer a 
entrevista? Estaria a preparar-se aqui alguma outra coisa que 
prometesse uma renda vitalcia? Ser que o prncipe Khalif 
tinha alguma na manga?
O tom amigvel de Ahmed, ao sugerir-lhe que tirasse uns 
dias de frias no deserto, adquiriu um colorido totalmente 
diferente. Por detrs disso podia esconder-se um aviso da 
maneira como tinha de comportar-se: no ver nada, no ouvir 
nada e no falar nada. Todas estas trs qualidades Darkster 
conhecia de nome, mas nunca fizeram parte da sua maneira de 
ser.
- Isto at pode ser divertido - disse ele, aps esta 
reflexo.
Em seguida desceu at  sala do pequeno-almoo e viu que 
a equipa de operadores de cmara j l se encontrava. Os 
homens estavam sentados numa mesa de canto e mostravam mau 
humor e miraram-no com olhos inchados. Haviam tido uma noite 
longa num clube privado, cujo endereo o porteiro do hotel 
tinha passado s escondidas. A experincia que ali viveram 
excedeu mesmo o que acontecia em certos estabelecimentos de 
Bronx e isso j era uma proeza! As raparigas lbias estavam, 
evidentemente, mal-acostumadas com a potncia.

Darkster, que vestia novamente o seu jalabia, viu com 
espanto que tambm Jrome Bailister j l estava em baixo. 
Encontrava-se sentado sozinho a uma mesa, mas esta estava 
posta para duas pessoas. Portanto, Felicitas no se demoraria, 
o que significava que no ia tomar o pequeno-almoo no quarto. 
Combinava com ela. Ela, a grande estrela, nunca se comportava 
como uma estrela. Estava sempre no lugar onde se encontrava a 
sua equipa. Ela era uma parte do grupo e no um raio de sol 
que apenas iluminava esporadicamente este grupo.
Darkster, como bom muulmano, mandou vir caf e, a 
acompanhar, comeu pezinhos estaladios, acabados de fazer, 
com manteiga. Ao mesmo tempo observava Balister. O amante 
apanhado em flagrante no dava nada a impresso de ser um 
homem feliz, o qual possua uma das mulheres mais bonitas e 
mais inteligentes deste mundo. Como sempre, Balister estava 
sozinho a beber uma chvena de caf com um pouco de rum e 
olhava para a sua frente.
Arthur Darkster decidiu, face a este pequeno quadro 
alegre, apresentar o seu plano de renda vitalcia no a 
Balister mas a Felicitas Saunders. Balister acabaria com ele 
e, em vez de pagar, dirigir-se-ia  Polcia, sem ter
em considerao o que viesse a seguir. Em todo o caso, 
continuaria a ser um enigma a razo por que Felicitas ia para 
a cama precisamente com Balister e no com os homens 
distintos que se atiravam aos seus ps.
Dez minutos mais tarde apareceu Saunders com um chapu de 
lona na cabea. Apesar de tudo, ela tinha um ar encantador. 
Cumprimentou a equipa em primeiro lugar e depois dirigiu-se  
mesa de Balister. O hipcrita cumprimentou-a, como se no se 
vissem h muito tempo. Darkster foi forado a sorrir. Era 
preciso reconhecer que representavam bem. Representavam de um 
modo to perfeito, que levava a pensar que o faziam h muito 
tempo.

Balister e Felicitas encontravam-se na piscina quando 
foram surpreendidos com a notcia de que partiriam dentro de 
meia hora para o esconderijo de Idi Amin. O Governo
lbio ps  disposio duas limusinas, um camio para a equipa 
de filmagens e dois veculos militares com
Um funcionrio dos Servios de Informao acompanhando 
Felicitas Saunders. Balister deveria ir no segundo carro.
-        Por que razo tem de ser assim? - perguntou 
Ballister ao homem dos Servios de Informao. - Havia
espao  vontade para todos num carro s!
-        Como medida de segurana! - O funcionrio era de 
poucas palavras. -  provvel que o senhor presidente tambm 
queira estar presente.
-        Tambm vou poder falar com Khadafi? - exclamou 
Felicitas satisfeita. - Uma dupla entrevista?
- Vai-lhe ser tudo indicado. - O funcionrio encolheu os 
ombros. - Como medida de segurana, no ser anunciado 
antecipadamente plano preciso algum.
- Vou imediatamente atrs de ti - disse Balister mais 
tarde, quando Felicitas quis telefonar para o Ministrio, para 
autorizarem que Balister seguisse no seu carro. - 
Naturalmente que eles esto a fazer isto tudo para garantir a 
nossa segurana. Vais ter de contar que eu no vou ser 
recebido por Amin. Alis, j  uma honra levarem-me tambm.
- Isso foi uma exigncia minha!
- Mesmo assim. Essa generosidade  louvvel. - Balister 
olhou para o relgio. - Dentro de dez minutos partimos! Com 
mil demnios, estou mesmo com palpitaes como uma virgem 
diante do leito de devassido! Uma pessoa ligada  televiso 
no pode ficar assim to embrutecida.

Darkster tambm se preparou. O camio estava parado 
defronte do hotel. A equipa de filmagens carregava os caixotes 
metlicos com as pelculas e as mquinas de filmar, os 
projectores e os enormes contentores com a aparelhagem de som. 
Alguns soldados rodeavam-nos, com as metralhadoras s costas. 
Duas limusinas escuras, de marca francesa, aguardavam  sombra 
a ordem de partida. Esse era tambm o sinal para Darkster 
tirar o seu carro alugado da garagem e seguir a caravana.
No entanto, as coisas no eram assim to fceis. Quando 
Felicitas, Balister, o funcionrio do Ministrio e os 
soldados sairam do complexo hoteleiro e Darkster os seguiu, 
deparou-se-lhe um obstculo: a rua estava bloqueada. Um 
oficial gritou-lhe, naturalmente em rabe, e gritou ainda mais 
quando Darkster olhou para ele apalermado e no reagiu. Em 
primeiro lugar, quando Darkster exibiu o seu passe secreto, o 
oficial ficou visivelmente atrapalhado, leu o documento vrias 
vezes, mirou Darkster como um animal raro, releu, abanou a 
cabea, hesitou ainda mais e, por fim, permitiu que Darkster 
prosseguisse a viagem. O que quer que estivesse escrito no 
papel, devia ser algo de excepcional. Darkster pretendia 
mandar traduzir este documento por um perito assim que 
regressasse a Nova iorque.
Darkster acelerou, vociferou contra a coluna militar e 
voltou a aproximar-se dos outros. Iam pela rua, em direco a 
Jabal Nefusa. Comeavam, portanto, a entrar no deserto e 
dirigiam-se a Nalut, onde tudo era quente, rido e desolador e 
ningum podia fazer ideia de que algures por a poderia 
existir um aquartelamento condigno para o exilado Amin. Talvez 
fosse apenas um desvio e da a pouco virassem novamente em 
direco ao mar.
Darkster seguia-os a curta distncia, transpirando, 
praguejando, engolindo areia poeirenta e rezando intimamente a 
todos os santos para que o seu carro resistisse e no ficasse 
atolado na areia.
Precisamente neste momento, parecia ser Balister que 
passava por ele. Aps uma hora de viagem, o carro dele comeou 
aos solavancos e parou de repente. O motorista invocou a ajuda 
de M, mas M  um Deus e no um mecnico de automveis. O 
carro ficou parado, os dois veculos militares passaram por 
eles sem prestar ateno e levantaram uma nuvem de p 
gigantesca. Balister debruou-se sobre o motorista.
-        Que se passa? - perguntou em francs.
-        O motor avariou! - respondeu o motorista. Gripou!
-        Isso ouvi eu. E agora?
-        Temos de ver o que se passa.
-        No temos assim tanto tempo. Toque a buzina, para 
que os outros parem! Assim, posso ir no outro carro.
-        Eles no nos ouvem - disse o motorista calmamente. - 
J esto muito longe!
O homem abriu a porta, saiu e colocou uma pistola em cima 
do tejadilho do automvel. Bailister arrepiou-se, como se 
fosse perseguido por um co. Era esta a situao que criaram 
para si. Assim se justificava o segundo carro! Jrome 
Ballister alvejado por desconhecidos no deserto, quando 
tentava resolver uma avaria no seu carro. Quem iria alguma vez 
verificar ou duvidar? To fcil como isto, no
 verdade, prncipe Khalif Omar ben Saud? Como lhe chamam as 
pessoas no deserto? O "Grande Silencioso". E
vai calar-se.

Balister saiu pelo outro lado, como um delinquente que 
tinha de fugir para casa. Era tudo to absurdo... fugir, 
defender-se, negociar.  sua frente estava aquela extenso 
morta, dividida por uma estrada, que reluzia. Estavam 
sozinhos... um automvel supostamente avariado, um lbio de
olhar melanclico e um director de uma estao de televiso 
americana. O que agora havia era cu, sol e areia... 
testemunhas que no podiam fazer perguntas. Balister torneou 
o carro lentamente. Um homem tem de saber quando o fim se 
aproxima.
S que neste caso, isso era um engano.
Eles no estavam sozinhos.
Uma nuvem de p levantou-se subitamente no ar e Arthur 
Darkster surgiu por detrs de uma lomba. O motorista lbio 
olhou estarrecido para o veculo, como se fosse uma apario, 
guardou novamente a arma e abriu o cap do carro. Balister 
recebeu aquele ar poeirento nos pulmes... respirou com 
dificuldade, o que era uma confirmao de continuar a viver.
Darkster travou, levantou uma nova nuvem de p e correu 
na direco de Bailister.
-        Aconteceu alguma coisa? - perguntou.
-        Milagre! Voc fala ingls?
-        Porque no?
-        A maioria dos seus compatriotas s fala berbere, ou 
ento italiano.
Darkster acenou com a cabea. Balister tomara-o por um 
rabe: o jalabia, a barba, os culos escuros... no passaria 
pela cabea de ningum que estava perante um americano.
-        Posso ajudar? - perguntou Darkster.
-        Receio que no! - Balister sorriu numa careta. - 
Este bom motorista est desesperadamente  procura de alguma 
falha no motor. Percebe alguma coisa de motores?
-        No entendo patavina! S sei ligar a ignio, travar 
e o stio onde se pe a gasolina. Mas deve agir-se como se se 
percebesse.
De repente, o carro deu um solavanco e depois parou. 
Balister voltou a sorrir.
-        Mas isso tambm se pode facilmente simular com o 
acelerador. Em todo o caso,  um alvio que esteja aqui. Vai 
para onde?
-        Ando a passear sem destino pela regio. 
Absolutamente  toa.
-        Tambm se v isso por aqui?
-        Ns chamamos-lhe um giro pelo deserto. - Darkster 
exibiu um largo sorriso. - Quer vir comigo? - Bailister 
dirigiu-se lentamente para o carro de Darkster. " agora", 
pensou Balister. "Ele j teve tempo suficiente para 
reflectir.  agora que nos vai matar aos dois.  preciso 
avisar o desconhecido."
No entanto, Balister no teve tempo para isso. Darkster 
aproximou-se do motorista, tirou o seu documento secreto do 
bolso e exibiu-o mesmo na frente dos olhos do homem. Se ele 
conseguiu l-lo no vinha para o caso. Em todo o caso, viu o 
slo, reconheceu um ofcio e isso impressionou-o. Ento, 
Darkster no percebeu o que o motorista lhe dizia. Assumiu 
ares de grande senhor, interrompeu-o indolente e deixou o 
lbio ali parado. Balister j estava sentado no carro e 
sentia-se muito aliviado.

- Sabe que acabou de salvar-me a vida? - perguntou 
Balister, enquanto Darkster se acomodava ao volante.
Darkster encolheu os ombros, acelerou e passou pelo 
pretenso automvel avariado.
- Foi um pressentimento! - disse Darkster. - Se recebeu 
de mim uma segunda vida, ento nunca o esquea. Deve
lembrar-se disso em determinadas situaes.
- Est certo! - Balister, confiante, bateu no ombro de 
Darkster. - Pensei muito, sabe? Ao percorrer a estrada do 
deserto, disse para comigo: isto  tudo to igual. E isso
deu-me uma grande paz interior. Isso era o mais 
surpreendente... esta paz imperturbvel, quando se sabe que 
no existe mais nada. E agora, volto a viver, graas a si! 
Como posso agradecer-lhe?
- Mais tarde! - disse Darkster e respirou pelo nariz. - 
Mais tarde - Darkster pensou no filme, cheio de paixo 
clandestina, que estava atrs de si, na mala de fotografia. - 
Ainda teremos ocasio de falar sobre isso.
No fazia sentido continuar a seguir Felicitas. Darkster 
deu a volta na estrada e percorreu o caminho de volta. Passou 
a grande velocidade pelo carro avariado e envolveu o motorista 
numa nuvem de fumo.
-Coitado... - comentou ao passar. - O patro dele vai 
chicote-lo. E isso ainda ser muito bem feito.

Bailister sentia-se condenado  ociosidade, o que quase o 
matava. Estava em segurana no hotel, disso tinha a certeza. 
A no iam poder simular nenhum acidente nem nenhum assalto. 
No entanto, o medo que sentia por Felicitas arrasava-o 
completamente. Tinha medo de no saber o que
estava a acontecer com ela naquele momento, e da 
responsabilidade que pesava sobre si e ningum o podia 
aliviar. O fraco consolo de que a equipa de filmagens estava 
l com ela no diminua a sua preocupao de que depois da 
entrevista com Amin impor-se-ia a segurana do prncipe 
Khalif, numa nova tentativa de fazer com que Felicitas se 
interessasse por ele. A "avaria" na estrada do deserto provara 
que Khalif estava disposto a recorrer a todos os meios. 
Portanto, era evidente que ele estava convencido de que 
obrigaria facilmente Felicitas a cair-lhe nos braos, sem 
levar em considerao o que poderia da advir mais tarde. Um 
homem como Khalif era soberano e inatacvel em todos os 
sentidos. Ria-se  gargalhada face a qualquer ameaa de 
represlias. Quem se atreveria a ir busc-lo ao seu palcio, 
algures na pennsula Arbica?
Balister deixou as autoridades com os nervos em franja, 
ao telefonar-lhes ininterruptamente. Telefonou para os 
Servios de Informao, para o Ministrio dos Negcios 
Estrangeiros, para a Embaixada dos Estados Unidos, para um dos 
postos de vigilncia das Naes Unidas, para o secretrio 
pessoal de Khadafi e chegou mesmo a telefonar para a direco 
de uma empresa petrolfera, onde o informaram de que eram 
peritos americanos que estavam  frente da explorao 
petrolfera.
Por toda a parte deparou-se-lhe o desinteresse, a 
incompetncia ou at mesmo as recusas. O seu pedido junto aos 
Servios de Informao para ser levado de imediato junto de 
Amin, foi imediata e rudemente recusado. Um funcionrio disse, 
de forma brusca:

- No  o senhor que vai fazer a entrevista, mas sim a 
senhora Saunders! Que quer afinal? O senhor est aqui como 
turista, no fomos ns que o convidmos!
Isso era evidente. Balister desanimou, foi sentar-se no 
bar do hotel e esperou. Nem mesmo Hunters, longe em Nova 
iorque, podia ajud-lo. Quando Balister lhe descreveu a 
situao, o patro disse:
- Jrome, agora no percas a calma! O que acabaste de 
descrever, no pode ter acontecido.
- Nem desconfias do que aqui  possvel! - gritara 
Balister. - E se acontecer alguma coisa a Felicitas?
- Nesse caso, ns interviremos.
- Tretas!
- Ento teremos um incidente diplomtico!
-        E que ganhamos ns com isso? Ar quente! Mexericos! 
Por causa de uma pessoa, por causa de uma mulher no podemos 
enxovalhar a poltica de frica!
-        E qual  a tua proposta de novo, super-homem da 
poltica? - vociferou Hunters.
Balhster calculou que ele j devia estar a arrancar a 
gravata e a suar profusamente.
-        Se eu andasse por a a dar com a lngua nos dentes, 
todos os jornais teriam assunto para um dia inteiro, 
subordinado ao tema Profisso de Risco. E assim o assunto 
ficava arrumado! Com mil diabos, eu sempre fui contra a ideia 
de Felicitas se meter nesta aventura - declarou Hunters.
Balister ficou sem palavras. Recordava-se de como 
Hunters tinha dado saltos de alegria, como um gorila, quando a 
ACF fora autorizada a fazer esta entrevista na Lbia. Depois, 
comeara logo a calcular os ndices de audincia, o novo 
volume de publicidade e o crescimento das receitas. Fora um 
dia a nunca esquecer, como o prprio Hunters havia dito alto e 
bom som. Balister tivera o desagradvel pressentimento de que 
a tragdia de Felicitas, caso possa chamar-se assim, tomaria 
propores mais amplas e, por sua vez, traria novas receitas 
publicitrias  estao televisiva ACF. Hunters, o antigo 
presidente de uma fbrica de pirotecnia, estava habituado a 
grandes estrondos.
Darkster ficou por perto, contudo na retaguarda.
Sentia-se curiosamente responsvel por Balister, durante o 
tempo que este ficasse na Lbia. O atentado contra Ballister 
demonstrava que ele no estava seguro em lugar nenhum fora de 
Nova iorque. Era precisamente a isso que Darkster no podia 
recorrer. No se matava uma vaca que produzia vrios baldes de 
leite. Neste caso, o que era imprescindvel era agir contra o 
seu "patro", sem que este desse por isso. S era preciso 
ficar calado e dizer para si: "Fui incumbido da misso de 
vigiar Balister. No entanto, no posso faz-lo se o afastarem 
da minha vista! Portanto, tive de intervir! Fiz alguma coisa 
errada? Perdo, no sabia de nada, deviam ter-me avisado. "
Quatro horas depois do regresso de Balister ao hotel, 
telefonou-lhe um homem. Balister levantou-se com dificuldade, 
como se tivesse chumbo nas pernas. "Agora  que ", pensou ele 
e o corao contraiu-se-lhe. "Agora vo comunicar-me que 
Felicitas Saunders foi atacaca por bandidos desconhecidos. Foi 
raptada e levada para qualquer lado.
E Khalif vai dar uma recompensa de um milho de dlares
a quem encontrar Felicitas... num quarto fechado do seu

palcio!"
Na cabina telefnica o auscultador estava pousado ao lado 
do aparelho. Balister levou-o ao ouvido e perguntou:
-        Sim, est l?
Contudo, no obteve resposta. Num gesto completamente 
absurdo, agitou o auscultador e perguntou outra vez:
-        Daqui fala Balister! Quem fala?
Mas ningum falou. S se ouvia um sussurro montono, como 
se estivesse algum do outro lado do aparelho perto de uma 
vulgar queda de gua.
Balister respirou bruscamente, aguardou e deu um murro 
no aparelho, mas com isso s conseguiu fazer com que o 
sussurro passasse a um estalido. A ligao caiu.
Ouviu-se um silncio de morte.
Esse silncio fez Balister dar um salto. O seu corao 
quase parou. Voltou a atirar com o auscultador, encostou-se 
por um momento  parede da cabina telefnica e, por fim, abriu 
a custo a porta giratria. O porteiro olhou para Balister, 
espantado, ao v-lo branco e com uma expresso toldada.
-        Quem foi que telefonou? - perguntou Balister com 
alguma dificuldade.
-        No fao ideia, sir - respondeu o porteiro. Este era 
um jovem e elegante lbio, que falava sete linguas.
-Era... era uma mulher?
-        No, era um senhor, sir. E disse: "Por favor v 
chamar o senhor Balister. Eu espero."
-        Mas no esperou.
-        Lamento, sir. - O porteiro exibiu uma mscara de 
comiserao. - No posso dizer-lhe mais nada, porque no 
disseram mais nada.
-        E de onde vinha a chamada?
-        No fao ideia, sir.
-        Do estrangeiro? Isso nota-se logo!
-        No, sir, era uma chamada local. Foi uma chamada 
lbia. O senhor tambm falava rabe. Berbere, tal como todos 
ns aqui.
-        Obrigado.
Balister acenou com a cabea e voltou para o bar.
"Ele falava berbere. Por favor, v chamar o senhor 
Ballister. Eu espero. Contudo, no esperou. Por que razo no 
teria esperado? Quem poderia telefonar-lhe? Ser que Felicitas 
ainda tivera ocasio de subornar um berbere para informar 
Balister sobre o seu paradeiro? Ser que o homem fora 
apanhado em flagrante e fora morto?"
Estas eram perguntas vs.
Bailister ps fim ao seu propsito de no voltar a beber 
at que Felicitas regressasse e mandou vir um conhaque. 
Enquanto o bebia em pequenos goles, pensou se deveria voltar a 
telefonar para a Embaixada dos Estados Unidos. J sabia de 
antemo o que lhe iriam dizer: "Tem provas? Suposies e 
preocupaes pessoais no nos interessam. S podemos actuar 
quando temos factos concretos entre mos."
E Balister responderia: "Quando tiverem os factos nas 
mos, o desaparecimento de Felicitas, j ser demasiado tarde! 
Faam alguma coisa!"
E seguia-se a resposta: "Sinto muito. No estamos aqui 
para precaver, mas sim para investigar o bvio."

Era tudo to superficial. Balister mandou vir um segundo 
conhaque e no acabou de beb-lo. O porteiro apareceu no bar 
com um sorriso satisfeito, como se fosse altura de 
distribuio de presentes, e chamou:
- Senhor Balister? Uma chamada para si, sir.  o mesmo 
senhor de h pouco! Reconheci-lhe a voz...

Captulo 8

Nunca na sua vida Balister percorreu nove metros to 
depressa como naqueles segundos. Correu com tanto balano que 
esbarrou contra a parede traseira da cabina telefnica. 
Espetou o estmago numa tbua saliente qualquer, o que o fez 
tossir, agarrou-se ao lado esquerdo da barriga, no stio onde 
se tinha magoado e levou o auscultador ao ouvido.
- Est l? - gritou. - Daqui fala Balister. Que se 
passa?
-  o prprio senhor Balister? - perguntou uma voz fria.
- Sim!
- Um momento, sir, vou passar a chamada.
A sobriedade da voz fez com que Balister ficasse branco 
de medo. "Passa-se qualquer coisa", pensou, enquanto ouvia os 
estalidos do aparelho, que no eram mais do que 
interferncias. Acontecera alguma desgraa a Felicitas! Aquela 
voz fria era um porta-voz oficial.
- Identifique-se! - vociferou Balister ao telefone. - 
Com mil diabos, diga qualquer coisa!
Ento, ouviu-se uma voz e Balister teve de encostar-se  
parede, fechou os olhos e apercebeu-se de como os cantos da 
boca comearam a tremer. A angstia espalhou-se, as cibras 
despedaaram-no e Bailister surpreendeu-se consigo prprio: as 
lgrimas apoderavam-se dele com uma fora superior ao controlo 
de qualquer pessoa.
- Meu amor... - disse a voz. Ela estava to obviamente 
prxima como se se encontrasse  sua frente. - Passa-se alguma 
coisa? Porque ests a gritar dessa maneira? Consegues ouvir-me 
bem?
- Lici... - Balister engoliu vrias vezes. - Meu Deus, 
onde ests? De onde ests a telefonar? Lici...
-        Ests nervoso, meu amor...
-        Qual  a admirao? Mas que pergunta!
-        Eu  que fiquei preocupada. Vi a avaria do teu carro 
pela janela traseira do meu, mas no pudemos parar, que, de 
qualquer maneira, j estvamos atrasados. No devamos chegar 
atrasados. Amin no espera. A entrevista inteira seria um 
desastre. Por isso, tivemos de prosseguir sem ti. Foi muito 
mau, meu tesouro?
"Eles organizaram tudo isto muito bem", pensou Balis ter 
amargo. "S no podiam prever a chegada do meu salvador 
desconhecido." Portanto, o perigo continuava. O facto de 
Felicitas ter telefonado era a prova de que tinham outros 
planos.
-        No, no foi muito mau - disse Balister, e respirou 
pesadamente. - Era qualquer coisa no motor. Um rabe simptico 
passou por ali e trouxe-me de volta a Trpoli. Contudo,  
alguma admirao os motores avariarem devido quelas nuvens de 
p? Mas e tu, como ests?
-        Fascinada, meu amor!
-        De onde ests a telefonar?
-        No fao a menor ideia. Algures no deserto, num 
maldito osis feudal. A nossa conversa  via rdio e  depois 
encaminhada para a central telefnica. Foi isso que me 
explicaram.
-        E onde ests agora?

-        Numa casa encantadora no meio de jardins de 
palmeiras. Seria um pequeno paraso se uns metros mais  
frente no voltasse a haver o mais solitrio dos desertos. 
comemos e eu tomei um duche.
- E Amin?
- Est cansado - disse Felicitas Saunders prosaica. - A 
entrevista foi cancelada.
- Ento, nada feito!
- Pelo contrrio. Agi por conta prpria!
- Chegaste mesmo a falar com Amin?
- Claro. Ele foi muito simptico, fez-me mil elogios 
proferiu a declarao mais extraordinria: "Eles no sabem que 
deram cabo do mundo ao tramarem uma revoluo contra mim. Em 
breve eu seria o imperador de toda a frica e poderia, desse 
modo, modificar a poltica mundial! Todos os povos seriam 
felizes e poderiam viver com opulncia! A frica pode 
alimentar os quatro continentes." Que tens a dizer agora?
-        Pouco. Era mesmo Amin? No seria um bom ssia?
-        Nenhum ssia consegue ser to igual ao prprio Amin! 
Bombardeava sentenas e parecia ainda mais gordo do que 
antigamente. Mas quando lhe perguntei sobre as prises dos 
seus Servios Secretos e sobre os prisioneiros que eram 
obrigados a matar  pancada, com barras de ferro, outros 
presos, Amin ficou furioso e gritou: "No posso mandar 
enforcar todos os polcias ou todos os soldados! H abusos em 
toda a parte!" E quanto ao assunto da mulher, ele afrouxou um 
pouco e disse: "No vosso pas existem processos de divrcio 
para quando uma mulher trai o seu marido. E depois? Aqui em 
frica reinam outras leis, porque justamente o nosso povo s 
entende outro tipo de castigos. Temos de viver com a fora da 
Natureza e temos de pensar tambm como a fora da Natureza.  
tudo. Porque se fala tanto no assunto no vosso pas? No 
compreendo!" No entanto, vai ter oportunidade de ouvir tudo em 
filme... e de ver! Uma entrevista louca, meu amor. Estou to 
cansada de trabalhar...
-        Parabns, Lici! - Bailister conseguiu gritar de 
felicidade. - s a maior! Quando voltas?
-        Amanh de manh. Partimos logo ao nascer do Sol.
-        Vais passar a a noite? Isso no me agrada nada.
-        A esta hora j no podemos regressar. - Felicitas 
deu uma gargalhada sonora. - Ainda ests com medo?
-        Um medo desvairado.
-        J passou, meu querido.
-        O prncipe Khalif ainda a est?
-        No te preocupes com isso! - A voz dela soou 
decidida como sempre. - Ele no est aqui no osis. Em 
compensao, Khadafi est c e vai oferecer-me um jantar hoje 
 noite. No tens razo nenhuma para estar preocupado. Est 
tudo o mais normal possvel...
-        Fico muito mais calmo. - Balister dilatou as 
narinas. Normal parecia ser o acto de assassinar algum no 
meio do deserto. - No bebas demasiado, Lici - recomendou 
Bailister.
-        S h sumos de fruta e para mim um vinho tinto muito 
leve. Khadafi  um muulmano austero! Acho que a maior 
surpresa de todas  a seguinte: Amin tambm vai estar presente 
ao jantar.  pena no poderes estar aqui. Maldita avaria!

-        Sim, foi uma avaria maldita.  pena. - Bailister 
sorriu numa careta. - Mas fico muito mais tranquilo por saber 
que amanh j vais estar ao p de mim. Podemos regressar a 
Paris amanh  noite. Diverte-te bastante, Lici.
-        Obrigada, meu amor. Espera, no desligues! S mais 
uma coisa...
-Sim? O que ?
-        Amo-te muito...
-        Nunca te esqueas disso!
Balister desligou, mas permaneceu na cabina telefnica e 
olhou, atravs da porta de vidro, para o trio do hotel.
Estavam trs rabes sentados nas confortveis poltronas e liam 
o jornal, ou ento davam uma vista de olhos desint' ressada  
sua volta. No entanto, Balister tinha a certeza
que eles o observavam e que cada passo que dava era registado. 
Para Khalif, Balister deveria representar uma ameaa 
aterradora.
Bailister saiu da cabina telefnica a assobiar,
dirigiu-se a um dos trs rabes que estavam sentados e
disse-lhe, extremamente divertido:
-        Era a senhora Saunders a telefonar do deserto. Est 
tudo a correr-lhe muito bem! Sua Alteza com certeza est muito 
satisfeito.
O rabe no pareceu nada impressionado. Olhou para 
Balister, como se no tivesse percebido nada do que este 
dissera. A sua expresso permaneceu impassvel e um pouco 
altiva. Balister encolheu os ombros, voltou para o bar
props-se beber uns copos em homenagem ao xito e  felicidade 
de Felicitas.
J no estava minimamente preocupado.

Por volta do meio-dia do dia seguinte, a caravana dos 
carros regressou, de facto, a Trpoli. Balister esperara com 
impacincia e estava do lado de fora do hotel, quando
os veculos pararam e Felicitas saltou do automvel. 
Cumprimentaram-se com alguma reserva e muito discretamente 
Balister deu um cordial beijo em ambas as faces de Felicitas, 
ao que ela aproveitou para segredar:
-        Meu amor, estou to contente!
Um pouco afastado, Darkster fotografou devidamente esta 
cena para o seu "patro" e sorriu ao pensar nas fotografias 
que aguardavam, no fundo da sua mala, a oportunidade de serem 
reveladas. Os membros da equipa de filmagens estavam 
igualmente satisfeitos, cumprimentaram Bailister com 
verbosidade e fizeram questo de dizer que o filme seria um 
xito absoluto. Fora uma entrevista estrondosa por parte de 
Saunders e Idi Amin fora o que se esperara: gordo e jovial, 
colrico e ameaador, queixoso e acusador, fantstico e 
ridculo.
-        Ela tem coragem! - disse o chefe dos operadores de 
cmara. - Algumas vezes fiquei sem respirao com as perguntas 
que ela fez e cheguei at a ter medo! "Agora estamos 
perdidos", pensei. "O gordo nunca vai engolir isto!" Mas 
engoliu! Saunders vale bem um milho de dlares, por ter 
conseguido mais uma vez!
Enquanto Balister e Felicitas tomavam mais uma bebida 
com o representante dos Servios de Informao, Darkster, por 
seu lado, teve uma tarde pouco agradvel. Ahmed Sehadi ibn 
Mahmoud telefonou de Nova iorque e disse-lhe que ele era o 
maior imbecil que alguma vez cruzara o caminho de Ahmed.

Darkster ouviu tudo, consciente de que era um vencedor e 
de que, em breve, deixaria de depender dos dlares orientais. 
De resto, pediu que Ahmed lhe explicasse por que razo o 
comparavam a um monte de esterco.
-        Voc recebeu uma ordem para no se preocupar mais 
com o senhor Balister! - disse Ahmed num tom de voz como se 
tivesse bebido cido. - E, em vez disso, que fez voc?
-        Fui passear de carro para o deserto e encontrei 
BaIlister por acaso, o qual tinha tido uma avaria no carro!  
assim to desastroso ser uma pessoa solcita? O vosso profeta 
Maom foi o prprio a dizer: quando morrer um camelo ao teu 
vizinho, ento...
-        Cale a boca! - interrompeu Ahmed, insolente. - O que 
voc fez foi idiota! Volte imediatamente para Nova iorque!
-        J?
-Sim!
-        E Felicitas Saunders?
-        A sua misso terminou.
-        Ainda podem ocorrer situaes picantes. Agora mesmo 
com todo o stress por que ela passou, por causa de Idi Amin...
-        Temos outros planos. - A voz de Ahmed tornou-se 
autoritria. - Volte para c e venha receber o seu dinheiro! 
Que tipo de material tem para oferecer?
- Alguns beijinhos com Ballister, pequenas desavenas na 
piscina, a Saunders com um biquini de fazer cortar a 
respirao, alguns beberes lascivos e de olhos arregalados nas 
proximidades.
- Insuficiente, no lhe parece, Darkster?
- No posso fazer aparecer, como que por artes mgicas, 
nenhum rapago robusto na cama dela, j que Saunders  muito 
virtuosa, meu caro! - Darkster ficou to satisfeito com esta 
frase que acabara de pronunciar, como se tivesse ganho o 
primeiro prmio da lotaria. "Se tu soubesses, caro Ahmed, se 
tu soubesses..." - Mas eu j lhe tinha dito: vigiar Saunders  
a mesma coisa que estar  espreita num convento de freiras! 
No posso oferecer-lhe a sorte grande! - acrescentou Darkster.
- Ento, considere-se despedido! - disse Ahmed lacnico. 
- Ainda lhe pagamos o voo de regresso, mas nada mais!
Darkster estava feliz por poder escapar de forma amena. 
Emalou os seus poucos pertences, mas, antes do avio descolar, 
certificou-se de que Balister e Felicitas regressavam via 
Paris. Ele prprio quis apanhar um avio que fazia escala em 
Madrid. Passaria uma outra noite em Espanha, na parte velha de 
Madrid. Isto era para ele o final condigno daquela que seria, 
certamente, a primeira e ltima das suas grandes viagens sobre 
o Atlntico. Como pensionista do dinheiro de Felicitas, queria 
instalar-se na Califrnia, junto  costa, bem para sul, junto 
 fronteira com o Mxico, no calor eterno. Se Balister tambm 
l estivesse, Arthur Darkster considerar-se-ia o homem mais 
feliz do mundo.

 noite a equipa da estao televisiva ACF partiu para 
Paris. Desta vez, o prncipe Khalif no estava no aeroporto, 
nenhum RolIs-Royce branco levou Felicitas e no havia nenhuma 
chuva de flores  entrada... foram de txi e restou apenas um 
funcionrio do Ministrio para cumprir deveres de cortesia e 
apresentar as despedidas oficiais a Felicitas Saunders. Khalif 
nunca mais deu notcias. Enviou simplesmente um gigantesco 
ramo de flores, sem comentrios. Felicitas mandou-o de volta 
para o hotel. Deste modo a resposta foi silenciosa, mas clara.
Darkster partiu no ltimo avio para Madrid, assim que 
soube que as suas futuras galinhas dos ovos de ouro estavam 
fora de perigo. Ofereceu o seu jalabia a um homem
andrajoso que andava a vadiar pelo aeroporto e pedia esmola s 
escondidas, uma vez que a mendicidade era proibida na Lbia. 
Em primeiro lugar, o berbere no quis aceitar
o presente, mas depois caiu de joelhos e quis beijar as mos 
de Darkster. Contudo, este repeliu-o e desatou a correr pela 
aerogare. Ainda na casa de banho do aeroporto, Darkster rapou 
a barba rala e voltou a apresentar-se como realmente era.
"Dentro de trs ou quatro dias as fotografias ficaro 
prontas", pensou, enquanto bebia um ltimo caf forte no bar 
do aeroporto. "Em seguida, prosseguimos suavemente apenas com 
um pormenor... a varanda, o Bailister, a maneira como ele 
esticava os braos e, um pouco mais  esquerda, num ngulo 
bastante refinado e como uma onda ligeira -, um pedao do 
quadril de Felicitas." Era admissvel que Saunders 
reconhecesse a voluptuosa curva do seu traseiro e reagisse de 
alguma forma. Ela sabia perfeitamente como era a fotografia 
inteira e o que podia ver-se  esquerda, no pedao que 
faltava.
Saunders no podia ser to empedernida e no era possvel 
que isso no a fizesse ficar sem ar.

Em Nova iorque, Hunters pensara em algo diferente:
recebia os seus "magnficos" com a orquestra de dana da ACF. 
Roddy Lewis tocava "Evergreen Blues", duas cmaras captavam 
Felicitas e Balister a sair do avio, e um gigantesco ramo de 
orqudeas seria a surpresa do prprio Hunters. Em seguida, 
todos sorriam  sua volta para as cmaras e sabiam que era 
disso que o espectador gostava e era com esse tipo de coisas 
que ficava impressionado. A emisso iria para o ar na rubrica 
Esta Noite em Nova iorque, como intrito  entrevista de 
Felicitas a Amin, da qual j todos falavam, sem saberem o que 
ela trazia consigo. S o facto de Saunders ter sido a nica a 
penetrar no esconderijo secreto e a ver Idi Amin j de si era 
uma sensao de primeira.
Lora Balister tambm veio para a recepo, juntamente 
com Rosa, a filha de Felicitas, e o amigo dela, o estudante de 
medicina e pugilista Red Cummings. O rapaz parecia um pouco 
contrado, estava visivelmente preocupado com Rosa e com os 
assassnios cmicos no jardim dos Balister e sabia que, 
algures nos bastidores, tambm estavam presentes alguns 
funcionrios da Brigada de Homicdios a observar tudo. Na 
opinio deles, Balister estava, de algum modo, em risco, 
mesmo que tivessem sido outros a morrer. No se conhecia o 
motivo e a relao entre as mortes e isso era enervante.
Seria um bom filme publicitrio para Hunters e para a 
ACF. Lora atirou-se ao pescoo do marido, Rosa ao da me e 
Cummings fazia o papel de escravo, como convinha a um rapaz 
bem-educado. Depois, Felicitas disse ao microfone:
- Estou impressionada com esta recepo. Meninos, no 
exagerem! Que  isto? Eu apenas fiz uma entrevista a um homem, 
que por acaso se chama Idi Amin...

Muito eficaz, muito refinada. Hunters suspirou de 
felicidade. Abraou Saunders juntamente com as orqudeas 
conduziu-a ao seu automvel, acompanhado pela msica da 
orquestra da ACF. Balister ficou para trs, ao lado da 
mulher, a qual estava pendurada nele, como se ele tivesse 
acabado de salv-la de morrer afogada. Rosa e Cummings seguiam 
atrs de Felicitas, de brao dado, formando um lindo par de 
namorados.
- Eles descobriram qualquer coisa - disse Lora em voz 
baixa e apertou o brao de Bailister.
Balister sobressaltou-se, porque havia lanado um olhar 
rpido a Felicitas.
-        Que descobriram eles? Quem?
- A Polcia. Ambas as vitimas foram estranguladas com 
cordas de cnhamo, com a espessura do dedo mindinho. Na pele 
deles foram encontrados fios de cnhamo. O assassino deve ser 
muito forte. Atacou-os sempre to violentamente que lhes 
partiu a cartilagem da laringe.
- Isso no acrescenta nada de novo ao caso. - Ballister 
libertou-se do aperto de Lora e colocou-lhe o brao sobre os 
ombros, numa atitude protectora. - Temos de suportar tudo com 
muita calma e muito nimo, Lora! no nos resta outra soluo. 
Principalmente, nada de publicidade. Talvez seja isso mesmo o 
que o assassino quer!
- Mas porqu? Porqu exactamente isso, Jrome?
- Vai perguntar a um louco! Sim, porque s pode ser um 
louco! Um dia destes ele vai atraioar-se...
Uma vez que Darkster ainda estava em Madrid nessa noite, 
a divertir-se  grande, perdeu a transmisso da chegada de 
Felicitas a Nova iorque e tambm o reencontro simblico com o 
homem que ele julgava ter reconhecido e que o atacara no 
parque dos Bailister. O homem apareceu
destacado umas duas vezes e Darkster teria, caso estivesse em 
frente ao ecr, soltado um grito e alertado a Brigada de 
Homicdios. Contudo, no aconteceu nada disso e o filme 
percorreu a emissora com destino ao eterno descanso no 
arquivo.
Balister viu o filme em sua casa. Felicitas tambm l 
estava, porque Rosa ainda queria ficar em casa de Lora, e 
Cummings tambm ainda tinha de fazer o seu acampamento em casa 
de Bailister. Estavam sentados no salo em perfeita harmonia, 
bebiam vinho da Califrnia e divertiam-se, gozando com o gordo 
Hunters, que os olhava embasbacado e lhes lanava o mais 
genuno dos sorrisos americanos. Os dez minutos de durao do 
filme foram uma homenagem a Felicitas Saunders, mas ela 
prpria comentou no final:
-        O melhor de tudo foi Roddy Lewis e a sua orquestra!
Posteriormente foram inspeccionar o jardim e o lugar onde 
haviam encontrado o pobre Stan Barley estrangulado. As marcas 
que a Polcia espetara no cho ainda macio continuavam l: 
eram pequenas placas de plstico com nmeros. Cummings 
explicou como Barley ali foi encontrado, estendido ao 
comprido. A expresso do seu rosto era de total surpresa e no 
estava minimamente deformado. A Polcia era de opinio de que 
o assassino devia ter saltado sobre ele pelas costas e depois, 
logo de seguida, esmagara-lhe a laringe com uma corda, com uma 
fora monstruosa. A corda cortou-lhe a carne como uma faca, 
donde se concluiu que a corda devia estar cheia de sangue.
-        Ele vai a enterrar depois de amanh - disse Lora com 
voz trmula. - A Polcia filmar em segredo o enterro de todos 
os ngulos e observar cada pessoa individualmente.

-        Ser que eles acham realmente que o assassnio vai 
estar l e vai atirar tambm uma flor para a cova? - Cummings 
levou a mo  testa. -  ridcula e ultrapassada a ideia de 
que o criminoso volta sempre ao local do crime!
-        Com gente doida nunca se sabe. - Balister
dirigiu-se lentamente de volta para casa. - Se ele for 
realmente um louco! No entanto, acho que voc tem razo, Red: 
aqui a Polcia espera em vo.
"Se ele for um psicopata", pensou Balister, confuso, 
"vai continuar. Mas ser possvel que algum assassine pessoas 
inocentes apenas para transformar a vida do seu rival num 
inferno? Ser possvel uma pessoa pensar de forma to brutal?" 
Balister recordou-se de um nico olhar que o prncipe Khalif 
lhe lanou. O mesmo olhar quando Balister disse que Felicitas 
ficaria alojada no hotel e em mais parte nenhuma. Foram olhos 
em que no havia uma nica centelha de humanidade.
-        Vamos cancelar todas as festas para a prxima semana 
- declarou Balister, quando voltaram para dentro de casa. - 
Vamos transferir as nossas visitas somente para de dia. Vamos 
parar com as recepes  noite. E se pudermos evitar, ningum 
entra mais sozinho na nossa casa, ou no jardim. Quem quer que 
entre aqui, tem de fazer-se acompanhar de, pelo menos, mais 
duas pessoas.
-        Vamos viver como prisioneiros - disse Lora em voz 
baixa. - Encerrados dentro do nosso medo. Afinal, que querero 
de ns?
-        Se o soubssemos, estaramos perto da soluo do 
enigma! - disse Red Cummings. - E ento, teramos o motivo.
-        H sempre um motivo. - Balister tornou a encher o 
copo com vinho. - A fama  muito procurada. Que te parece, 
Lora? Invejam-nos tanto porque temos dinheiro, uma casa e um 
nome conhecido.
-        Para isso trabalhaste dia e noite, Jrome...
-        Isso no vale de nada. Vem apenas o brilho, nunca 
vem o lado obscuro que est por trs.
-        Proponho que partam em viagem por umas duas semanas 
- disse Felicitas e, ao dizer isto, olhou de relance para 
Balister. - Efectivamente, Lora precisa de repouso.
-        Impossvel! Neste momento no posso afastar-me da 
emissora. Muito menos agora. Estamos a preparar uma nova srie 
de programas - contraps Balister.
-        Sozinha no vou. - Lora abanou vigorosamente a 
cabea. - Que iria eu fazer sozinha algures no se sabe onde? 
Era como se fosse um exlio!
Lora recomeou a chorar, inclinou a cabea sobre 
Ballister e, enquanto este a consolava, ele colocou um brao  
sua volta para proteg-la.
-        Amanh vou mandar instalar holofotes de halognio! - 
disse Balister em tom enrgico. - Vou iluminar todo o jardim. 
Veremos at todas as minhocas que rastejarem pela relva! E vou 
mandar montar gradeamentos iluminados. Quem quer que os 
atravesse, vai ser filmado por cmaras invisveis e ocultas! 
No sei quem quer dar cabo de ns, mas vou aceitar a guerra! 
At agora nunca me rendi!


O filme foi revelado e a primeira prova ampliada estava 
pendurada na cmara escura, numa corda, presa por uma pequena 
mola cromada. Era uma ampliao de 20 por 30. Um lindo e 
picante registo, no qual cada pormenor estava devidamente 
realado.
Felicitas Saunders numa nudez paradisaca. E  sua 
frente, Jrome Balister com uns pequenos cales, 
razoavelmente amarrotados, de mos estendidas, como se, 
naquele momento, quisesse agarrar a beleza que lhe era 
oferecida.
- At parece uma vida despreocupada! - exclamou Darkster 
satisfeito. - Senhora Saunders, senhor Balister, eu vos sado 
como meus scios! Se permanecermos todos sensatos e razoveis, 
isto vai tornar-se um negcio duradouro.
Com verdadeira alegria, Darkster ampliou a outra 
fotografia e pendurou todas as trinta e oito fotografias no 
estendal. Uma corrente de fotografias valiosas como uma fiada 
de prolas. Darkster falou ainda mais uma vez com Ahmed Sehadi 
ibn Mahmoud. Voltaram a encontrar-se no caf do Lincoln Center 
e Ahmed mostrara-se bastante generoso. Entregou a Darkster 
cerca de cinco mil dlares em dinheiro, e mais de dez mil 
dlares como bnus extra. Isto era, por assim dizer, a ttulo 
de consolao para o prmio de trinta mil dlares que Darkster 
receberia se tivesse conseguido obter fotografias 
comprometedoras.
- Isto  o que se pode realmente chamar de falhano! - 
disse Darkster jovial e guardou no bolso as notas de dlar. - 
Saunders devia ser apelidada de anjo de virtudes. A vida 
sexual dela passa-se na televiso. O microfone  o seu 
parceiro de cama e deixa-se acariciar pela cmara. No h 
nenhum homem entre eles! J pensou numa coisa dessas Bob?
- Esperemos! - respondeu Ahmed friamente. - At aqui, 
voc fez um bom trabalho, Darkster. Por isso, tambm ganha 
mais dez mil dlares de graa. Talvez pudesse ter recebido 
mais, se no tivesse feito aquele passeio idiota pelo deserto 
e se se tivesse limitado a embriagar-se no bar.
- No se pode pensar em tudo, Bob! - Darkster encolheu os 
ombros, rendido. - Mas sempre se aprende com os erros! Saiba, 
meu caro, que eu aprendi...
 noite ocorreu o grande reencontro com a idosa senhora, 
Jenny Havelook. Darkster voltou a instalar-se no seu 
apartamento em frente de Felicitas, tornou a sobressaltar-se 
com o fedor a urina que brotava do soalho e bebeu heroicamente 
uma chvena de caf com a simptica velhota, comeu duas 
bolachas, as quais ficavam coladas aos dentes como pastilha 
elstica, e contou-lhe sobre a sua viagem. Apenas transferiu o 
destino da viagem para o Havai, onde nunca tinha estado, e 
descreveu esta ilha com cores to aliciantes que a senhora 
Havelook exclamou com nostalgia:
- Oh, senhor Darkster, se eu voltasse a ter setenta anos! 
Ia j para l!  uma sorte to grande ser-se jovem e conhecer 
o mundo!
Darkster era da mesma opinio. "Vou reformar-me aos 
trinta e quatro anos e todos deviam imitar-me! Vou conhecer o 
mundo, nos seus aspectos mais bonitos!"

 noite, Darkster telefonou. Tinha visto Felicitas 
Saunders chegar a casa. A filha, Rosa, estava com ela. No dia 
seguinte devia ir para o ar a entrevista com Idi Amin. Era uma 
mudana na programao. Hunters conseguiu suplantar a guerra 
da publicidade e arranjar espao nos jornais para anncios 
maiores da ACF. Na sua prpria estao televisiva, a 
publicidade era feita, aps cada emisso, por uma loura e 
encantadora locutora chamada May Vernon, a qual anunciava a 
seguinte sensao: "Felicitas Saunders conversa com Amin."
Este era o assunto do dia em toda a Amrica. Nos ltimos 
dois dias, a CIA cercava no s Saunders, como tambm 
Balister. Queriam informaes internas, indicaes, pontos de 
referncia, que se resumiam numa nica pergunta: onde estava 
Idi Amin escondido? Em que lugar da Lbia? Como era o osis e 
como era a casa? Uma vez que tanto Saunders como Balister 
ficaram calados, apelaram para o seu sentimento patritico e 
para a sua honra como americanos.
- Vejam vocs mesmos o filme - disse Balister de forma 
enrgica para os agentes da CIA. - Demos a nossa palavra de 
no dizer mais nada! Se eu quebrasse esse voto, seria a 
falncia da ACF! Felicitas nunca mais teria uma entrevista em 
exclusivo. Vo ter de compreender, meus senhores, mesmo sendo 
da CIA, no  verdade?
Na verdade, no quiseram compreender nada, mas, por 
enquanto, deixaram Balister e Felicitas em paz. Hunters 
chegou at a recusar uma exibio particular do filme para a 
CIA.
-        Vocs so espectadores como todos os outros! - disse 
ele insolente. - Ou, em troca so capazes de dar-me uma 
notcia escaldante da Casa Branca?
Portanto, a Amrica estava, at agora, empolgada ao 
mximo. Felicitas Saunders dominava completamente os 
acontecimentos. E, no meio de toda esta expectativa, surgiu o 
telefonema de Arthur Darkster. Este imprimiu  sua voz um tom 
suave e quase untuoso, ao dizer:
- Senhora Saunders, felicito-a pelo seu xito na Lbia. 
Enquanto o mundo inteiro aguarda a sua entrevista com Idi 
Amin, permita-me que lhe d a minha opinio sobre a sua 
inimitvel imagem na varanda do Hotel Es Sidra.
Uma vez que Felicitas no respondeu imediatamente, 
Darkster sorriu com conhecimento de causa. "Neste momento ela 
est a pensar", imaginou ele. "Est a pensar muito friamente: 
"Como posso ter sido vista? Quem me pode ter visto? Como foi 
isso possvel? E que sair agora daqui?""
Darkster interrompeu o curso dos pensamentos de 
Felicitas, enquanto continuava a falar.
-        O seu espanto  legitimo, senhora Saunders. E ainda 
ser maior quando lhe revelar que disponho de trinta e seis 
excelentes fotografias desta cena clssica da varanda. Se a 
compararmos com a de Romeu e Julieta, esta ltima parece uma 
cena de teatro barato. Fotografias de valor incalculvel. Por 
causa destas trinta e seis fotografias precisei trocar a 
objectiva. As lentes deformaram-se. Aqueceram demasiado com a 
sua imagem. Esta linha, desde o pescoo passando sobre os 
seios e da barriga at s coxas  capaz de deixar tonto 
qualquer especialista em curvas...
- Quem  o senhor? - perguntou Felicitas prosaica e 
friamente.
Neste momento, Darkster j no a admirava. Haveria 
realmente alguma coisa que no a deixasse impassvel, para 
alm do amor clandestino por um homem casado?
- Est  espera de que eu lhe responda?
- No acredito em si.
- Mas, de certo, sabe sobre o que estou a falar.

- No!
- Senhora Saunders, no joguemos  cabra-cega. Por que 
razo havemos de estar a rodear o assunto? De resto, Jrome 
Balister fica melhor de cuecas reduzidas do que imaginei.
D-lhe um ar mais desportivo. Ele deveria comprar os seus 
fatos noutro lado qualquer!
-        O senhor quer fazer chantagem comigo de uma maneira 
infantil, no  verdade? No entanto, eu sou o pior alvo 
possvel! No tenho por hbito reagir a bluffs!
- Queremos falar e entender-nos como pessoas sensatas, 
no queremos? - Darkster recorreu a uma pausa estratgica, 
para aumentar a tenso. - Na sua caixa do correio, junto ao 
porto, est um sobrescrito castanho com pormenor ampliado. 
Uma fotografia muito discreta, senhora Saunders. Portanto, no 
devem surgir desavenas entre ns. A fotografia mostra Jrome 
Balister de cuecas, como se estivesse a abraar uma mulher 
naquele momento. Contudo, no se v a mulher, porque eu 
recortei esse lado. V-se apenas uma parte da sua coxa nua.  
uma fotografia de fazer crescer gua na boca e adequada para 
dar largas  fantasia e  imaginao. Tenho a certeza de que a 
senhora conhece a dona dessa coxa. Por favor, informe-a. Volto 
a telefonar-lhe dentro de dez minutos.
Darkster desligou e sentiu-se muito satisfeito consigo 
mesmo. Bebeu um usque, viu com os binculos Felicitas 
aparecer junto ao porto, a abrir o sobrescrito e a retirar o 
contedo. Felicitas no olhou  sua volta, nem deu uma vista 
de olhos pelas redondezas. Bastante pragmtica, fechou o 
sobrescrito e voltou para casa.
Precisamente dez minutos depois, Darkster telefonava-lhe 
outra vez.
- Faa-me um elogio, senhora Saunders - disse Darkster. - 
No  uma fotografia de uma notvel nitidez. Tenho aqui ao meu 
lado o pedao que falta. A senhora tem um sinal minsculo 
bastante encantador mesmo por baixo do seio esquerdo, um pouco 
de lado, na direco da costura.
-        Quanto? - perguntou Felicitas sem nenhuma emoo 
perceptvel.
-        So trinta e seis fotografias... cada uma mais 
bonita do que a outra.
-        Quanto?
- No se deixe abater por uma cifra, senhora Saunders. 
Comecemos pelas despesas. Uma vez que vamos ser scios,
peo-lhe que me conceda uma pequena quantia. No sou 
ganancioso... dez mil dlares.
-        De acordo. Quando recebo os negativos?
-        Estamos a falar das despesas. Uma pessoa no pode 
viver disso. Trinta e seis fotografias desta qualidade so uma 
garantia de vida. Mas de que serve andar a a apregoar? A vida 
tem de continuar e eu contento-me com cinco mil dlares por 
ms. Isso d sessenta mil dlares por ano. Para mim  
perfeitamente claro que no precisamos continuar a negociar 
sobre o seu rendimento de milhes. Admitamos que eu tenha mais 
trinta anos de vida; isso perfaz um milho e oitocentos mil 
dlares. Essa quantia em trinta anos, senhora Saunders! Por 
favor, tem de reconhecer que no sou exigente! Todos os anos, 
pelo seu aniversrio, mando-lhe um negativo das trinta e seis 
fotografias, como prova da minha honestidade.
-        E se eu recusar?

-        Passariam a ser trinta e seis fotografias de capa de 
revista, cada uma delas por cinquenta mil dlares. Isso daria 
um milho, duzentos e cinquenta mil dlares de uma s vez. A 
senhora duvida de que todas as revistas seriam capazes de 
pagar essa soma por cada uma das fotografias? Eu, no. Uma 
manh na vida de Saunders, surpreendida por uma poderosa 
mquina fotogrfica...
-        Para onde quer que envie o dinheiro?
A voz de Felicitas permanecia to fria como at aqui. 
Darkster esfregava a testa de excitao. "Ela sabe perder", 
pensou Darkster. "Meu Deus do cu, que mulher!  capaz de 
pagar para ter uma vida tranquila e comporta-se como se 
estivesse a comprar um repolho."
-        Eu volto a telefonar-lhe - disse Darkster e respirou 
profundamente. - Senhora Saunders, eu admiro-a.
-        E eu odeio-o - replicou Felicitas em tom gelado.
Sou capaz de mat-lo, se conseguir v-lo alguma vez! Estou a 
falar muito a srio...
-        Eu sei. - Darkster contemplou a parede com o papel 
de parede rasgado. - Tambm confio em si.  bom saber que, 
neste momento, ns os dois temos algo a perder. Isso rejeita 
todos os pontos menos claros do caminho. Agora, temos de saber 
conviver um com o outro, ou ento ir para o Inferno!

Captulo 9

Chegou uma altura em que Balister se admirou com seus 
prprios nervos. Na ACF sempre fora considerado um homem cuja 
calma nunca era superada pelo pnico, mesmo nas circunstncias 
mais crticas, quando outros seriam capazes de arrancar a 
gravata. Mas depois, atingia um limite para alm do qual 
tambm ele comeava a gritar e de uma maneira to intensa que 
nos estdios reinava o mais puro terror. At Felicitas 
Saunders foi apanhada algumas vezes pela fria de Balister, 
quando teimava na sua opinio. Depois, todos esperavam que 
Saunders aproveitasse a sua fora medonha e dissesse 
friamente:
- Vou imediatamente para a ABC!
Por sua vez, isso queria dizer que Hunters subia pelas 
paredes e a cadeira de Balister estava em perigo. Mas, tanto 
quanto se sabe e de uma forma inexplicvel, at  altura isso 
nunca acontecera. Saunders abanava a cabea, deixava-se 
insultar e suportava tudo em silncio. Ningum era capaz de 
compreender aquilo, porque ningum sabia o que acontecia ao 
fim da tarde e em determinadas noites.
No entanto, Balister estava num estado tal que as 
pessoas, por seu lado, at prefeririam caminhar sobre bombas. 
O realizador Pemm voltou a aparecer no gabinete de Bailister, 
atirou, como sempre, o seu bon contra a parede e sentou-se na 
borda da secretria, em frente a Bailister. O rosto cintilava, 
o que, no caso de Pemm, era um sinal para ser interpretado com 
cautela.
- Voc  um gnio, Jrome! - disse Pemm de forma 
entusistica. - Em relao ao nosso filme com Felicitas 
Lora...
-        Esse assunto est morto! - interrompeu com firmeza.
- ainda me faltam uns ltimos retoques! A histria com o 
amante estrangulado que, na realidade, era o pai desconhecido 
da apaixonada e que padecia do terrvel defeito da 
simplicidade. Um enredo perfeitamente justo. O pblico quer 
enredos complicados. E voc que faz, meu caro? Entrega o 
assunto nas minhas mos! O segundo morto que apareceu no seu 
jardim  um impulso! No qual eu no tinha pensado antes. Mais 
um assassnio no mesmo jardim  mesmo ouro sobre azul. Pobre 
Stan Barley! Quem vai agora dirigir a Orquestra
Jazz-Sinfnica? Billy Hepper?  um bom homem, muito bom homem, 
mas  to gordo! Reage aos impulsos com a velocidade de uma 
morsa! - Pemm retomou o flego ruidosamente. - Repare, o 
segundo morto, de acordo com o que eu pensei,  irmo do 
primeiro morto. No acha o mximo? Um irmo desaparecido, que 
emigrara para a Austrlia h vinte anos. Agora regressa, ouve 
falar do assassnio e tenta encontrar o assassino pelos seus 
prprios meios. E que faz ele? Corre para o jardim 
directamente para os braos do homem ciumento. Este julga que 
 um segundo amante e zs... estrangula-o igualmente com uma 
corda! Que me diz agora, Jrome?
-        Fora daqui!
-        Hunters est to entusiasmado com o material que at 
me convidou para jantar.
-        Nesse caso, voc pode fazer-me um grande favor, 
Pemm!
-        Com muito prazer. Qual?

- Coma ostras podres...
Pemm sorriu azedo, mas ningum podia ofend-lo: tinha a 
pele to grossa como a dos hipoptamos.
- Eu sabia que voc ia voltar-me as costas outra vez, 
Jrome - disse Pemm -, mas, no entanto, tem de reconhecer que 
este material  de primeira e no podemos deix-lo escapar! Um 
drama de dimenso quase  moda antiga! E tambm seria eu a 
encen-lo, um esquilo moderno. Os nossos espectadores ficariam 
histricos de entusiasmo! Eu e Jan Perczynski j escrevemos um 
argumento. Voc j falou com Lora?
- No vou falar sobre este assunto com ela!
- Nesse caso, vou eu telefonar-lhe.
- Pemm! - Balister inclinou-se para a frente e os seus 
olhos tornaram-se subitamente duros como metal polido. - Se 
fizer isso, se disser a Lora uma palavra que seja sobre esse 
seu filme doido, dou-lhe uma sova to grande que vai parar ao 
hospital! Estou a ser suficientemente claro?
- Recuso-me a aceitar ameaas. - Pemni afastou-se da 
secretria de Bailister. - Voc  uma pessoa sem sentido de 
humor, Jrome! Meu Deus, como  possvel uma pessoa ficar 
colada apenas a um programa como o Actual?  isso que faz o 
contacto dirio com os polticos? Temos aqui um material que 
pode render-nos milhes, Bailister. A nossa taxa de audincia 
vai subir rapidamente e os pedidos para a insero de 
publicidade vo cair em catadupas.
- A cantilena de jbilo de Hunters j eu conheo! - 
Balister indicou a porta. - Pemm, desaparea! Tenho aqui na 
secretria, pelo menos, sete coisas que posso atirar-lhe  
cabea! Portanto... ponha-se rapidamente daqui para fora!
Pemm encolheu os ombros, apanhou o seu bon do cho e 
abandonou o gabinete de Bailister. Enquanto fechava a porta 
atrs de si ainda ouviu Balister a telefonar para Hunters.
- E que tal o meu pedido de demisso? - perguntou 
Bailister.
-        Nem pensar nisso - respondeu Hunters. - Que parvoce 
 essa?
- Que significa esse "nem pensar nisso"?
- Tu s imprescindvel.
- Mas, e se eu quiser ir embora?
- Vem j c acima! - disse Hunters e tossiu violentamente 
ao telefone. - Tenho de fazer-te uma lavagem ao crebro...
Meia hora depois, Hunters compreendeu a razo
porque no se devia sobrecarregar Lora com tal tipo de filme. 
O seu corao podia falhar, tal como o Dr. Meyer havia 
prevenido.
- Ento, abolimos o papel de Lora - disse Hunters. - No 
entanto, Felicitas vai representar o papel dela!
-        Com ela ainda vou ter de falar.
- E achas que ela vai desistir?
- Espero que sim.
- Jrome - Hunters inclinou-se para a frente e continuou 
a fumar o seu grosso charuto -, aqui entre ns, como amigos: 
h alguma coisa entre vocs dois?
- Os teus pensamentos so cada vez mais idiotas! - 
respondeu Bailister na defensiva.
- Tanto assim  que Saunders mal pode fazer alguma coisa 
sem pedir a tua opinio.

- Fui eu quem a educou dessa maneira. Deu-me bastante 
trabalho e precisei de controlar muito os meus nervos.
-Ser que algum ainda pode educar Felicitas? Como fazes 
isso?  por hipnose? Ou ser que  alguma brincadeira 
pessoal...
Balister levantou-se abruptamente.
- O meu tempo  demasiado valioso para aguentar estes 
disparates. Mantenho a minha palavra, Hunters: se Pemm disser 
alguma coisa a Lora, vai passar o resto dos seus dias numa 
cadeira de rodas! A televiso tambm tem de respeitar os 
limites da competncia humana.
- Isso no passa de um novo conceito de moralidade, mas 
vou pensar no assunto, Jrome. Tambm no somos nenhuns 
ogres...
- No! - exclamou Ballister e dirigiu-se para a porta. -
Ns somos uns monstros. De outro modo, ser que a ACF seria 
to popular?

O funeral de Stan Barley foi visto por todo o pas. Para 
isso, Hunters criou um superprograma de trs horas, no qual 
ainda conseguiu enfiar alguns spots publicitrios condensados. 
Assim, as grandes firmas sabiam quais os anncios a passar 
durante o enterro e aceitaram o respectivo preo para verem os 
seus comerciais irem para o ar. Por isso, o discurso do padre 
foi interrompido por trs vezes devido a uma marca de elixir 
dentfrico, um maravilhoso desodorizante para beb e uma marca 
de cerveja. A descida do caixo  terra e a "Jazz-Suite Nr. 4" 
de Stan Barley, tocada pela Orquestra Jazz-Sinfnica, como 
despedida, foi dividida em seis vezes por anncios de 
soutiens, pastilhas elsticas, sapatos ortopdicos, secadores 
de cabelo, canas de pesca e electrodomsticos. Interromperam 
para um anncio de feijo, enquanto Barley era enterrado. 
Hunters estava muito satisfeito.
Quem fosse bom observador, podia ver que entre os 
numerosos acompanhantes do funeral tambm se encontrava uma 
multido de agentes da Polcia. Evidentemente que Arthur 
Darkster tambm participou no funeral, atirou as suas flores e 
trocou meia dzia de palavras amveis com Balister, que 
estava um pouco  parte. Felicitas Saunders no aparecera e, 
naturalmente, a sua filha Rosa e Red Cummings tambm no. Lora 
tremia de medo ao pensar que o assassino estava algures ali 
perto de si e que se deleitava com o espectculo do funeral. A 
Brigada de Homicdios estava de acordo em que ele devia 
tratar-se de um louco, porque no havia motivo para nenhum dos 
dois crimes. Barley e Varone haviam sido assassinados apenas 
por um capricho homicida. Um caso daqueles pertencia  
categoria dos quase insolveis, se no houvesse uma ajuda da 
sorte ou do acaso... ou da imprudncia do criminoso.
Pemin filmou todo o aconteciinento, a partir de uma 
plataforma construda sobre um andaime. Da tinha uma 
excelente panormica de todo o cemitrio. Mais tarde quis, 
habilmente, cortar algumas partes do filme, para que no se 
pudessem reconhecer as pessoas. Desse modo, no era necessrio 
voltar a passar as cenas do cemitrio. Balister aproveitou a 
ocasio para falar com Hunters, ainda junto ao tmulo.
- Em que p est o prazo para a minha demisso? - 
perguntou Balister.
- Acaba com esse disparate! - rosnou Hunters.

- Pemm ainda no desistiu da ideia do filme! Ou ele, ou 
eu!
- Pemm vai filmar para o arquivo!
- Mentes como um poltico!
- Prometi-te deixar Lora e Felicitas fora deste assunto, 
que mais queres tu? Pemm vai filmar um filme normal e moderno, 
com um toque policial. Qualquer semelhana com pessoas reais  
pura coincidncia! Este  um direito de Pemm! Por acaso Pemm 
mete-se na elaborao do teu programa Actual? Gostava de ouvir 
o que tens a dizer sobre isso! - Hunters ofegou profundamente 
e franziu a sua testa gorda. - De resto, estou de luto. Stan 
era um bom amigo. Ao menos mostra um pouco de tristeza e no 
ds a entender que ests a falar de trabalho junto ao tmulo.
- Isso para ti  fcil de dizer! - Balister acenou com a 
cabea na direco de Lora. - Olha para Lora! Est numa pilha 
de nervos! O filme de Pemin  uma autntica sobrecarga para 
ela.
- J falmos sobre isso, Jrome! Valha-me Deus, ao menos 
hoje deixa-me um pouco em paz com esse assunto. Deixa-me ficar 
triste, nem que seja uma vez! Nem junto a um tmulo se pode 
ter um pouco de paz!
Hunters olhou para o caixo coberto de flores. O ltimo 
acompanhante do funeral acabara de passar por ele.
- Tu nem te importas! - exclamou Hunters.
Balister voltou para junto de Lora e deu-lhe o brao.
- Vem - disse Balister em voz baixa. - Vamos embora. Ou 
queres assistir ao jantar do funeral?
Lora encostou-se a Balister e notou, com agrado, que 
Felicitas no viera.
- E se o assassino estiver entre ns? - perguntou Lora.
- Isso  o que est a preocupar-me menos.
- Mas no a mim! Estou sempre a perguntar-me: quem ser a 
prxima vitima?
- Nunca deves pensar nisso! Talvez seja esse o objectivo 
desse desconhecido: fazer gerar entre ns a insegurana, a 
confuso e o pnico.
- Mas porqu? Que ser que ns fizemos para que algum 
queira acabar connosco?
- Essa pergunta no tem resposta, Lora.
Balister arrastou-a para longe do tmulo, conduziu-a  
sada do cemitrio, at ao stio onde deixara o automvel, e 
ajudou-a a entrar. Foi enternecedora a maneira como ele afagou 
o rosto dela, antes de fechar a porta. Em segundo plano 
Darkster estava  espreita e tambm fotografou a cena. " uma 
magnfica sequncia de fotografias", pensou ele. "Um novo 
Tartufo, um hipcrita de primeira classe! Aqui acaricia a 
mulher, em Trpoli brinca com Saunders, nua na varanda do 
hotel. Digam l se isto no  um dom digno de nota!"
Darkster no perdeu tempo. Uma hora depois do funeral 
telefonou a Balister.
- Tenho uma coisa para si, Jrome - disse Darkster, 
afvel e com um tom de voz grave e disfarado. - Quando voc a 
vir, vai rejubilar!  o seguinte: no h nenhuma fotografia 
sua mais natural, verdadeira e to vital, devo dizer-lhe!
- Quem  voc? - perguntou Baliister, conciso.
- Mas, Bailister, que pergunta to parva!
- Poupe o seu tempo para coisas melhores, tal como eu!
- No se irrite, Jrome! Lora parece estar muito 
deprimida...

Darkster ouviu a maneira como Bailister respirou pelo 
nariz.
- Que tem Lora? - perguntou Bailister.
- Exibe um ar frgil.
-        E que tem voc com isso?
- Preocupo-me com o facto de as suas explicaes j no 
serem suficientemente convincentes para ela.
-        Oua bem, meu rapaz - disse Bailister devagar -, se 
voc pensa que cedo a extorses, est muito enganado! Pelos 
vistos, no me conhece.
- Conheo-o muito bem, Jrome! Melhor do que qualquer 
outra pessoa. Estou at bastante familiarizado com a sua 
anatomia. De resto, no  nada de deitar fora, apesar de no 
parecer! Permito-me falar-lhe assim com tanta confiana apenas 
porque o conheo muito bem - repetiu ele.
- Vou dar-lhe uma morada - disse Balister prosaico.
-        Isso  ptimo. E  de quem?
- De um bom psiquiatra...
-        Bailister, no abuse! Fui bastante claro. Recorda-se 
de Trpoli?
- Naturalmente.
- E do bonito Hotel Es Sidra?
- Foi a que me hospedei.
-        No no mesmo piso da nossa esplndida Felicitas 
Saunders. Contudo, certa manh, a beldade encontrava-se na sua 
varanda, nua e estava to magnificamente nua dos ps  cabea 
como um claro cu matinal...
-        Grande porco! - disse Balister calmamente.
-        Eu possuo uma mquina fotogrfica automtica, 
Jrome. Posso dizer-lhe que o que fotografei  material de 
primeira classe! Para mim, que sou um homem insignificante, 
isso significa um ponto crucial da minha vida. A ardente viva 
Saunders e o dedicado Bailister, um homem casado.
- Onde posso encontr-lo? - perguntou Bailister sem 
qualquer sombra de perturbao.
Em compensao, o seu crebro trabalhava como um 
computador enraivecido. Aquelas fotografias significariam a 
morte certa para Lora! Tambm seriam o fim de Felicitas.
Para todas as ligas de mulheres, ela significava a viva 
ntegra, cujas recordaes estavam apenas ligadas ao marido, 
morto no Vietname. A fama que Felicitas obtivera  custa do 
seu trabalho transferia-se tambm para o morto. Era o seu 
nome. Saunders. Se as fotografias fossem divulgadas, seriam 
como se um monumento ruisse. No havia na Amrica nada mais 
mortal do que a decepo das associaes femininas. E uma 
estao de televiso vive precisamente da participao activa 
das mulheres. Os spots publicitrios falavam essencialmente 
por si. Um adultrio por parte de Saunders, registado em 
fotografias, custariam uns milhes de dlares  ACF. Era uma 
situao muito clara, e Balister precisava de lhe pr fim.
Darkster sorriu ao telefone.
- Eu acho, Balister, que voc continua a considerar-me 
um atrasado mental! Porque havemos ns de encontrar-nos?
- Quero comprar-lhe os negativos.
- Tambm podemos fazer isso  distncia. No entanto, 
aceito que voc no esteja nas melhores condies de pagar o 
preo justo pelas trinta e seis fotografias. Podemos

reparti-lo por vrios anos. Digamos que por doze anos. Todos 
os anos voc recebe trs negativos. Deste modo, eu recebo uma 
renda e voc tem a certeza de que tudo continua na mais 
perfeita paz. Eu sou modesto: mil dlares por ms. A paz 
permanente pode ser muito barata.
- Recuso! - disse Balister, obstinado. - Por mim, at 
pode levar as fotografias ao New York Times!
Balister estava a fazer bluff e desejava secretamente 
que o desconhecido no considerasse isso como a sua ltima 
palavra e desligasse o telefone. Darkster tambm estava 
demasiado espantado para dar a conversa por terminada. Tinha 
esperado tudo menos isto.
-        Est a falar a srio, Jrome? - perguntou Darkster.
-        Voc ouviu!
Balister respirou aliviado. A conversa continuava, mas 
ele estava satisfeito. O seu adversrio reagira a este golpe.
-        Voc quer mesmo um escndalo?
-        Seremos capazes de sobreviver a isso. A senhora 
Saunders tem dinheiro suficiente para poder viver em paz em 
qualquer parte do mundo. V apregoar as fotografias pelas 
ruas! Mais alguma coisa?
- Sim, vou dar-lhe um tempo para pensar.
- Para qu?
- H uma outra srie de fotografias, bastante recente. 
Trata-se de um homem que,  sada de um funeral, ajuda a sua 
mulher a entrar no automvel e acaricia-lhe o rosto. Esta 
felicidade enternecedora confrontada com a cena de nudez na 
varanda do hotel em Trpoli d um programa de contrastes 
avassalador.
Bailister ficou arrasado por dentro, mas, por fora, 
permaneceu impassvel. "Isto nunca poder vir a pblico", 
pensou. "Seria a maneira mais infame de aniquilar 
completamente trs pessoas."
- Como quer receber o dinheiro? - perguntou a Darkster.
Darkster respirou de alvio. A serenidade de Bailister 
tinha-lhe causado um enorme desgaste nervoso.
- Finalmente eis uma frase verdadeiramente sensata, 
Jrome! Eu volto a telefonar-lhe. Tem de admitir que o tratei 
com razovel humanidade.
- Basta! - disse Bailister muito srio. - Voc  um 
nojento!
Em seguida, desligou. Darkster riu-se de um modo quase 
histrico, desligou o telefone e saiu da cabina telefnica do 
Bar Antonettis. Ao balco, ainda bebeu uma cuba livre e 
brindou  sua sade. A vida futura estava garantida. Para 
Darkster, o problema da labuta diria no seu trabalho j no 
se punha.

Quem ia cortar o cabelo, aparar ou fazer a barba a Camino 
Cappadozza, mais conhecido pela sigla CC, no pertencia 
exactamente  mais fina sociedade. Alm disso, o salo de 
cabeleireiro, que tinha sobre a porta uma tabuleta vistosa com 
o nome pomposo de "Coiffeur Internacional", ficava um pouco 
fora de mo, nomeadamente na regio porturia de Hoboken. Alm 
do mais, o cabeleireiro de senhoras era frequentado por 
prostitutas que, ao cair da noite, batiam as vielas e, 
principalmente se faziam acompanhar pelos marinheiros

recm-desembarcados no porto. De vez em quando apareciam 
alguns turistas nesta regio obscura, para ficarem a conhecer 
a zona onde se passam os romances policiais de Nova iorque e 
tambm para se horrorizarem um pouco. Contudo, a vida normal 
no dava grandes hipteses a que o salo de cabeleireiro de CC 
se tornasse o ponto de encontro de clientes ilustres.
Apesar disso, Cappadozza estava bem na vida: conduzia um 
Buick, do modelo mais recente, usava fatos de alfaiates caros 
e dava-se ao luxo de ter uma amante, a qual se passeava com um 
bonito e carssimo casaco de leopardo. Como conseguiria CC 
isso com o seu salo de cabeleireiro era uma pergunta que 
ningum se atrevia a fazer em voz alta. Naquela regio 
aceitava-se tudo, no se murmurava, acalmavam-se os 
pensamentos com o conselho de que  melhor continuar a viver 
em paz do que saber de alguma coisa. Principalmente, no se 
mencionavam nomes que pudessem ser ubquos ou nebulosos.
De vez em quando, Cainino Cappadozza desaparecia por um 
dia ou mais, mas nunca mais do que uma semana; parecia ter 
ganho uma quantidade de dinheiro algures, porque depois do seu 
regresso a sua amante Gigi recebia sempre mais uma jia. 
Depois, iam comer ao Waldorf, ou convidavam amigos para irem 
ao Giannis Borente, um restaurante siciliano no qual podiam, 
por vezes, encontrar-se os "padrinhos" das grandes famlias de 
Nova iorque. Ento, CC sentia-se como se estivesse no stimo 
cu, principalmente quando Don Batucci, o mais provvel 
sucessor do "padrinho", o brindava com um sorriso amistoso.
Por isso, Cappadozza admirou-se quando o telefone do seu 
salo de cabeleireiro soou e uma voz desconhecida lhe disse:
- Onde podemos encontrar-nos?
CC tinha aprendido a ser cauteloso. A desconfiana , sem 
dvida, a condio prvia para se chegar a velho em Hoboken. 
Assim, sorriu na direco da parede de azulejos e respondeu:
- Para quando devo marcar? Hoje ainda tenho duas horas 
livres. s quinze horas e s dezoito horas. Corte de cabelo, 
ou permanente?
-        O senhor foi-me recomendado - disse a voz 
desconhecida.
-         uma grande honra para mim. O que devo ento 
marcar? - perguntou CC, em tom formal.
- Poderamos encontrar-nos hoje no La Colombe para 
tomarmos uma bebida?
Cappadozza franziu a testa e cerrou os lbios. La Colombe 
era um restaurante de luxo e ele j o conhecia. Tambm 
conhecia o proprietrio, o qual nunca tivera problemas no seu 
estabelecimento, porque pagava cuidadosamente para poder ter 
essa segurana.
- Eu tenho uma loja, sir - disse CC, mais cauteloso do 
que antes. - E, alm disso, no fao cortes de cabelo fora do 
salo. Para isso, o senhor deve vir at aqui.
- Trata-se de um problema particular.
- Um capachinho? Uma peruca? Mas sobre isso podemos falar 
abertamente. Pode experimentar as mais bonitas cabeleiras 
postias no meu salo.
- O senhor foi-me recomendado por Dino Lombar di... - 
disse o desconhecido, sem a mnima sombra de sentido de humor.

Cappadozza tornou-se ainda mais cauteloso. O seu assunto 
com Dino Lombardi j terminara h trs anos, ainda se 
recordava dele muito bem. Nessa altura ganhara uma enorme soma 
e o que acontecera em Pittsburgh Ainda hoje havia funcionrios 
do FBI encarregados dos assuntos no esclarecidos e que 
esperavam que ainda acontecesse um milagre. Tudo isso porque 
no mesmo dia, com intervalo de meia hora, nove dos mais 
conhecidos ciantes haviam sido silenciosamente liquidados, com 
setas envenenadas disparadas por espingardas de presso de ar. 
Antes que os atingidos pudessem reagir e procurar o hospital 
mais prximo, o veneno, at a desconhecido, j se espalhara 
pelo sangue e conduzira a uma morte por asfixia, num espao de 
vinte minutos.
E agora estava algum ao telefone que conhecia Lombardi e 
recorria a um apelo seu. Isso no era apenas inslito. Era 
seguramente impossvel. Se havia alguem com algum interesse 
nesse assunto e que tivesse riscado a palavra "Pittsburgh" do 
seu dicionrio, esse algum era Lombardi.
- No conheo nenhum Dino Lombardi - disse, apesar de 
tudo, Cappadozza. - Deve ter-me confundido com algum, sir.
- Lombardi disse: "Camino  um bom homem! sempre h uma 
determinada palavra. E ela  "Biancariila.
Cappadozza conteve um suspiro. Biancarilla era uma 
pequena aldeia, junto ao Etna, sempre com a ameaa permanente 
de o vulco entrar em actividade. Algumas casas
de lava, fincadas em solo improdutivo de lava. Era o torro 
natal dos Cappadozza e o av Leone emigrara para a Amrica em 
1921. Em frente  cama, no quarto de CC, estava pendurada uma 
fotografia de Biancarilla, sempre engalanada de flores. Nunca 
esquecia a ptria amada!
-        Est certo - disse Cappadozza resignado. - 
Biancarilla est correcto. Quando no Colombe?
-        Hoje, por volta das sete horas? Podemos jantar 
juntos.
- Como vou reconhec-lo?
- Estarei sentado na terceira mesa, no lado esquerdo da 
porta.
-        No nicho?
- Exactamente a. Dino disse-me que voc  sempre 
pontual.
O cabeleireiro no respondeu e, em vez disso, desligou. 
Uma sensao desagradvel de formigueiro espalhou-se pelo 
corpo. Cappadozza hesitou, contudo, marcou o nmero e ouviu 
uma voz de mulher responder:
-        Est l?
- Dino est? - rosnou CC.
- Quem fala?
-Biancarilla...
-        Um momento.
Depois, veio Dino e disse, antes que Cappadozza pudesse 
comear a falar:
-        Ests completamente doido? Como podes gritar assim 
esse nome?
-        Eu limito-me a grit-lo, enquanto tu o transmites a 
desconhecidos! Ficaste, de repente, sem crebro?
-        Ele telefonou-te? - perguntou Lombardi.
- Ah! Ento sempre est certo! - Cappadozza ergueu os 
punhos contra a parede. - Por que razo no o comunicaste logo 
ao FBI? Quem  a pessoa que telefonou?
- Devo-lhe muitos favores. Tenho de explicar-te. Ele 
pertence a uma cadeia de televiso.

-        Meu grande cretino! Vou ter de dar alguma 
entrevista? Ou querem fazer algum anncio de publicidade ao 
cabeleireiro? Que quer ele?
- Ele tem problemas particulares.
- E por essa razo, mandas o homem ter comigo? Dino, 
perdeste completamente o juzo? Porque no pintamos um cartaz 
e transportamo-lo juntos pelas ruas: "Ns somos Os irmos de 
Pittsburgh!"?
- Meu Deus, cala o bico, Camino! Eu s lhe disse que tu 
podias dar-lhe um conselho, mais nada. E no  nada m ideia 
ter um tipo conhecido na televiso, a quem se pode bater num 
ombro e considerar um bom amigo.
- E que conselho devo dar-lhe?
Cappadozza desejava no estar a falar com Dino pelo 
telefone, mas poder encar-lo nos olhos. Lombardi tornava-se 
perigoso, se fosse necessrio travar amizade com um tipo da 
televiso e recomend-lo a CC. Uma coisa dessas cheirava 
demasiado a esturro e Cappadozza no estava disposto a correr 
qualquer tipo de risco. Em relao ao seu duplo trabalho, isso 
tambm no era possvel. O anonimato era fundamental para o 
negcio.
- Vai ter com ele - disse Lombardi. - E no te borres de 
medo. Ele no sabe de nada, apenas que tu tens bons 
conhecimentos. E isso no  mentira nenhuma, pois no?

Balister no estava sentado no Colombe h mais de cinco 
minutos quando entrou um homem que se parecia exactamente como 
um Camino Cappadozza devia parecer. O homem dirigiu-se, sem 
hesitar, ao nicho,  terceira mesa do lado esquerdo, e ficou 
de p em frente a Bailister. Os seus olhos inspeccionavam-no 
friamente e aquele olhar gelado era do que Pemm precisava para 
os grandes-planos dos seus filmes sobre a Mafia, para provocar 
o medo no pblico. O grande-plano mais famoso de Pemm era o 
olhar de Ricardo III, no filme baseado na obra de Shakespeare, 
em que o assassnio estava espelhado nos olhos escuros e 
infantis do prncipe.  ACF chegaram grandes quantidades de 
cartas de espectadores, das quais trs delas de mes que 
haviam tido partos prematuros por causa daquela cena, por 
terem vibrado de mais. Inadvertidamente, Balister foi forado 
a pensar nisso, quando Cappadozza o mirou em silncio, com um 
olhar penetrante.
- Sente-se, Camino - disse Ballister amigavelmente. - No 
se incomode, no sou fcil de hipnotizar. A minha vontade  
muito forte.
Cappadozza sentou-se, mandou vir elegantemente um Kir 
Royal e depois acenou com a mo direita.
- Como devo trat-lo? - perguntou CC.
-        Lombardi no lhe disse o meu nome?
-        No.
-         um bom homem! E, mesmo assim, voc veio?
-        A contra-senha!
Bailister recostou-se.
-        Vamos primeiro determinar o seguinte: no estou nada
interessado em quem voc , o que faz, de onde conhece
Lombardi nem em que embrulhadas esto os dois metidos.
Voc  um cabeleireiro de Hoboken que pode ajudar-me.
A posio est clara?
-        Mais ou menos! Em primeiro lugar, ainda no tenho a 
certeza se posso ou quero ajud-lo e, em segundo lugar, ainda 
no me disse o seu nome. O meu j voc conhece!

-        O meu nome  Jrome Balister.
-Ena, p!
-        Que significa esse "ena, p"?
-        O Balister da ACF? O chefe?
-        S do programa Actual!
-        Sem si, a ACF seria uma fbrica de limonadas! Voc e 
Felicitas Saunders so as figuras principais! Amanh no quero 
perder a entrevista com Amin! Vou desligar a campainha e o 
telefone, para no ser incomodado. Mas, afinal, que quer voc 
de mim?
-        Lembro-me de Dino Lombardi numa situao difcil, em 
que lhe dei uma vez a oportunidade de se ilibar de uma 
suspeita ridcula na televiso. Alm do mais: ele estava 
realmente inocente, mas queriam culp-lo de algo muito pesado. 
Um arrombamento de cofre.
-        Que idiotice! Dino nunca foi um arrombador!
-         voc quem o diz! Portanto, Dino ajudou-me a 
procur-lo. E aqui s para ns: fui chantageado.
A campainha de alertas do crebro de Cappadozza comeou a 
dar sinal. Quando algum faz chantagem com um Balister, devia 
estar a lidar com algo de muito concreto. No entanto, uma 
coisa dessas provinha sempre do sindicato. Era francamente um 
gesto suicida deixar-se cair no lao. Uma pessoa no costuma 
urinar num canto do seu apartamento!
-        Para essas coisas existe a Policia - disse 
Cappadozza, com ar ingnuo.
-        No no meu caso. A Polcia, mesmo com toda a 
discrio,  sinnimo de publicidade. Eu conheo os meus 
colegas da imprensa.  exactamente coisas dessas que eles 
farejam! Voc deve descobrir quem  o chantagista.
-Ah!
-        Mais nada...
-        No compreendi a ltima frase! - disse Cappadozza, 
duro. - Tambm existe um nmero suficiente de detectives 
privados.
-        Com o meu nome, seria imprudente da minha parte 
recorrer a um deles.
-        E confia em mim?
-        Confio. Voc possui a disciplina correcta, que  
imprescindvel  sua profisso.
-        Esclarea isso melhor, Bailister! - exigiu 
Cappadozza, sombrio.
-        E  preciso? - Balister sorriu-lhe como se ele 
fosse um irmo muito querido. - Escute-me bem. Algum tem na 
sua posse fotografias tiradas numa situao delicada e que 
nunca devem ser tornadas pblicas!
-Compreendo... Que lindo servio... - Cappadozza sorriu, 
deliciado. - Balister, eu tambm no me alimento propriamente 
de ar fresco.
-        O tipo quer uma renda de mil dlares por ms. 
Durante doze anos.
-        Balister, isso  que devem ser fotografias! Voc 
no se parece nada com um instrutor de sexo!
-        Eu s quero que esteja por perto quando eu pagar a 
primeira parcela e descobrir quem  este tipo.  tudo!
Traga-me o nome e a morada e receber dez mil dlares pelo 
trabalho. Est combinado?
-        E depois, que  que acontece ao fotgrafo?

-        Ainda vou pensar nisso, mas receio que o desiluda:
no o matarei. No  o meu estilo. Tambm no sou capaz de 
fazer uma coisa dessas, nem mesmo contratar um assassino 
profissional! No seria capaz de viver com um peso to grande 
na conscincia.  uma parvoice, no acha?
-        Admiro todas as pessoas que sabem preservar a moral 
- disse Cappadozza. - Mas no acha, Balister, que, ao 
procurar-me, veio ter com o homem errado? Por que razo no 
pode o prprio Dino servir-lhe de espio?
-        Lombardi disse que voc tem mais possibilidades. E, 
alm do mais, tem a inteligncia suficiente para eludir estes 
tipos.
-        Est a dar-me graxa! - Cappadozza exibiu um sorriso 
aberto. - Quando deve pagar a primeira parcela das 
mensalidades?
-        Depois de amanh. Ainda vou receber instrues mais 
precisas. Depois, telefono-lhe imediatamente. - Ballister 
curvou-se sobre a mesa estreita. - Camino, vai ajudar-me?
-        No sei.
-        Mas eu sei que este tipo pode acabar comigo de vez. 
Estou completamente nas mos dele! Ele pode espremer-me at  
medula! Quer um adiantamento?
-        Acha que eu tenho aspecto de quem est prestes a 
morrer de fome? - Cappadozza pareceu bastante ofendido. - Se 
eu aceitar,  apenas porque voc ajudou Dino.
-        Aceita? - perguntou Balister, ofegante. "Meu Deus", 
pensou, "onde vim eu aterrar! Quem julgaria possvel uma coisa 
destas?" - Vai faz-lo? - voltou a perguntar.
-        Est bem! - disse Cappadozza. - Sempre tive um dio 
de morte a esses chantagistas annimos...

Captulo 10

Ser preciso dizer que a entrevista de Felicitas Saunders 
com Idi Amin seria um sucesso? Ouviam-se perguntas que mais 
ningum ousara fazer e ouviam-se respostas com toda a 
megalomania e exibicionismo desmascarados, como s Amin tinha 
coragem para dar. No se descobriram novas maneiras de pensar, 
nem ningum estava  espera disso, mas j de si era 
extraordinrio o facto de ser uma mulher, bem sucedida, sobre 
quem recaa a inveja de todos os Servios Secretos.
 hora da emisso, Felicitas, Balister, Hunters e quase 
todo o pessoal efectivo da ACF reuniram-se num pequeno estdio 
e sentaram-se em frente a um ecr gigante para assistir ao 
filme da Lbia. Lora Balister no se encontrava presente. 
Estava de cama, mal do corao. O Dr. Meyer cuidou dela, 
colocou  sua disposio uma enfermeira particularmente 
especializada e disse a Balister:
- Eu j estava  espera disto! A reaco a toda esta 
excitao tinha de aparecer! Agora ela est novamente mais 
prxima de uma catstrofe! Jrome, tem de fazer uma viagem com 
Lora.
- Ser que quatro semanas podero efectivamente ajudar? - 
perguntou Balister.
- No! Quem est a falar em quatro semanas? Tem de fazer 
uma pausa de, pelo menos, seis meses e ir fazer uma viagem 
pela Europa. V  Sua. Ar puro da montanha, num stio no 
demasiado alto, na regio dos lagos... e paz, paz, paz! 
Passeios a p, sob um ar ozonizado, respirar fundo, encher o 
sangue de oxignio, dar ao corao exerccio para fazer, no 
s como impulsionador, mas tambm como
suporte da alma! O amor... que, muitas vezes, opera 
maravilhas. Voc tem de arranjar tempo para voltar a amar 
Lora.
Balister olhou-o, pensativo, e respondeu:
- Vocs os mdicos tambm facilitam bastante. Prescrevem 
receitas sem se preocuparem se os medicamentos tambm so 
saborosos.
- A medicina no deve ser um teste de palato, deve sim 
servir de ajuda!
- O senhor doutor j sabe que no posso ficar afastado 
daqui por seis meses!
- Sozinha, Lora no vai. J sondei o terreno. Ela precisa 
da sua companhia.
- Ela sabe do estado grave em que se encontra?
- No! Ela s sabe que tem a circulao instvel. Por que 
razo havemos de sobrecarreg-la com a verdade? J ser 
suficiente quando ela vier a saber. Digo-lhe muito 
simplesmente: pode estar na sua mo prolongar a vida dela. 
Pode, digo eu! Vou ter de falar com Hunters?
- Por causa de umas frias durante seis meses? Quem vai 
ter um ataque de corao  ele.
- Vocs acham sempre que so imprescindveis! Que pode 
acontecer a essa maldita televiso se voc partir uma srie de 
ossos num desastre de automvel? Suspendem o servio?
- No pensamos nisso, senhor doutor. Temos de continuar 
sempre.
- E neste caso tambm, no  verdade?
- Isso  um poder superior que no est nas nossas mos.

- E um corao doente no  um poder superior?
- Convena Hunters disso. Alm do mais, seis meses 
afastado da televiso significa fora de circulao.
- No, quando essa pessoa se chama Ballister.
- Senhor doutor, a luta pela cadeira do poder , para 
ns, mortal. O senhor no calcula. Se eu me for embora, j l 
estaro outros dez candidatos a bajular Hunters! Na nossa 
profisso, seis meses de silncio equivalem a trabalho 
reforado. Veja isso por um prisma militarizado: por cada 
coluna que marcha, uma sai abruptamente da fila. Que fazem as 
outras? Prosseguem e preenchem a lacuna na formatura. To 
simples como isto!
Portanto, nessa noite, Lora estava de cama, viu a 
entrevista de Felicitas com Amin atravs de um televisor que 
tinha aos ps da cama e soube, logo  partida, que Saunders 
tinha atingido o topo. J no havia nenhum reprter de 
televiso que precisasse ter medo de chegar-lhe aos ps.
"Isto  trabalho de Jrome", pensou Lora. "O mrito  
exclusivamente dele. Ele transformou Felicitas numa estrela. 
Eu tambm teria sido uma grande estrela. Tinha um caminho em 
ascenso  minha frente, mas abandonei-o to facilmente por 
ele... claro que casei e renunciei  fama. E agora, que ganhei 
com isso? Tornei-me doente, solitria, amargurada e apenas uma 
amante rpida e espordica do meu prprio marido. Envelheci, o 
espelho no mente. Aos quarenta e quatro anos, tenho
ps-de-galinha, notam-se rugas profundas desde o nariz at aos 
cantos da boca, a pele do pescoo tornou-se engelhada, o peito 
est a ficar descado e tenho bolsas de gordura sob a pele das 
ancas e das coxas. J no h cremes que possam resolver, a 
maquilhagem apenas pode tapar e esconder as imperfeies, tal 
como o estuque tapa as rachas numa parede em construo."
Recostou-se nas almofadas, olhou para Felicitas Saunders 
e Idi Amin e sentiu-se infeliz e abandonada. " isso", pensou. 
"Existem rachas por toda a parte, no s no meu corpo, como 
tambm entre mim e Jrome e quanto mais se tenta tap-las, 
mais elas se abrem e j no h remendos que possam
consert-las!"
O medo apoderou-se dela. Lora olhou para a bonita 
Felicitas, que atacava corajosamente Idi Amin com perguntas, e 
sentiu-se subitamente repugnante e velhssima. Saltou da cama, 
arrancou a camisa de noite do corpo e foi pr-se defronte do 
espelho que cobria a parede. Levantou os seios com as mos, 
at ficarem direitos e espetados em relao ao seu corpo.
"Ser que eu pareo uma velha? Qual ser a diferena 
entre mim e essa Saunders, que s tem menos sete anos do que 
eu? O que so, na realidade, sete anos? Ser que ela tem estas 
pernas longas e esbeltas? Ser que ela tem umas ancas to 
lisas como eu? E como ser a barriga dela? A minha no  lisa 
e sem banhas? No tenho banhas nenhumas. Mas ela deve t-las. 
Ela tem uma filha, a barriga deve ter ficado flcida e 
deformada. Isso  uma coisa que se deve notar e sempre ficam 
uns resqucios. E ela tambm amamentou. Podero os seios dela 
estar ainda to firmes como os meus?"

Lora virou-se em frente ao espelho, passou as mos pelo 
corpo e demorou-se nos plos castanho-escuros e frisados, que 
lhe cobriam o baixo-ventre. Era um contraste gritante com a 
cabeleira ruiva que lhe emprestava ao rosto uma beleza 
artificial de boneca. Ao tocar-lhes, Lora estremeceu e mordeu 
o lbio inferior.
"Se daqui a sete anos ela ainda estiver como eu, dever 
fazer uma peregrinao de agradecimento", pensou Lora. "Onde 
esto os defeitos do meu corpo? Mostra-me um nico ponto onde 
isso possa ser demonstrado: ests a envelhecer! No h nenhum. 
Eu sou uma linda mulher. Ests a ouvir, Felicitas: eu sou 
bonita... bonita..."
Lora voltou-se, correu na direco do televisor e ps-se 
nua em frente ao ecr. Saunders conversava com Amin justamente 
sobre as atrocidades dos seus servios secretos. Furioso, 
colrico e gesticulando muito, Amin negava tudo.
- Olha para mim! - gritou Lora e virou-se como se 
estivesse em frente ao espelho. - Eu sou mais bonita do que 
tu! Despe-te, sua prostituta inteligente, e vem pr-te ao meu 
lado! Eu veno-te  distncia... a uma grande distncia... 
Eu... eu...
Lora sucumbiu, arrastou-se novamente para a cama e 
atirou-se para cima da colcha. Permaneceu assim deitada, de 
boca aberta e respirando com dificuldade, at que o corao, 
que batia descontroladamente, se acalmasse um pouco e parasse 
o tremor do corpo contrado.
Na televiso, Felicitas Saunders ria. Amin devia ter dito 
alguma piada.
- Puta - disse Lora e rangeu os dentes. - Maldita puta! 
Porque ser que ningum te atira aos crocodilos...

Na televiso era tempo de festejos.
Felicitas Saunders recebia as felicitaes, Hunters 
oferecia champanhe francs e foi organizado um grande bufete 
frio por um restaurante famoso. Todos tinham razes de sobra 
para estarem felizes. A ACF ultrapassou toda a concorrncia e 
os nveis de audincia deviam ser agora fantsticos. Isso foi 
provado secretamente pelas outras estaes de televiso, que, 
cordiais, telefonavam e abraavam Felicitas simbolicamente.
Hunters nadava num mar de deleite. Todos os presidentes 
das maiores estaes de televiso dos Estados Unidos, sem 
excepo, estiveram sentados em frente ao ecr e agora 
entravam em contacto com a ACF. Hunters falava com eles com um 
ar to jovial, como se j tivesse conhecimento de que, por 
causa do seu programa, eles estavam  beira da falncia.
- Foi um tiro de sorte! - disse Hunters com uma modstia 
trovejante. - Uma reaco em cadeia. Tudo comeou quando 
Felicitas foi convidada por Mobutu para uma caada ao leo e 
para jogar tnis com Fidel Castro. Uma coisa arrasta a outra, 
at chegarmos ao prncipe Khalif Omar ben Saud. Pura sorte, 
meu caro! Tambm pode vir a acontecer consigo.

Balister assumiu uma posio um tanto ou quanto fria em 
relao a todo aquele tumulto. Pensava muito mais em Camino 
Cappadozza e no chantagista desconhecido, que, sem o saber, o 
tinha inteiramente nas mos. A ltima conversa com o Dr. Meyer 
fora determinante: se Lora visse aquelas fotografias de 
Tripoli, seria, para ela, a morte certa. At hoje, Bailister 
estava inclinado a considerar o diagnstico do Dr. Meyer, se 
no exagerado, pelo menos muito forado. At j tinha pensado 
em contar tudo a Lora. Iria suportar, com resignao, o 
temporal semelhante a um tufo que da adviria e depois limpar 
todo aquele estardalhao. Segundo Bailister dizia, ningum 
morria to depressa. Lora tivera uma constituio muito forte, 
at ter feito quarenta anos. A partir da comeara a fantasiar 
cada vez mais e a procurar refugiar-se da sua iminente 
velhice. Talvez o Dr. Meyer tambm se tivesse deixado ofuscar 
pela sua histeria e todos os sintomas manifestados pelo 
corao de Lora o deixassem influenciado. Balister no sabia 
a que razo isso se devia, mas tambm no era mdico. No 
entanto, era capaz de ver que um electrocardiograma e outras 
curvas electrnicas oscilavam loucamente quando o corao de 
Lora comeava a bater com violncia em cada um dos seus 
ataques reprimidos de histeria.
Todavia, o assunto era completamente diferente. Lora 
estava, de facto, doente. Os acontecimentos das ltimas 
semanas deixaram marcas ntidas. Bailister via isso com 
preocupao. E tambm compreendeu imediatamente a extenso do 
telefonema do chantagista, o qual no lhe deixava outra 
alternativa seno pagar, caso Cappadozza no conseguisse 
desmascar-lo. Seria completamente absurdo meter a Polcia no 
assunto. Antes que conseguissem apanh-lo, o desconhecido 
arranjaria maneira de fazer chegar uma fotografia s mos de 
Lora. Desse modo, a catstrofe seria total.
Bailister estava sentado num canto do pequeno estdio; 
tinha ido buscar ao bufete um prato com tostas de salmo e 
caviar. Bebeu o seu champanhe e contemplou o animado grupo, 
principalmente Hunters, o qual, com o charme de um hipoptamo, 
trotava de um lado para o outro e distribuia benevolncia. 
Tambm haviam felicitado Balister, o homem que, para alm de 
Saunders, merecia todos os elogios. No entanto, como tantas 
outras vezes, ele comportou-se de uma maneira bastante fria, 
muito reservado, pouco mais do que apenas corts. Por isso, 
deixaram-no em paz, sentado no seu canto, e preferiram danar 
com as colegas.
-        Que tens? - perguntou Felicitas tambm, quando 
conseguiu libertar-se dos apertos de mos e se aproximou dele. 
- Ser que fui... realmente... to m? O que os outros dizem 
no me interessa. Importa-me sim o que tu achas. Ento, 
Jrome: o que foi que correu mal?
-        Nada correu mal, Lici. Tu foste perfeita!
-        Ento, por que razo ests a dar-te ares de 
fanfarro?
-        Tenho outros problemas.
-        Lora?
-        Tambm.
-        Ela est realmente assim to doente?
-        Sim. Mas temos de viver com isso. H outros 
problemas.
Balister ergueu os olhos para Felicitas. Ela usava um 
vestido muito elegante. Sob o tecido fino e justo, 
distinguiam-se os seios arredondados. Balister achou o 
vestido demasiado provocante. Uma mulher como Felicitas no 
tinha necessidade de exibir as suas formas. No precisava 
fazer com que Balister reparasse nela. Contudo, ele no disse 
nada e no falou com ela sobre isso. Admirava-a sempre, pelo 
que ela fazia e tambm pela maneira como se vestia. E 
Bailister meditava sempre continuamente sobre a razo por que 
fora amar precisamente aquela mulher magnfica. A eterna 
pergunta, com a qual se ocupava nas suas horas mortas.

-        Notaste alguma coisa de especial em Tripoli? - 
perguntou Balister. - Algum que estivesse sempre prximo de 
ns?
-        Nada mesmo. - Felicitas olhou para ele, espantada. - 
 nossa volta no esteve ningum. Eu nunca estive sozinha. 
Ainda ests preocupado com Khalif. Porqu?
-        A avaria no motor do carro, no meio do deserto, foi 
premeditada. - Balister pegou no copo e bebeu um longo trago. 
- No te disse nada, para no estragar o bom ambiente na 
Lbia.
- Eu j tinha desconfiado de alguma coisa. No devias ter 
ido comigo at ao lugar onde estava Amin.
- Eu teria sido assassinado!
Felicitas fitou Bailister sem fala. Depois, passado o 
primeiro impacte do espanto, compreendeu melhor o que ele 
dissera. Os seus olhos estavam esbugalhados de terror.
-        Que ests a dizer? - balbuciou Felicitas. - Meu 
amor...
-        Felizmente, um rabe desconhecido, que ia a passar 
por acaso na estrada, salvou-me. Eu seria abatido a tiro e 
tudo teria parecido como se tivssemos sido assaltados. Acho 
que o motorista, e assassino, ter-se-ia ferido a ele prprio 
na cabea para fazer com que esse assalto parecesse verdico.
-        Meu Deus, Jrome...
Felicitas acocorou-se  frente dele e pegou-lhe na cabea 
com as duas mos. Balister repeliu-a e puxou-lhe os braos 
para baixo.
-        Est gente a ver-nos. No podes fazer isto...
-        Estou-me perfeitamente nas tintas!
-        Pensa em Lora.
-        No fao eu outra coisa e ando  procura de uma 
sada! Querem matar-te! E tu vais na conversa: c por mim...
-        Sim. No h outra explicao.
-        Khalif?
-         apenas um pressentimento, pois no tenho a mais 
pequena prova. No entanto, no me esqueo do olhar dele 
aquando da nossa conversa no aeroporto. Um tubaro tem uma 
expresso facial francamente mais amistosa. - Balister 
apertou-lhe o brao e fez-lhe sinal. - Levanta-te, Lici. No 
podes estar aqui de ccoras  minha frente.
-        S me apetecia atirar um copo  parede, para que 
todos ouvissem e depois gritar alto e bom som: "Eu amo Jrome 
Balister!" Acabar com esta mscara! Amo-te. Basta!
-        E depois?
-        Teremos de passar a vida a esconder-nos em hotis 
baratos nos subrbios?
-        Lora no vai viver por muito mais tempo.
-        Ela vai viver o suficiente at sermos velhos!

-        O doutor Meyer no lhe d mais de um ano de vida. 
Dois, no mximo. Ele disse-me o nome da doena, um nome latino 
qualquer impronuncivel, na qual ela est emparedada. Contudo, 
o mdico explicou-me: as paredes das veias de Lora esto a 
desfazer-se. Para o fim estaro to finas como papel de seda e 
acabaro por rasgar-se.  uma doena que no tem cura, apenas 
um adiamento, uma espera de segundos at que rebentem. O que 
para ns poderia ser fatal, para Lora poderia significar a 
salvao: depsitos calcrios nas paredes das veias. Todavia, 
 isso precisamente que o organismo dela no fabrica. - 
Balister voltou a apertar-lhe o brao. - Anda, levanta-te. 
Hunters j est a sorrir como um babuno. Tenho a certeza de 
que ainda hoje algum vai telefonar a Lora e dizer-lhe: "O seu 
marido tem c uma sorte! Saunders ajoelha-se aos seus ps!"
Felicitas ergueu-se, pegou no seu copo, que estava em 
cima da mesa, e afastou-se. Em compensao, Hunters
aproximou-se e arrastou uma cadeira para junto de Bailister.
- Como se sentiro em Washington depois deste golpe 
decisivo? - ribombou Hunters. - Jrome, eu sinto-me 
precisamente...
- Metralhados!
-        Ento, porqu?
- Em Washington sentem-se metralhados! Na realidade, no 
podem ver sangue, porque so pessoas muito sensveis. Na 
melhor das hipteses  o que se pode dizer deles.
- Ests hoje a viver o dia da vitria de um charme 
arrasador! O que est realmente a desagradar-te? Ests ciente 
de que na prxima reunio sers escolhido como o novo
vice-presidente da ACF? Vais ser o meu sucessor, rapaz. J 
tens metade da ACF no bolso!
-  possvel ausentar-me durante seis meses? - perguntou 
Balister.
Hunters olhou para Bailister estarrecido, como se este 
tivesse arrotado.
- Impossvel!
-        A partir de hoje.
-        Que ideia completamente idiota!
- De que me serve todo este fascnio? Por cada xito, 
perco um pouco da minha identidade, da minha prpria 
personalidade. Tornei-me um escravo da fama! Hunters, quero 
sair daqui! Quero ter seis meses para pensar s em mim! S 
seis meses, em toda uma vida... ser pedir muito? Tem de poder 
ser possvel!
- Para mim  incompreensvel seres tu precisamente a 
fazer-me uma pergunta dessas! Tu sabes que s insubstituvel!
- Ningum  insubstituvel, Hunters!
- De um modo geral, no. Contudo, tu pertences  excepo 
de zero vrgula um por cento! Tens o emprego pelo qual tanto 
trabalhaste e eu dependo de ti. E agora, tens precisamente que 
passar por cima de tudo isso e mudar de opinio!  o teu 
destino, meu rapaz!
- Ainda havemos de falar sobre isso - insistiu Bailister. 
- No deixes que a tua disposio azede, Hunters. Como foram 
os ndices de audincia?
- Os mais elevados deste ano! Naturalmente apreciados. Os 
dados mais precisos s os conheceremos dentro de uma semana, 
quando nos apresentarem as sondagens.
Hunters levantou-se, bateu nas costas de Balister e foi 
juntar-se aos outros. Na sala tocava-se e danava-se um combo 
e parecia que o Carnaval tinha chegado mais cedo.
Balister bebeu o seu champanhe at ao fim e apeteceu-lhe 
ir embora quando um dos estafetas do escritrio lhe acenou com 
os dois braos. Balister mudou de direco e dirgiu-se ao 
rapaz que gesticulava.
- Telefonema para si! - disse o estafeta. - Eu disse que 
o expediente por hoje estava acabado, mas o homem insistiu. 
Disse que era um assunto importante e, sobretudo, particular. 
Que devo fazer?
- J vou. Ponha o auscultador de lado.

" ele", pensou Bailister. "O porco tem uma aptido 
especial para o drama. J deve saber o que se passa aqui. No 
seu triunfo, deve estar a imaginar o retrato do naufrgio."
Bailister ficou parado e olhou  sua volta. Quem estava 
to bem informado, a no ser qualquer uma das pessoas da ACF? 
Seria algum da equipa de filmagens? Passou os olhos pelas 
pessoas que danavam e viu os operadores de cmara e o 
engenheiro embrenhados num boogie. O tcnico de luzes estava 
junto ao bufete frio e comia uma tosta com molho trtaro. No 
entanto, Pemm no estava presente.
Pemm? Impossvel. Pemm fora um folgazo genial, mas j 
no era. O mais intrigante era faltar precisamente ele, mesmo 
estando habituado a lidar com os dramas de Shakespeare, cheios 
de vigaristas e viles.
Bailister fechou a porta da sala contgua atrs de si, 
pegou no auscultador e aguardou que a central telefnica lhe 
passasse a chamada.
Era ele. Bailister reconheceu imediatamente aquela voz 
disfarada e sombria.
- Estou aqui! - disse Balister.
- Sabe que  mais fcil apanhar o presidente dos Estados 
Unidos, ou at mesmo Brejnev do que a si? Caramba, voc est 
mesmo protegido! Isso  que  qualidade de vida, no?
- Sim.
- Tambm merece. Vi a emisso. A melhor que j se fez 
para televiso! Essa Saunders! O "mximo"  uma expresso 
demasiado modesta para se lhe aplicar. E ainda mais quando 
olho as fotografias, aquela pele fulgurante sob o sol 
africano... Bailister, voc  um felizardo. O grande obreiro 
de programas de televiso e o grande amante secreto! Uma 
bno da qual eu no tenho inveja. Da vida s desejo a 
pequena parte que me compete. Mil dlares por ms. Voc tem de 
admitir que  bastante humano!
- Como e onde quer receber o dinheiro? - perguntou 
Balister calmamente.
Darkster hesitou um pouco. Estava novamente sentado no 
seu apartamento, em casa da senhora Jenny Havelook, e j tinha 
reflectido cuidadosamente sobre o assunto. Antes de mais nada, 
fizera uma pergunta a si prprio: "Se escrevesses um romance 
sobre um chantagista que ningum descobrisse, como procederia 
ele? Que truque, ainda indito, utilizaria ele?" E ele acharia 
que o melhor seria que ningum complicasse muito. Quanto mais 
sofisticado fosse o dispositivo, mais sensvel tambm se 
tornava. A renda vitalcia de Darkster era francamente genial 
e simples.
- Envie o dinheiro no primeiro dia de cada ms para a 
minha caixa postal - disse Darkster. - Tem alguma coisa que 
escreva  mo? Vou dar-lhe o nmero.
Bailister estava to perplexo que, por um momento, no 
reagiu. " doido", pensou somente. "Completamente doido. Nunca 
vi tal coisa. Dinheiro de chantagem depositado numa caixa 
postal."
- Isso  alguma piada? - perguntou Bailister.
- Est completamente enganado! - Darkster riu-se 
intimamente. - Voc est a pensar: "Ele tambm pode mandar 
algum buscar o dinheiro a minha casa!"
-De facto!

- Mas a  que est o problema, Balister. As fotografias 
e os negativos esto com o advogado. Todos os dias telefono a 
este bom homem! Todos os dias!  s telefonar, participar e 
terminar com tudo. Ele sabe tudo o que combinmos. Se eu no 
telefonar, ele espera trs dias. Ao quarto dia envia as 
fotografias a Lora e  maior agncia noticiosa do Estado. Por 
isso, no faz sentido provocar-me. Quem perde sempre  voc, 
mesmo que eu morra! - Darkster soltou uma gargalhada de 
profunda satisfao. - Ento, no  uma segurana? Alm do 
mais, o nome que consta da caixa postal  um nome falso e toda 
a correspondncia vai para um apartado. Esquea todos os 
planos, Balister, porque nunca conseguir apanhar-me! E, por 
favor, tome nota do nmero da conta!
Balister escreveu. Anotou o nmero no brao, uma vez que 
no encontrou papel, e depois voltou a cobri-lo com a camisa.
- Certo! - disse prosaico.
- J o guardou?
- Como se estivesse gravado em mim.
- Isso tambm  necessrio. Para ficarmos bem 
esclarecidos: se a importncia no estiver depositada nessa 
conta at ao dia dez de cada ms, h um telefonema. Portanto, 
no se faa de parvo e mande rodar o filme!
- Compreendo. - Balister ficou bastante calmo. - Voc 
no vai ter razes de queixa por falta de pontualidade. Mas eu 
tambm espero indulgncia da sua parte.
- Se estiver ao meu alcance...
- Depois do pagamento da primeira mensalidade, mostre-me 
a sua boa vontade e envie-me o primeiro negativo.
- De acordo, Baliister. Vai ver que vou ser um bom 
aliado. Vai receber o negativo nmero sete. Na fotografia, 
voc est justamente a estender a mo para acariciar o peito 
verdadeiramente magnfico de Felicitas.
Ballister desligou o telefone sem dizer uma palavra. J 
no duvidava de que o desconhecido tinha tirado aquela srie 
de fotografias. Um verdadeiro filo de ouro. Por causa deste 
filme, Balister podia ficar arruinado.
Bailister esperou um minuto e depois telefonou a Camino 
Cappadozza.
CC parecia ter bebido. Saudou Bailister com um: "Ol, 
rapaz!" e prosseguiu:
- Esta Saunders  uma fora nica! E  produto seu, no 
? Podem invej-lo, Balister! Estive pregado ao televisor e 
fiquei entusiasmado. Como ela apertou o gordo Amin... at suei 
de excitao! "Ele est a dar tudo por tudo", pensei, "mas ela 
escapou ilesa, como sabemos." Ento, que h?
- Ele j contactou comigo, Cappadozza.
- Foi rpido.
- Deu-me os parabns pelo filme. Tambm o viu.
- Quem no o viu na Amrica?
- Devo pagar-lhe o dinheiro atravs de uma caixa postal.
- Atravs do qu? - Cappadozza tambm pareceu ter ficado 
espantado, mas no tanto. - Balister, voc tem mesmo a 
certeza? No ficou um pouco paralisado por causa da 
comemorao?
- Foi o que eu tambm pensei ao princpio. Mas depois, 
ele explicou-me tudo. Parecia irritado.
Bailister repetiu o que Darkster lhe descrevera e 
Cappadozza ouviu sem o interromper. Estava to calado que lhe 
perguntou:
- Ainda est a?

- Claro que sim.
- Ficou abananado, no foi? Eu tambm!
- Enquanto voc falava, estive a pensar - disse 
Cappadozza. - No vejo motivo para pnico.
- Que quer voc fazer ento? Supondo que conseguia mesmo 
descobrir quem  a pessoa que se esconde por detrs do nome 
falso; descobre qual  o apartado que ele utiliza e consegue 
apanh-lo. E depois? Ele no tem as fotografias com ele.
- Mas tem o advogado dele.
- Mas voc no o conhece.
- Ainda no. Contudo, ele vai encarregar-se de nos dizer 
quem . Ningum  to teimoso ao ponto de no deixar escapar 
nada.
- Ao quarto dia, as fotografias esto na rua! Se ele 
aguentar esses quatro dias...
- Acredita realmente nisso? - perguntou Cappadozza, com 
uma amabilidade que gelou Balister. - J seria uma maravilha 
se ele conseguisse resistir por um dia!
- No quero violncia... sobre isso fui bastante claro, 
Cappadozza. S quero que voc descubra o nome desse sujeito! 
Apenas o nome e no encontrar o homem feito s
postas!
- Mas voc no quer as fotografias?
- Sim.
- E eu vou conseguir-lhas. Ballister, voc  um tipo 
simptico. Falei outra vez com Dino Lombardi. Concordmos que 
devamos ajud-lo desinteressadamente, assim como voc j deu, 
uma vez, a Dino a oportunidade de limpar o seu nome. Vamos 
entregar-lhe os negativos das fotografias, assim como o seu 
possuidor. J no vai ter de esperar muito.
- No era essa a minha inteno, Cappadozza! Meu Deus, 
entenda o seguinte: eu no sou pessoa que consiga viver com 
uma culpa! No encomendei um assassnio!
- Isso posso eu jurar. - A voz de Cappadozza era branda e 
suave. - Balister, h coisas que s trazem ralaes. No se 
preocupe. Pode acontecer que leve um pouco mais de tempo e que 
voc precise de pagar duas ou trs mensalidades.
- No me importo de fazer isso, se voltar a ver o futuro 
limpo de nuvens.
- Radiante, Balister, radiante e soalheiro como as 
montanhas sicilianas! No seu lugar eu j podia dormir mais 
tranquilo. No vai acontecer-lhe mais nada.
Deste modo, Cappadozza deu a conversa por terminada. 
Ballister deixou o auscultador cair sobre o descanso, como se 
fosse um ferro em brasa. "O que foi que eu fiz?", pensou ele. 
"Empurrei um homem de encontro  ponta de uma faca. Mesmo que 
ele seja um patife, no deixa de ser uma pessoa! Uma pessoa 
que agora tinha a maior parte da sua vida atrs de si... "

Lora recuperou lentamente. Passada uma semana j pde ir 
com Bailister at ao campo de golfe observ-lo a jogar.

Baliister havia pago os mil dlares e no tivera mais 
notcias. Nem mesmo de Cappadozza. Neste lapso de tempo vira 
Felicitas Saunders duas vezes e, novamente, em pequenos hotis 
dos arredores. Ela esperava por ele na cama e ambos se 
atiravam para cima um do outro, como se estivessem esfomeados 
e com um franco desejo canibalesco. Lora no podia desconfiar 
de nada. Ficava deitada num div no jardim de Inverno da 
vivenda, sob os cuidados de uma enfermeira recomendada pelo 
Dr. Meyer, e sabia que Jrome estava, como sempre, at tarde 
na televiso ou ento a dirigir uma reunio. Uma vez telefonou 
para Felicitas. Foi uma noite em que Ballister estava 
efectivamente na televiso. Lora falou apenas de ninharias, 
informou-a sobre as suas melhoras e ficou satisfeita por 
Felicitas estar em casa. Esse facto eliminava a hiptese de 
que Felicitas e Jrome pudessem estar juntos em algum lugar. 
Rosa tambm estava em casa, com o seu amigo Red Cummings. 
Balister no poderia ter melhor libi. Lora compreendeu isso.
Na segunda-feira da semana seguinte chegou uma carta para 
Bailister, enviada para a televiso. Era particular. Sem 
remetente. Bailister premiu um boto para avisar a secretria: 
no queria ser incomodado. Por ningum! Depois, abriu o 
sobrescrito.
Era o primeiro negativo. Em anexo, vinha uma ampliao 
dessa fotografia. Balister olhou-a, estarrecido, e percebeu 
perfeitamente que o desconhecido tinha razes para a sua 
excitao. Balister recordou-se logo da situao. Felicitas 
tinha dito:
- Como a manh est quente, querido. Sente como a minha 
pele  um forno!
E Balister estendera a mo, agarrou no peito dela e 
respondera:
- No  o sol da manh. Isso ainda  o vulco da noite... 
E algures estava uma pessoa com uma mquina fotogrfica 
automtica a fotografar tudo. Isso e ainda muito mais.
Balister rasgou a fotografia, queimou os bocados no seu 
cinzeiro e soprou as cinzas pela janela. Quanto ao negativo, 
fechou-o  chave na gaveta da sua secretria. Tinha um tesouro 
na sua posse e sabia-o.
Quando telefonou mais tarde a Cappadozza, j estava mais 
calmo.
- Chegou o primeiro negativo - disse Balister.
- Parabns. Que tal  ele?
- Horrvel! Como vo as coisas por a?
- Andamos  caa. Primeiro precisamos convencer os tipos 
eficientes da caixa postal de que a discrio  um luxo. 
Contudo, acho que na prxima semana j saberemos para onde vai 
a correspondncia.
- Precisa de mais dinheiro? - perguntou Ballister com voz 
rouca.
- Fazemos contas mais tarde.
- E se, por detrs de tudo isto, estiver uma polmica 
relativa ao jogo das mais altas esferas polticas?
- Como devo entender isso? - perguntou Cappadozza 
arrastando as palavras. - Balister, no me meta em nenhuma 
embrulhada! No quero envolver-me com a CIA!
- Um prncipe rabe pode estar por detrs deste assunto. 
Um dos magnatas do petrleo...
- Voc sabe de alguma coisa, Bailister?
- Isto  apenas um pressentimento. Andei s turras com um 
prncipe por causa de Felicitas Saunders!
- Isso  um ovo to duro como cimento. Como vou parti-lo? 
- Cappadozza respirou pelo nariz: - Balister, assim o caso 
muda de figura! Mas no acredito nisso! Um prncipe rabe no 
precisa dos seus mseros mil dlares. Se ele quisesse acabar 
consigo, mandava logo publicar as fotografias!

- Tambm no tem necessidade disso. Apenas precisa de 
jogo de terror psictico em largar-me morto no jardim. E, 
apesar de tudo, no se cobe de faz-lo!
- Que faz ele? - A voz de Cappadozza subiu um pouco de 
tom. - Repita l isso!
- Duas pessoas famosas foram estranguladas no meu jardim, 
uma atrs da outra. E sem motivo! Tem de haver um fundamento!
- Caramba! - Cappadozza parecia estar verdadeiramente 
impressionado. - Temos de pensar a srio sobre isso. Nunca me 
meti com um figuro do petrleo.
Era como se Darkster, sem o saber, estivesse a ser 
libertado nesta confuso.

Captulo 11

Uma coisa era preciso admitir: embora Darkster fosse um 
individuo medocre na sua profisso de jornalista e no se 
contentasse em ganhar  linha, no decorrer daquela semana 
descobrira em si - para seu prprio espanto - um manifesto 
talento para a criminalidade. Criado nos becos das ruas de 
Nova Iorque e habituado, desde criana, a debater-se por um 
lugar ao sol, por entre o lixo e a porcaria, era guiado pelo 
instinto em todos os seus actos.
Darkster sabia que Balister no lhe pagaria a renda 
mensal sem relutncia; ao contrrio de Felicitas, a qual, a 
respeito de toda a dureza do seu trabalho, no passava de uma 
mulher fraca e apaixonada que lhe pagaria sem reclamar, para 
proteger a sua honra e principalmente a do amante. Balister 
no era para brincadeiras, apesar de aparentar uma natureza 
pacfica e dar a impresso de que estava permanentemente 
insatisfeito com o seu meio. Bailister parecia preferir 
retirar-se para o campo, para a, num jardim cheio de flores, 
se entregar  sua prpria filosofia. Isso no passava de um 
engano e Darkster e todos os que o conheciam sabiam disso. Em 
todo o caso, Darkster sentia-se igualmente mal quando pensava 
em Balister. Precisamente aps o jantar do dia em que enviou 
a primeira carta, tinha perguntado a si prprio se no teria 
feito uma asneira. S com o dinheiro de Felicitas podia levar 
uma vida de playboy e, principalmente, sem perigo. Mas, depois 
tambm venceu a cobia pelo dinheiro. Ganhar mais mil dlares 
por ms era uma oportunidade que no podia perder!
De resto, Darkster ficou extremamente cauteloso 
quando tomou conhecimento de que andavam a vasculhar a caixa 
postal e assim - quase por acaso - ficou a saber por um 
funcionrio tagarela da repartio que algum andara a tirar 
informaes precisas sobre a sua conta. No fora a Polcia, o 
FBI, a CIA, nem nenhum detective, mas sim um homem por conta 
prpria, o qual declarara ser o herdeiro do proprietrio da 
conta e que no sabia se o proprietrio da conta possua 
outras contas em seu nome. Remeteram o homem para um advogado, 
que trataria dos assuntos relativos aos herdeiros.
- O proprietrio da conta ainda est vivo! - disse o 
solcito funcionrio. - Ainda ontem recebemos indicaes dele!
O alarme de Darkster voltou a soar. "Isto  obra de 
Bailister", pensou. "No  ele pessoalmente, claro, mas deve 
ter um co-polcia no meu rasto. Tal como previ! No deve ter 
sossego!"
Por volta do meio-dia desse dia, Darkster alugou cofres 
em vrias dependncias de correios em Nova iorque e arredores 
e enviou um plano definido  caixa postal, no qual indicava 
para onde deveria ser remetido o dinheiro todos os meses. 
Pouco antes da transferncia, quis fazer um telefonema para 
indicar o novo apartado para onde deveria ser enviado o 
dinheiro. Poderia encaminhar-se na direco do Diabo, se 
permitisse que o seu rasto ficasse a descoberto.

Parece que os pensamentos de Darkster estavam correctos. 
O seu plano era bom, mas a reflexo de Balister fora ainda 
mais certeira ao achar que por detrs de todo aquele 
procedimento estava uma aco vingativa por parte do prncipe 
Khalif. Provocou, sem querer, um conflito que paralisou tudo. 
Em todo o caso, Camino Cappadozza j no mexia uma palha, 
apesar de estarem em jogo dez mil dlares.
Balister pagou pontualmente durante trs meses.
Trs meses que passaram como todos os meses do ano 
transacto. A ACF era apenas uma estao televisiva que nadava 
em dinheiro. O programa Actual podia permitir-se contratar o 
melhor pessoal e foi considerado - rapidamente, como s  
possvel na Amrica - de imediato o melhor programa de 
actualidade de todas as televises em geral. Bailister foi 
considerado um homem que representava o retrato poltico do 
americano de xito. Os partidos polticos entraram em contacto 
com Bailister, para saberem se ele no estava interessado numa 
eleio para o Congresso, mas Balister recusou. Nada de 
partidos polticos! Queria manter-se crtico face a todas as 
faces! Em compensao, preparava-se para ele uma nova srie 
chamada Reflexes, na qual Balister se empoleirava em cima de 
uma cadeira, atrs da qual estava um gigantesco mapa-mndi, e 
emitia a sua opinio abalizada sobre tudo o que se passava 
neste mundo. Isso tornou-o tremendamente popular e estimado, 
porque se exprimia precisamente sobre o que milhes de pessoas 
pensavam, mas que no podiam divulgar.
Hunters estava em suspenso, como que pairando num cu 
atingvel e nadando num mar de rosas. Anunciou um aumento de 
14,5 por cento de emisso publicitria, coisa que nunca tinha 
acontecido na Amrica, e deu-se ao luxo de ter uma nova 
amante. Era uma coisinha graciosa e abonecada do corpo de 
ballet da televiso, com uma cabea doce, contudo, oca, uma 
figura fabulosa e uma voz chilreante, com a qual anunciava 
como achava maravilhoso tudo o que lhe estava a acontecer 
agora. Hunters pavoneava-se como um hipoptamo que preferiria 
ser um pavo e dava incio quela loucura todas as manhs no 
seu enorme parque, dando algumas voltas numa corrida 
ginasticada, para se manter em forma para a sua coelhinha 
carinhosa.
Felicitas Saunders trabalhava como at ali, impecvel 
como um rob bem regulado e bem cuidado. Entrevistou 
visitantes oficiais, conversou com o papa, em Roma, e
disse-lhe:
- Santo Padre, eu sou evangelista. Assim, colocam-se-me 
muitas perguntas que gostaria de fazer-lhe e tenho sorte em 
poder discutir estes assuntos consigo. A pergunta de base  a 
seguinte: na situao actual da Igreja, Lutero voltaria a ser 
banido, excomungado e difamado como herege?
Uma mulher nica! Uma mulher que exalava coragem. Uma 
mulher que no encontrava obstculos no seu caminho. Uma 
mulher que a Amrica inteira admirava e amava. A imprensa 
chamava-lhe a "nossa" Saunders. Quando Felicitas aparecia no 
ecr, as outras estaes de televiso agonizavam. Nessas 
alturas, a ACF tinha o maior ndice de audincia. Quase 
ningum assistia a outro programa, mesmo quando as outras 
estaes no mediam esforos para combater Saunders ao fazerem 
desfilar as mais clebres estrelas. Felicitas era imbatvel. 
Juntamente com Balister, ela monopolizava, de vez em quando, 
a programao da televiso americana.

E Felicitas pagava. Darkster cobrou a primeira 
mensalidade com o corao a bater. Depois, recolheu-se no seu 
apartamento a cheirar a urina, em casa da senhora Havelook, 
espalhou as notas de dlar em cima da mesa e olhou-as 
estarrecido, como se estivesse a contemplar a galeria nacional 
de quadros roubados.
A viso daquele dinheiro f-lo esquecer de que este era 
produto da aco de um canalha. "Trata-se de um negcio 
perfeitamente legal", disse para consigo. "Tenho na minha 
posse algo que interessa a outra pessoa e essa pessoa
compra-me a mercadoria. A prestaes, porque o preo  
demasiado alto.  normal. Na Amrica h milhes de pessoas que 
compram a prestaes e  indiferente que seja um automvel, 
uma casa, um frigorfico, ou trinta e seis negativos de 
fotografias. Uma pessoa compra e paga! Quem poder ver nisso 
algo de imoral?"
Durante esses trs meses, Lora Balister no se recomps 
totalmente. No entanto, sentia-se melhor, dava muitos 
passeios, ficava recostada numa marquesa no terrao do clube 
de golfe, quando Balister ia jogar, e bebia sumos de fruta 
enriquecidos com vitaminas extra. Durante quatro semanas at 
se sentiu feliz, porque Felicitas Saunders tirou uns dias de 
frias com Rosa e Red Cummings, o qual j quase fazia parte da 
famlia e que Rosa amava com toda a intensidade dos seus 
dezassete anos. Foram para a Florida, anonimamente como tantos 
milhares de outras pessoas em frias, para passarem uns dias a 
tomar banhos de mar. Embora Lora estivesse  espera de que 
Bailister dissesse que tinha qualquer coisa para tratar na 
Florida, nada disso aconteceu. Balister ficou em Nova iorque 
e Lora ficou muito feliz por isso.
O que ela desconhecia era a despedida que Felicitas e 
Jerome haviam festejado. Naturalmente, voltaram a encontrar-se 
num pequeno hotel em Danburv, e Saunders usou uma peruca de 
caracis negros como azeviche e intitulou-se Juanita Lopez 
Granadilla, uma mexicana de San Eduardo. Balister viajou como 
Raoul Vernon, um canadiano de Libreville. Como sempre, em tais 
encontros singulares, mal saram da cama, mandaram vir comida 
e bebidas para o quarto e agarraram-se um ao outro, como se 
essas horas fossem, na verdade, as ltimas da sua vida.
De repente, ainda ofegante e fumando um cigarro com dedos 
trmulos, Felicitas disse:
- Estou a ser vtima de chantagem, Jrome. - Ballister 
virou-se e olhou para ela, horrorizado. Antes que ele pudesse 
dizer alguma coisa, Felicitas prosseguiu: - Fizeram umas 
fotografias nossas. Na varanda do hotel em Trpoli. Vi uma 
amostra.  medonha. Essas fotografias no podem nunca vir  
pblico!  por essa razo que pago.
- Eu tambm! - disse Ballister com voz rouca. -
Meu Deus, o que esto a fazer connosco! Quando eu descobrir 
esse sujeito...
- No temos hiptese, meu amor. Eu j pensei em tudo. Se 
ele depositar quantias de dinheiro em vrios lugares, estamos 
perdidos, mesmo se lhe deitarmos a mo. Os seus contactos 
remetero as fotografias.
- Ainda temos quarenta e oito horas.
- O que so quarenta e oito horas? Como queres tu deitar 
a mo s fotografias? Queres fazer um comunicado pela 
televiso?
- Se apanharmos o indivduo, no demora mais de quarenta 
e oito horas para ele comear a falar. Isso... isso sei eu!
Bailister fechou os olhos. Estava novamente a ouvir a voz 
de Cappadozza e, de repente, sentiu um arrepio de frio.

- Sempre me recusei a utilizar a violncia - disse 
Balister com firmeza. - Contudo, h situaes em que uma 
pessoa pode chegar a morrer por ser humana. At mesmo os 
conceitos de moral tm os seus limites. Podemos aprender isso 
com os polticos. A sobrevivncia tem as suas prprias leis, 
por mais horrveis que possam parecer!
- Eu quero pagar - disse Felicitas em voz baixa. Deslizou 
at junto de Balister e enroscou-se no brao dele. O seu 
corpo quente e macio parecia fundir-se com o dele. - Quero ter 
paz, Jrome. Quero poder amar-te, mesmo que para isso tenha de 
pagar uma quantia absurda. Finalmente, quero voltar a ser 
feliz. Finalmente! - Felicitas meteu as mos debaixo do 
pescoo e serviu-se do brao esticado de Bailister como se 
fosse um travesseiro. - A verdadeira felicidade vivi-a muito 
pouco. Fui feliz com Bob, mas apenas por alguns meses. Depois, 
Bob teve de ir para o Vietname e no voltei a v-lo. O capito 
Bob Saunders jaz em Peng-lem, no curso superior do rio
Krong-bolah. Muito perto da fronteira com o Laus.
- Tens de conformar-te, Felicitas... - disse Balister em 
tom quase paternal.
- Eu estive l. Sabias?
- No.
- Fui a primeira e nica mulher a visitar aquela regio. 
Com autorizao do Governo de Hani. Percorri a regio e fui 
ver como os guerrilheiros deviam ter combatido naquela altura. 
Chegaram at a mostrar-me o tmulo dele... uma poro de 
terreno num matagal, no qual j crescia uma rvore tropical. 
Foi assim que morreu a minha primeira felicidade. Sempre me 
recusei a acreditar numa felicidade nova. Naturalmente que 
antes e depois de Bob conheci outros homens, mas todos eles 
tinham uma coisa em comum: podiam dar-me a mo, mas nada mais. 
Nenhum homem concorda com isso por muito tempo e eu no os 
deixava entrar nos meus sentimentos mais ntimos. Ento, 
surgiste tu e contigo o enigma da razo por que te amo tanto. 
E agora h aigum que quer privar-me desta segunda felicidade, 
s com a diferena de que tu no s livre e eu te querer. E eu 
quero-te. Tudo o que eu quero para ter a minha felicidade  
pagar e, por isso, ele no vai destruir-me, como uma vez o fez 
o Vietname. Compreendes isso, Jerome? Ns podamos ser 
felizes, se pagssemos o preo. Por que razo no devemos 
pagar?
- Esta chantagem onde estamos metidos  a mais suja que 
h!
- E o que no  chantagem nesta vida? A subida do preo 
do petrleo. No ser isso tambm uma espcie de chantagem? E 
que faz o mundo? Paga! A corrida ao armamento em todos os 
pases no  uma chantagem? E que fazem as pessoas? Combatem. 
E todos ns pagamos para isso! Como  ridcula essa 
importncia que temos de pagar face a tudo isto! Mas compramos 
o que de mais bonito exis te no mundo: o nosso amor!
- Isso  evidente! - disse Balister sarcstico. En to, 
toda a nossa vida  um crime puro e simples.
- E , meu amor! Aquilo que ns chamamos disciplna na 
verdade, no passa de uma cadeia de atrocidades! - Felicitas 
rebolou para o lado, beijou Bailister no pescoo e
acariciou-o. - J me conformei com isso.
- Mas eu no! - disse Balister, rude. - No sou pessoa 
para engolir um golpe e ainda por cima agradecer. Eu ataco de 
volta!

No entanto, Bailister precisava pouco de boas intenes. 
Assim que Felicitas partiu para a Florida, ele voltou a 
telefonar para Cappadozza.
No incio, o cabeleireiro no queria falar, mas Ballister 
no desistiu e, mais  noite, conseguiu apanh-lo ao telefone. 
Camino estava muito lacnico.
- Voc  de uma insistncia! - observou ele. Valha-me 
Deus...
-  a minha especialidade! Sou capaz de agarrar-me a uma 
coisa como um co de guarda! Cappadozza, por que razo no 
tenho tido mais notcias suas? Parecia estar a ir tudo muito 
bem. Voc tinha um contacto na caixa postal e garantiu-me que, 
quando lhe deitasse as mos, o malandro at ia cantar rias de 
pera, e, de repente, caiu o pano do palco do seu teatro.
- O facto  que me fecharam o pano! - disse CC 
asperamente. - A sua ligao com o prncipe do petrleo vale 
ouro! Recolhi umas informaes. Se, de facto, esse Khalif est 
por detrs de tudo e tem a ver com a chantagem, vamos
deixar-nos de rodeios! A nossa divisa : nunca atirar aos 
joelhos, o que pode ter consequncias dbias! Ou ento: embora 
uma vespa possa picar um elefante, no deixa de ficar com as 
pernas fracas! Estamos entendidos?
- Voc est com medo, Cappadozza? Voc est mesmo com 
medo?
- No se est a exprimir correctamente, senhor Balister. 
Estou pura e simplesmente a libertar-me de um caso intil, 
antes que me d mal.
- E o prncipe? - perguntou Balister. - Pelo menos, pode 
dar-me essa informao!
- No sei. - Cappadozza no parecia entusiasmado com a 
tarefa. - Agi de uma maneira muito cuidadosa, logo que soube 
que o dinheiro foi repartido por doze cofres diferentes, dos 
quais, respectivamente, um deles servia como remetente oficial 
para o destinatrio.
- Doze cofres? - perguntou Balister, perplexo. - No 
percebo nada. Khalif tem outros mtodos para acabar comigo: 
mais rpidos e mais eficazes.
- Informei-me e fiquei a saber que ele  um jogador. Est 
na sua natureza. Neste momento est a brincar consigo, tal 
como um gato brinca com um novelo de l! Sinto muito, 
Balister...
- Est a bater em retirada, CC?
- No me agrada o adversrio. Boa sorte para si.
- Que desejo to piedoso! No tem nenhum conselho para me 
dar, em vez disso?
- Claro! Acabe com o que tanto aborrece o prncipe e, 
ento, pode ter paz.
- Impossvel!
- Nesse caso, o seu destino est traado, Balister.
Bye-bye.
Cappadozza desligou. Bailister ficou um bocado como que 
sob o efeito de narcticos, sentou-se a olhar para a parede e 
pensou apenas numa coisa: desistir de Felicitas? Era uma ideia 
to absurda como se algum lhe tivesse mandado fazer ir pelos 
ares a Casa Branca, em Washington. No entanto, essa ideia era 
mais plausvel do que pensar em deixar Felicitas.

Com o intuito de falar mais uma vez com o desconhecido, 
Balister ps um anncio em todos os jornais de Nova iorque, 
com o seguinte texto:
"Temos de conversar mais uma vez sobre a caixa postal 
onde depositar as mensalidades."
No entanto, o chantagista no se apresentou e Balister 
no teve outra alternativa a no ser pagar pontualmente a 
quarta mensalidade. Pontualidade essa at ao dia 10 de cada 
ms, at ao fim da sua vida.
Ou ento seria a morte de Lora.
Essa era a ideia mais odiosa de todas.

Para passar as suas frias na praia, Felicitas alugou uma 
vivenda em West Pam Beach. Numa manh soalheira e quente, 
Rosa atravessou a praia a correr, em direco a Red Cummings, 
e colocou-lhe um papel sobre o peito lar go e nu. Rosa estava 
excitada e quase a chorar.
- V isto, Red - gritou ela. - Encontrei este papel. A 
mam esqueceu-se dele em cima da mesinha de toilette. L-o. Eu 
acho... eu acho... que a mam est a ser vtima de chantagem.
Red Cummings, uma amostra de homem em bruto ergueu-se e 
os seus msculos rijos sobressaam sob a pele. Pegou no papel 
e leu:
"Hoje voltei a enviar dinheiro. Em seguida, um telefonema 
dele a agradecer. J no consigo mais ouvir a sua voz! Como 
poderei continuar a suportar?"
Aps esta leitura, operou-se uma terrvel transformao 
em Red Cummings. Amarrotou o papel, rangeu os dentes e o rosto 
deformou-se num trejeito, o que fez Rosa gritar:
- Red, que se passa?
Em seguida, Red relaxou e um sorriso fugaz fez 
desaparecer aquela expresso medonha.
-  isso mesmo que parece! - disse Cummings com voz 
rouca. - Soa realmente a chantagem. Vamos ter de fazer umas 
perguntas bastante duras  mam e pression-la...
- E se ela no quiser? Nunca se referiu a este assunto!  
evidente que no quer que saibamos. - Rosa pegou no papel e 
releu-o. - Quem poder ser, Red? Que poder ele querer da 
mam? Que pode ele saber? A mam nunca fez nada de mal. Nunca! 
Por isso, ningum pode querer fazer chantagem com a mam. No 
h nada que ela precise esconder.
- Aparentemente no.
- Parece impossvel, Red!
- Ela paga! Est aqui escrito! Ento,  passvel de ser 
chantageada! Deve haver alguma coisa muito importante para a 
mam que nunca pode vir a lume, e  por isso que ela paga! Ah, 
se eu apanhasse o sujeito!
Cummings cerrou os punhos. Como pugilista que era, Red 
tinha uns punhos grossos e dignos de respeito e agora batia um 
contra O outro. Era imaginvel que Arthur Darkster no 
sobrevivesse a um segundo golpe desferido por esses punhos.
- Que devemos fazer? - perguntou Rosa tristemente.
- De momento, nada.
Cummings olhou  sua volta com um olhar esquisito e 
esbugalhado. O seu peito largo levantava-se, devido  
respirao acelerada. Voltou-se de barriga para baixo e reteve 
a respirao, at sentir que se acalmava um aperto indomvel 
dentro de si e podia voltar a pensar normalmente. Depois 
acrescentou:

- Temos de observar a mam. Talvez consigamos descobrir 
para onde ela envia o dinheiro. Nesse caso, preocupar-me-ei 
com isso. Seria ainda mais importante saber por que razo ela 
paga. Neste momento, no nos devemos precipitar para que no a 
faamos correr qualquer perigo. Ela no deve perceber, de 
maneira nenhuma, que ns sabemos disto.
Pouco depois, Felicitas chegou  praia. Trazia um biquni 
dourado e reduzido e estava irresistvel. Sorridente, beijou a 
filha e deu igualmente um beijo no rosto de Cummings. Nada 
nela denunciava que se consumia de preocupaes nem que a 
afligia um qualquer segredo, porque era assim que tudo deveria 
continuar: um segredo.
- Jrome acabou de telefonar! - disse Felicitas, e 
deitou-se num colcho de praia, ao lado de Rosa. - Talvez haja 
um trabalho importante para mim. Brejnev no est disposto a 
receber-me. Ainda est hesitante, mas, em todo o caso, no 
disse peremptoriamente que no. Ficou de dar uma resposta 
dentro de dez dias. Imaginem, crianas, eu a entrevistar 
Brejnev!
- Era bestial, mam! Seria o ponto culminante da tua 
carreira.
- E um bom pretexto para combater muitas invejas! - disse 
Cummings, sem pensar. - Certamente que tambm tem inimigos, 
Felicitas.
- Quem no os tem, Red. - Felicitas respondeu em tom 
despreocupado e insuspeito. - Temos de saber viver com isso. A 
fama tambm tem o seu lado obscuro.
-  voc quem o diz! Conhece os seus inimigos?
- No directamente. Na sua maior parte, mantm-se no 
anonimato. Mas eu ignoro-os. A inveja  uma prova do prprio 
xito.
- E quando os inimigos se tornam agressivos?
- Isso nunca aconteceu. - Felicitas Saunders soltou uma 
gargalhada despreocupada. - Quero enunciar um exemplo: uma 
pessoa pode sujar uma parede, mas no consegue demoli-la por 
causa disso. Ela permanece forte e firme. E a tinta sempre se 
pode lavar em qualquer altura. - Felicitas abanou a cabea. - 
Que conversa a de hoje! Prefiro ir nadar. Est um dia 
magnfico!  tarde podemos ir dar um passeio de barco e pescar 
um peixe enorme. Depois, Red pode grelh-lo...
No se falou mais sobre o assunto. Durante essas semanas 
viveram realmente longe dos problemas do quotidiano. Apenas a 
uma semana do final das frias Bailister voltou a telefonar.
- Lici... - disse Balister -, ... conseguimos. Tive 
notcias de Moscovo. Brejnev est disposto a ser entrevistado. 
Evidentemente que primeiro tens de enviar as perguntas. A 
conversa vai ser cuidadosamente ensaiada.
- Tinha de ser! - Felicitas soltou uma sonora gargalhada. 
- Ele vai ficar muito admirado quando eu lhe fizer um tipo de 
perguntas diferente das que constam no manuscrito.
- No precisas fazer isso! O intrprete no as 
traduziria.
- Mas ento, o mundo veria e ouviria tudo!
- Veremos! Seria para ti uma derrota se as pessoas em 
Moscovo no seguissem a mesma linha de raciocnio.
- No vou fazer nenhum discurso de propaganda poltica, 
Jrome!
- Nem  disso que se trata! Lici, vamos elaborar as 
perguntas juntos e limar algumas arestas mais duras.

- Vens comigo a Moscovo?
- Acho melhor no.
- Mas eu acho! Meu amor, prometo-te: vou evitar as 
varandas do hotel em Moscovo e aparecer  janela sempre 
vestida...
- Lici! Se estiver algum a ouvir! Ests realmente 
sozinha?
- No! - Felicitas soltou uma sonora gargalhada. -
Rosa e Red esto sentados ao meu lado. E a sala est cheia de 
amigos. Somos, pelo menos, vinte pessoas! E perante estes meus 
queridos amigos, digo alto e bom som: amo-te! Tenho saudades 
tuas! A prpria Florida  um ninho desolador sem ti! Quero 
deitar-me nos teus braos, ainda hoje, j...
- Tu s uma mulher completamente doida! - disse Balister 
e riu-se. -  uma sorte que ningum conhea essa tua faceta! 
Quando regressas?
- No prximo sbado, meu amor. Vou dar cabo de ti na 
cama!
Bailister desligou depressa, com medo de que Felicitas 
pudesse fazer a sua conversa subir de tom.

A Brigada de Homicdios no prosseguiu as investigaes 
relativas s mortes de Tito Varone e de Stan Barley. Era de 
prever: sem motivo, no h assassino. Como poderiam avanar as 
investigaes? A primeira verso, respeitante a Tito Varone, 
foi que devia ter-se tratado de um engano, mas essa teoria no 
podia manter-se de p por muito mais tempo, uma vez que pouco 
depois tambm Stan Barley fora estrangulado da mesma maneira e 
no mesmo lugar. O filme de Pemm sobre estes assassnios 
misteriosos, e que ele passou para a Polcia em antestreia, 
tambm s provava que se podia imaginar qualquer coisa a 
partir desta tragdia. O funeral tambm no trouxe nada de 
novo. Ficou a suspeita de que o assassino poderia estar entre 
os amigos mais chegados de Balister, mas ningum se atrevia a 
articular uma palavra sobre o assunto, porque todos estes 
homens e estas mulheres pertenciam aos nomes mais sonantes das 
estaes de televiso ou do mundo do espectculo de Nova 
iorque. No se sabia qual era a opinio de Bailister. As 
pessoas tinham-no considerado louco, quando ele dissera:
- O melhor  preocuparem-se com o prncipe Khalif.
Em todo o caso, as pessoas lavaram da as suas mos, 
porque poderia tratar-se de uma assunto escaldante, que 
entrasse no campo poltico. E um assassino a mais ou a menos 
no vai fazer grande diferena.
Entretanto, Lora Balister sentia-se to bem que o 
prprio Dr. Meyer estava espantado e disse para Bailister.
- No gosto muito de falar em milagres, porque em 
medicina no os h, mas o que est a acontecer com Lora no se 
encontra dentro da lgica! Ela adquiriu nova vida e os seus 
ataques histricos diminuiram at se transformarem numa leve 
amargura, apenas quando ela pensa na sua idade. Mas, quem no 
 capaz de compreender isso numa mulher to bonita como Lora? 
Marilyn Monroe ficou destroada com isso e tomou comprimidos. 
Outras h que saltaram pela janela ou de pontes. No h dvida 
de que  uma altura terrvel para as mulheres, quando j no 
h cremes que possam ajud-las! Contudo, Lora est a superar! 
Balister, o que foi que voc fez com ela?

- Nada! - respondeu Bailister e ficou bastante satisfeito 
com estas notcias.
- Nada mesmo? No redobrou os gestos de carinho quando a 
porta do vosso quarto se fechava?
-No!
- Deve ter feito alguma coisa, Jrome!
- O senhor  mdico, ou um especialista em sexo, se nhor 
doutor?
- As duas coisas, Balister. Um bom mdico tem de sa ber 
de tudo quando se trata da sade! Em todo o caso, con tinue! A 
vida de Lora foi consideravelmente prolongada
O Dr. Meyer parecia ter toda a razo. Lora no fez cenas 
- como antes, por alturas da viagem  Lbia - quando Bailister 
lhe comunicou que precisava de ir a Moscovo com Felicitas 
Saunders por causa da entrevista com Brejnev. Lora compreendeu 
essa necessidade, alegrou-se com este xito extraordinrio e 
na noite anterior  partida, Balister deu uma festa por se 
sentir verdadeiramente feliz com a compreenso de Lora a 
respeito do triunfo de Moscovo. A festa s teve um pormenor 
deselegante: estavam espalhados pelo jardim dez polcias, que 
iluminavam o parque. O estripador desconhecido no tinha 
hipteses de atacar outra vez. Todos os convidados que iam 
passear pelo jardim e apanhar um pouco de ar fresco eram 
escoltados por dois guardas, ou ento passeavam-se  volta dos 
holofotes. Pemm - quem mais podia ser? - achou que isso era 
extraordinariamente empolgante e atractivo e quis integrar 
esta cena fantasmagrica no seu filme. Apenas com o pormenor 
de que o assassino apanhava a sua vitima, apesar do olhar 
vigilante da Polcia. Hunters, a quem Pemm havia relatado a 
sua ideia, suspirava de prazer.
Lora at foi levar Jrome ao aeroporto, beijou-o a ele e 
a Felicitas e acenou-lhe, at Balister ficar fora do alcance 
da sua vista. Depois, regressou a casa, onde encontrou o Dr. 
Meyer.
- Estou radiante! - disse Lora. - E o senhor sabe porqu?
- Estou muito interessado em saber a resposta - ripostou 
o Dr. Meyer. - Nem sou capaz de adivinhar.
- Durante todo este tempo acreditei que Jrome tinha um 
caso com Felicitas. Isso quase me despedaou! Mas agora sei 
que no  verdade. Fui uma pateta, senhor doutor. Felicitas  
fria como um cadver e s se preocupa com o seu trabalho e 
Jrome  demasiado comodista para se dar ao trabalho de 
derreter esse icebergue. Foi preciso muito tempo para que eu 
compreendesse isso. Se Jrome quisesse ter um relacionamento 
amoroso, seria com uma dessas bonecas que aparecem s centenas 
na televiso,  espera de uma oportunidade. Ele s precisaria 
de pestanejar para elas deixarem logo cair a roupa, como as 
folhas das rvores no Outono. Mas at para isso Jrome se 
tornou preguioso. Ele quer ter o seu sossego. Comigo! 
Finalmente compreendi isso. Quando Jrome regressar a casa, 
vai desejar no apenas a sua mulher. Ele prefere cem vezes 
mais uma boa bebida. - Lora riu-se aliviada. - Uma mulher 
casada tambm tem de aprender a entender isso. Agora eu sou 
capaz, senhor doutor!  esse o grande segredo.
O Dr. Meyer estava disposto a acreditar nisso. Para quem 
conhecia Lora, aquela explicao parecia boa e lgica. Ela 
voltava a ter Balister s para si, coisa que, h muito tempo, 
no acreditava ser possvel. Uma tal compreenso podia 
modificar totalmente uma mulher.

S no tinha contado com um pormenor: os correios to 
eficientes de Nova iorque haviam perdido uma carta.  uma 
coisa que acontece em toda a parte e ningum est livre disso. 
Uma carta voou da mquina de separao e foi cair debaixo de 
uma mesa, onde foi encontrada mais tarde. No entanto, de 
momento, ainda se encontra desaparecida.  perfeitamente 
desculpvel face aos milhes de cartas e postais dirios.
Darkster, porm, no perdoou. Esperou do dia 10 at ao 
dia 15 e se o dinheiro no fosse depositado na sua conta, 
consideraria isso como o comeo de uma recusa. Para prevenir 
qualquer tentativa de recuo e esclarecer com rigor que ningum 
podia brincar com ele, telefonou a Felicitas Saunders.
Por isso, ficou muito admirado quando lhe apareceu uma 
voz de homem a perguntar:
- Que se passa?
- Quem  voc? - perguntou Darkster imediatamente.
- No tem nada com isso! - disse Cummings no muito 
delicado. - Foi voc quem telefonou e tem de dizer o seu nome.
- Tenho, mas  uma merda! - gritou Darkster irritado. - 
Passe-me a senhora Saunders.
-No!
-  importante.
- Nada pode ser importante vindo de uma pessoa que no 
quer dizer o seu nome!
- Como quiser, seu palhao! - Darkster espumava de raiva: 
- Diga  senhora Saunders que ela se esqueceu de uma coisa! Se 
eu no a receber amanh, temos o caldo entornado!
- Ah, ento s tu, grande biltre! - disse Cummings 
satisfeito. - Seu chantagista! Agora ouve bem o seguinte:
no recebes nem mais um centavo! Se quiseres receber mais 
alguma coisa, vem at aqui receber pessoalmente.
- Tu no sabes do que ests a falar! - disse Darkster em 
voz rouca. - Se eu desabafasse, ento...
- Desembucha, patife!
- A tua senhora Saunders est liquidada!
- Quem acha isso, pode mijar-se de medo! - disse Cummings 
bem-disposto. - Cala o bico, rapaz, e vai procurar outra 
galinha dos ovos de ouro.
Darkster desligou, com o rosto congestionado. Tambm 
Cummings atirou com o auscultador, porque Rosa acabava de 
entrar, vinda do seu jogo de tnis, l fora no jardim. Tinha 
estado a bater bolas de encontro a uma parede de molas.
- Quem era ao telefone? - perguntou Rosa. - Era a mam de 
Moscovo?
- No - respondeu Cummings. - Era um idiota que se acha 
comediante. Queria vir fazer uma visita a Felicitas Saunders.
- Em casa da mam?  doido!
- Foi o que eu disse. Mandei-o para o estdio, para Pemm.
Ambos se riram, abriram os braos e atiraram-se ao 
pescoo um do outro. O seu amor era eterno e despreocupado.
Na noite do terceiro dia da sua estada em Moscovo
ainda no tinham podido falar com Brejnev, mas, em 
compensao, haviam tido uma recepo, em sua homenagem, na 
embaixada americana e fizeram um passeio ao mosteiro de 
Sagorsk, que fazia parte do itinerrio de qualquer programa de 
visitas. Hunters telefonou. A sua voz parecia sumida, como se 
tivesse p espesso a tapar-lhe as cordas vocais.

- Regressa imediatamente, Jrome! - disse Hunters. - 
Passou-se aqui uma coisa medonha! Apanha o primeiro avio.
- Mas o que se passa? - Balister olhou espantado para 
Felicitas, a qual tinha o ouvido esmagado de encontro ao outro 
lado do auscultador e tinha vestidas apenas umas cuecas 
diminutas. - Fomos  falncia?
- Vem imediatamente! - gemeu Hunters. - No posso fazer 
comentrios ao telefone! Felicitas deve ficar em Moscovo e 
fazer a entrevista. Mas tu tens de regressar j!
- Ests bbedo? - perguntou Ballister.
- Com um raio! Vem j! - gritou Hunters. -  uma ordem! 
Quero que voltes imediatamente!
Hunters atirou com o auscultador com um gemido.
Dez minutos mais tarde, enquanto Bailister explicava a 
Felicitas que Hunters devia estar completamente louco, porque 
se calhar tinha corrido com uma das suas novas bonequinhas, o 
Dr. Meyer telefonou. No havia excitao na sua voz; ao invs, 
era fria e reservada.
- Bailister,  indispensvel que voc venha! - disse o 
mdico. - H coisa de duas horas recebi um telefonema da sua 
criada. Havia qualquer coisa errada com Lora. Fui at l e ela 
estava na cama. A seu lado estava uma fotografia ampliada. 
Segundo me disseram, a carta tinha sido entregue por um 
rapazinho uma hora antes.  preciso dizer-lhe o que est na 
fotografia?
- No! - disse Bailister, afnico. - Oh, grande suno!
- Trouxe a fotografia imediatamente comigo, antes que 
mais algum a visse.
- Obrigado, senhor doutor. - Balister engoliu em seco 
vrias vezes. - O que disse Lora sobre o assunto?
- Nada. - O Dr. Meyer fez uma curta pausa. - Conseguiram. 
Lora morreu.

Captulo 12

Balister apanhou o primeiro avio para Nova iorque e 
deixou Felicitas sozinha com a equipa de filmagens em Moscovo. 
Da a dois dias teria lugar, no Kremlin, a entrevista com 
Brejnev. Um adiamento ou porventura uma recusa eram 
impossveis, porque no voltariam a obter autorizao para 
estipular uma nova entrevista. Felicitas compreendeu isso, mas 
ficou bastante chocada com a morte de Lora.
- A culpa  minha - repetia vezes sem conta. - Deve ter 
acontecido qualquer coisa com a ltima remessa de dinheiro! 
Mas eu juro-te, Jrome, eu juro-te que no foi de propsito!
- Isso sei eu! - disse Balister. - Ningum pe sequer 
essa hiptese.
- Claro que sim! No teu ntimo cresce agora a suspeita! 
Ests a pensar: talvez ela tenha feito de propsito!
- Faz-me o favor de no dizeres tantas asneiras!
- Eu vejo nos teus olhos e na tua maneira de olhar que 
no acreditas em mim!
- Por favor, no vais endoidecer agora! - gritou 
Ballister desesperado. - Nem tu nem eu temos culpa! O facto 
que contribuiu para a sua morte foi Lora ter recebido uma 
fotografia!
- De quem?
- Se eu soubesse! Mas tu ouviste: foi um rapaz que 
entregou a carta a Lora. Esperaram que ela ficasse sozinha!
- E agora, que vai acontecer?
Felicitas olhou para Balister com uns olhos esbugalhados e 
amedrontados. Pela primeira vez ele reparou que tambm 
Saunders podia ter medo. Naquele momento, ela no era mais do 
que as outras mulheres, que no conseguiam dar conta do seu 
desespero. A superioridade inquebrantvel que todos invejavam 
em Saunders desfez-se como uma maquilhagem mal feita.
- Foi uma morte vulgar, devida a um ataque de corao e, 
por isso Lora tambm ser sepultada normalmente - disse 
Bailister com voz rouca. - O doutor Meyer reagiu de imediato e 
guardou a fotografia. Para alm dele e de Lora, mais ningum a 
viu. Agora, resta aguardar, para ver se aparecem outras 
fotografias nas redaces dos jornais e das revistas.
-        E se isso acontecer?
S podia adivinhar como se daria o seu aniquilamento. 
Balister contemplou a parede do quarto do hotel. No
tinha resposta para essa pergunta, pelo menos nesse momento e 
o de Felicitas tambm. Talvez Hunters j soubesse mais alguma 
coisa do que quisera dizer ao telefone.
Balister defrontou-se com um pequeno caos  chegada a 
Nova iorque. Tinham removido Lora de casa, no para desmerecer 
a sua condio social, mas porque a Polcia confiscara o 
corpo. Portanto, as coisas estavam piores do que Balister 
havia pensado. O chefe da Brigada de Homi cdios chamou-o 
imediatamente aps a sua chegada e justi ficou a sua deciso 
da seguinte maneira:
-        J apareceram duas pessoas mortas em sua casa e 
agora  a vez de a sua mulher morrer de repente. Isso  uma 
coisa que d muito que pensar.
-        Ela sofria do corao e estava muito doente! - disse 
Balister. - Ou ser que a estrangularam na cama?

-        Mostraram-nos a certido de bito passada pelo 
doutor Meyer. No entanto, queremos examin-la oficialmente 
Finalmente, todas as mortes ocorrem por paragem cardia ca. Por 
favor, compreenda que, neste caso, temos de ser extremamente 
rigorosos.
Bailister no compreendeu e anunciou telefonicamente a 
Hunters e ao Dr. Meyer o seu regresso a Moscovo. Hunters 
explodiu imediatamente.
-        Meu rapaz, isso  uma pouca-vergonha!
-        O que  uma pouca-vergonha? - ripostou Balister 
calmo.
-        Lora tinha de morrer logo agora...
-        Volto a falar contigo quando te habituares a 
expressar-te de outra maneira - disse Bailister friamente. - 
Qualificar a morte de Lora como uma pouca-vergonha merece que 
te d um soco no queixo.
- Ouve-me, Jrome...
- No! Basta!
Balister desligou. Em compensao, dez minutos mais 
tarde o Dr. Meyer apareceu, olhou para Balister, acenando com 
a cabea, e retirou uma fotografia da sua maleta de mdico. 
Era uma ampliao, uma fotografia muito reveladora, que 
difundia uma vida alegre e inundada de sol. Ballister e 
Felicitas nus numa varanda a beijarem-se.
Balister ps a fotografia de lado. O Dr. Meyer 
pigarreou.
-  impossvel afirmar que se trata de uma montagem - 
disse o mdico. - A fotografia chega a ser um regalo esttico 
para a vista, apesar das suas banhas, Jrome! Voc devia fazer 
qualquer coisa para manter a forma. Em comparao com 
Saunders, voc parece estar em desvantagem. Infelizmente, Lora 
no tinha interesse pela esttica de uma tal arte.
- Se o senhor agora quiser dar-me uma sova, eu fico 
quieto - disse Balister deprimido.
- Porque deveria faz-lo? Por voc me ter mentido?
- O senhor teria contado a verdade?
- Numa situao destas e perante um mdico... sim! Teria 
tratado de Lora de outra maneira. Se eu tivesse sabido que 
voc tomava banhos de sol com Saunders e que usavam o mesmo 
travesseiro, teramos procurado uma alternativa. Juntos, 
Balister! E no a soluo que temos agora.
- No tenho nada a ver com a entrega da fotografia.
- Acredito em si.
- H meses que eu e Felicitas temos vindo a ser vtimas 
colaborantes da chantagem de um desconhecido. Ningum podia 
prever que, apesar disso, ele nos trairia!
- Ele no podia saber que Lora sofria do corao. Ele 
apenas quis dar um tiro no escuro, Ballister. - O Dr. Meyer 
deixou-se cair pesadamente numa poltrona. - Por que razo fez 
voc isto? No diga nada. Se se olhar para a fotografia com 
olhos masculinos, a resposta no oferece dvidas: possuir uma 
mulher assim  uma ddiva do destino. Mas diabos o levem! 
Quando se tem uma mulher assim e, ao mesmo tempo, uma esposa 
confiante, um homem tem de ser mais cauteloso do que o melhor 
dos espies russos! E, contudo, que faz voc? Pula fresco, 
inocente e nu na varanda de um hotel africano e, ainda por 
cima, deixa-se fotografar! Nunca o imaginei capaz de tanta 
estupidez!
- Quem iria pensar que algum nos ia espiar na Lbia?

- Quando uma pessoa tem algo para esconder,  preciso 
pensar sempre. - O Dr. Meyer olhou em redor como se estivesse 
 procura de alguma coisa. - Jrome, aqui em sua casa no h 
usque?
- E de que maneira! Irlands, escocs, ou bourbon?
- Bourbon! Sem gelo e com gua. - O Dr. Meyer voltou a 
meter a fotografia na sua maleta de mdico. - Vou queimar a 
fotografia, ou quer ficar com ela como recordao de Trpoli?
- Destrua-a! - Bailister trouxe o usque. - Quando posso 
enterrar Lora?
- Na prxima semana. A Polcia anda como doida. Contudo, 
o resultado da autpsia confirmou que Lora morreu de morte 
natural. S eu e voc sabemos a causa da morte, mais ningum.
- E o chantagista.
- Deve estar horrorizado com isto!
- No me parece. Aquilo  um tipo frio como uma pedra de 
gelo. - Balister encheu um copo para si. - Agora estou  
espera que apaream outras fotografias em outros lugares.
- Passe ao ataque, Jrome.
- Tem de me explicar como, senhor doutor.
- Deixe que se espalhe a notcia de que voc e Saun ders 
h muito tempo que esto juntos. Lora j sabia e aguardava 
pacientemente, porque a sua doena impossibili tava-a 
bastante. O casamento s se mantinha para salvaguardar as 
aparncias.
- Isso seria humilhante para Lora, senhor doutor.
-  verdade. Ela no podia defender-se! Mas as pessoas 
acreditariam nela, principalmente as poderosas associaes 
feministas! A sbita morte de Lora confirma a sua doena. Lora 
seria aclamada como uma nova santa. A mulher que com a sua 
morte trouxe uma nova felicidade para o marido. As lgrimas 
vo derramar-se como quedas de gua! Voc e Felicitas no 
seriam condenados, antes seriam eleitos o par do ano!
- O senhor  um finrio muito refinado, senhor doutor! 
Nunca o julguei capaz disso!
- E o chantagista pode deitar fora as fotografias. Vocs 
estaro livres de todos os pagamentos! Se o mundo inteiro 
souber do vosso relacionamento, para que servem as 
fotografias? Presume-se que houvesse jogos matinais 
provocantes! Voc ficaria livre Bailister! No entanto,
dava-lhe mais um conselho: case-se com Saunders o mais 
depressa possvel!
- Aquilo que o senhor prope , no mnimo, duvidoso!
- Comeo a pensar se ela ser, de facto, o seu grande 
amor!
- Para isso no  necessrio selo oficial.
 - Naturalmente. Contudo, perante a comunicao 
social faz melhor efeito se o virem a sair do registo civil. O 
mundo moderno ainda , de algum modo, antiquado. Na
minha opinio, ainda bem que assim ! - Meyer bebeu outro 
bourbon e suspirou profundamente. - E ento, que acha
da minha proposta?
 - Seria uma nova traio a Lora - disse Bailister, 
hesitante.
 - Seria a ltima, mas desta vez poderia salv-lo! Ou ser que 
quer tornar-se um mrtir e afundar-se em aleluias? A culpa 
moral, essa vai carreg-la at ao fim da sua vida, sem 
conseguir esquec-la! Todavia, daqui para o futuro tem

de usar um escudo imaculado. - O Dr. Meyer 
gesticulava com as duas mos. - Quer deixar isso comigo, 
Jrome?
 - O qu?
 - Limpar o seu nome! com os diabos,  preciso dizer 
que no  tarefa para um mdico deixar-se afeioar.  verdade!
Mas tambm j no consigo v-lo a si e a Felicitas 
arruinarem-se.  certo que enganaram Lora durante muito tempo.
Isso  um facto comum, mas eu tambm sei, Jrome, 
que voc fez tudo para proteger Lora e sujeitou-se  doena 
dela. Voc estava dividido e seria capaz de pagar at ir  
falncia para poupar Lora do desgosto de ver essas 
fotografias.
 -Sim.
 - Se bem que teria sido mais fcil para si ter 
mostrado as fotografias a Lora e desencadear o que acabou por 
acontecer. Desse modo, voc ficaria livre de tudo.
 - Por amor de Deus! Nunca pensei tal coisa! Nunca!
 - Eu sei. E  por isso que quero ajud-lo. Jrome, 
eu estou por dentro, e quanto mais depressa se espalhar a 
notcia melhor efeito produz, de toda esta histria que Lora
me confidenciou, depositando a sua confiana em mim, 
e sou testemunha de como ela foi magnnima. Dentro de
duas semanas, o mais tardar, a Amrica ter a sua 
super-histria de amor!
- No vai dar muito nas vistas? - perguntou Balister, 
aflito.
- Naturalmente. Mas voc j sabe como so as pessoas! De 
si e de Saunders, a menina bonita da televiso, espera-se o 
arrebatamento mais vulcnico! Quem tem sucesso j no tem 
direito a ter sossego! Embora, as palavras sucesso e sossego 
comecem pela letra "s", em termos de associao esto mais 
distantes uma da outra, na medida em que quanto mais uma 
aumenta, mais se procura a outra. Na vida h um preo para 
tudo. - O Dr. Meyer bebeu o seu terceiro bourbon. - Ento, em 
que ficamos, Balister?
- Faa como quiser, senhor doutor. - Balister tapou os 
olhos com as duas mos. - Confesso que, de momento, tudo me  
indiferente. Pela primeira vez, conseguiram acabar co migo.
 noite, Balister telefonou a Felicitas, para Moscovo. 
Quando finalmente ouviu a voz dela, perguntou-lhe sem rodeios:
- Queres casar comigo, Lici?
-  tudo o que tens para dizer-me agora? - perguntou 
Felicitas, embaraada.
- No achas suficiente?
- Vo apedrejar-nos.
- Pelo contrrio, vo alagar-nos com lgrimas de 
felicidade.
- Andaste a beber, Jrome?
- Muito pouco. No entanto, sinto-me como um monte de 
esterco. O doutor Meyer tem um plano, segundo o qual temos de 
casar de imediato, assim que se realizar o funeral de Lora. 
Era esse o desejo de Lora.
- Ests doido?
- Posso ficar, Lici! Queres casar comigo?
- Quero!

- Ento, ptimo. - Bailister sentiu o seu corao a bater 
com fora. Estava a contar com um "no". - Acho que no vai 
haver nenhuma catstrofe...

Sobre Arthur Darkster podia pensar-se o que se quisesse. 
Que ele era um vigarista no havia dvidas, mesmo tendo 
aproveitado uma oportunidade, e de repente, ter-se-lhe 
deparado um filo de ouro, pronto a acabar com os seus anos de 
privao. Apesar de todos os defeitos prprios da natureza 
humana, uma coisa ele no era: um desses gansters implacveis, 
cujo maior interesse na vida era um bom cocktail! No fundo, 
Darkster era uma mistura de desejos confusos e ansiedade 
tolhida. Esta era, precisamente, a mistura que estava 
predestinada a nunca triunfar: a sua repentina carreira de 
chantagista foi, incontestavelmente, o ponto mais alto da sua 
vida, um pico nico que no voltaria a atingir.
A notcia da sbita morte de Lora Ballister, devida a um 
ataque de corao, apanhou-o, por isso, como uma cacetada. O 
facto de a morte estar relacionada com a fotografia enviada 
nem sequer lhe ocorreu. Preferiu ver o caso por outro prisma, 
mais exactamente como um golpe do destino contra si. Com a 
morte de Lora terminara a maior ameaa de Ballister. O 
escndalo de um divrcio, onde se lavaria muita roupa suja, 
estava posto de lado. O impacte que as fotografias causariam 
na imprensa fora agora reduzido para metade. Uma vez que Lora 
Bailister j no vivia, no haveria mais lugar a conflitos 
entre ela e Felicitas Saunders, o que seria essencial para 
este caso! O pnico de Bailister sobre a exposio pblica do 
seu caso amoroso estava agora completamente posto de lado. Se 
Ballister continuasse a pagar, seria uma besta. Tambm 
Felicitas j no tinha mais razes para transformar Darkster 
num pensionista rico, uma vez que, aps o perodo conveniente 
de luto o caminho que a levava a Balister estaria livre!
Darkster percebeu isso e ficou muito inquieto. O ponto 
alto da sua vida converteu-se num precipcio. Embora tivesse 
conseguido obter dezoito mil dlares at agora, essa quantia 
era ridcula em comparao com os milhes com os quais estava 
pronto para fazer malabarismos.

Para se inteirar de como estava o ambiente em casa de 
Balister, Darkster voltou a transformar-se em reprter e 
dirigiu-se para a vivenda dos Balister. Estava aberta a toda 
a gente, enquanto Lora no fosse a sepultar. Montou-se uma 
mesa no enorme vestbulo, onde as pessoas podiam assinar um 
livro de condolncias e depositar flores. Foi uma ideia da 
agncia funerria Kolchynsl:i e Popov, os maiores 
especialistas de Nova iorque nesse ramo. Ballister tinha sido 
contra a ideia, mas tanto Hunters como o Dr. Meyer eram de 
opinio de que deveria fazer-se alguma coisa do gnero, porque 
nada era de mais! E assim, Kolchynski e Popov puseram a sua 
ideia em prtica e tambm colocaram quatro altifalantes no 
vestbulo da vivenda de Bailister, os quais difundiam msica 
fnebre, desde a marcha fnebre da pera Siegfried de Wagner, 
at  Msica Aqutica de Hndel; no entanto, ningum percebeu 
a razo de inserir uma tal pea musical numa ocasio como 
essa. A intercalar, tocavam a Ave Maria de Bach-Gounod e a 
cano Jesu geh voran. .. e tambm alguns Nocturnos de Chopin. 
Ballister fugiu desta exibio, principalmente quando os 
homens da Kolchynski e Popov comearam a enfeitar o vestbulo 
com loureiros em vasos e a prenderem vus negros nas paredes. 
Uma rapariga de cabelos negros e vestida com um fato de cetim 
preto, diabolicamente sedutor, estava ao lado da mesa de 
condolncias e entregava a esferogrfica, para que a pessoa 
assinasse. Como se dizia, Kolchynski e Popov entendiam que a 
sua profisso devia dignificar os mortos.
Arthur Darkster assinou o livro como toda a gente e 
passou resolutamente para as salas interiores. J conhecia o 
caminho. Estavam presentes pessoas da famlia, sentados no 
jardim de Inverno.
Darkster teve sorte. Nessa sala viu Rosa, a filha de 
Felicitas, acompanhada de um homem alto e de ombros largos, o 
qual estava de costas viradas para si e olhava l para fora, 
para o jardim. Era Red Cummings. Desde a morte de Lora que ele 
tinha ficado muito calado e pensativo. Andava s voltas, 
aflito, e culpava-se sistematicamente por aquela morte, por 
no ter dado ouvidos ao chantagista. Rosa tentou inutilmente 
dissuadi-lo, mas Cummings apenas lhe respondia:
- Tu sabes, Rosa! Tu sabes! Se no fosse eu, Lora ainda 
podia estar viva!
Cummings dissera o mesmo a Balister e foi assim que se 
soube que Red e Rosa sabiam da chantagem e que Cummings havia 
falado com o desconhecido.
- A culpa foi minha! - insistiu Red. - Pode consolar-me o 
quanto quiser, sir. A sua mulher ainda estaria viva hoje se eu 
tivesse reagido de outra forma. Se eu adivinhasse o que estava 
por detrs de tudo aquilo! Como posso emendar o que fiz?
- Se voc realmente quer casar com Rosa, nunca a engane - 
disse Ballister sarcstico. - E principalmente nunca se deixe 
fotografar.
Neste momento Darkster entrou, tocou levemente no chapu 
e disse divertido e despreocupado, como convinha  sua 
profisso de reprter.
- Deus esteja convosco, meus caros! Ser possvel ter uma 
conversa convosco sobre os acontecimentos passados?
Rosa olhou para ele com pouca simpatia e calou-se. Por 
seu lado, Cummings endireitou os ombros e voltou-se devagar. 
Neste espao de segundos, o corao de Darkster deu um salto e 
depois ficou quase como que paralisado.
Ento, lembrou-se daquela cabea. Aqueles olhos frios! 
No eram os mesmos daquela pessoa que surgiu por trs de si 
naquela noite em que Tito Varone fora estrangulado no lago? 
Viu aquela cabea de relance s quando caiu e se virou meio 
desmaiado, antes de mergulhar na total escurido. E, mais 
tarde, no cemitrio, no meio dos acompanhantes do funeral... 
quando conseguiu dar o alarme, o homem desaparecera. Mas agora 
ali estava ele, macio, de ombros levantados, ao p de Rosa 
Saunders, na vivenda dos Balister, e examinava-o com olhos de 
carneiro mal morto.
Darkster abriu a boca e quis soltar um grito. No entanto, 
reagiu com o instinto de um animal, deu meia volta e
apeteceu-lhe fugir dali. Cummings no deixou. Num pulo veio 
pr-se atrs de Darkster, meteu a mo ao bolso do casaco, 
arrancou um pedao de corda, de cnhamo e passou-a  volta do 
pescoo de Darkster.
Atrs de si, ouviu Rosa soltar um grito estridente:
- Red! - gritou ela. - Por amor de Deus! Red! Que ests a 
fazer? Red!

Cummings respirou fundo. Com a corda puxou Darkster para 
trs. Depois cruzou as mos e apertou. Darkster soltou um 
grito abafado, debateu-se, mas no mesmo instante algo estalou 
na sua garganta. O esmagamento da laringe foi um som que 
penetrou no crebro e o ar comeou a faltar. Darkster ainda 
conseguiu abrir muito a boca e gesticular com os braos, mas 
depois morreu com a sensao de ter os olhos cheios de 
lgrimas.
Rosa atravessou o salo a correr e aos gritos. Cummings 
olhou para ela com um olhar vazio, arrastou o corpo sem vida 
de Darkster at um sof e atirou-o l para cima. Em seguida, 
sentou-se ali perto, numa cadeira de vime de costas altas, 
atirou com a cabea para trs e fechou os olhos.  sua volta 
havia o mais profundo silncio. Cummings j no ouvia mais 
nada. O mundo era um vcuo.
Foi assim que o tenente da Brigada de Homicdios veio 
encontr-lo. Cummings estava sentado perto do corpo de 
Darkster, com a corda esticada entre as duas mos. Era um 
pedao de uma corda de saltar, como as que utilizam os 
pugilistas para relaxar os msculos das pernas. Cummings 
deixou que lhe tirassem a corda, sem oferecer resistncia. 
Aptico, seguiu os agentes at ao carro e nem sequer foi 
necessrio algem-lo. Em compensao, foi preciso chamar
o Dr. Meyer para acalmar Rosa, em estado de choque. O clnico 
aplicou-lhe uma injeco e deu-lhe um calmante.
Balister veio da cidade enfurecido e como doido. O que 
lhe tinham dito pelo telefone era to inacreditvel que ele 
no percebeu logo de imediato. A Brigada de Homicdios ainda 
estava na sua casa, na recolha de dados. Darkster continuava 
estendido no sof de boca aberta, de onde escorria um fio de 
sangue. Tinha a garganta esmagada e os dedos horrivelmente 
enclavinhados. O contedo dos bolsos do seu fato estava 
espalhado em cima de uma mesa e j tinha sido examinado. O 
tenente havia chegado um pequeno rolo de fotografias junto de 
um candeeiro e contemplava os negativos.
-  boa! - disse o polcia quando Balister irrompeu pela 
sala. - Quem haveria de pensar. O namorado da pequena 
Saunders! Campeo de boxe da universidade. Estrangulou os 
outros com uma corda de saltar. Quem podia imaginar? Agora s 
precisamos do motivo! Que tem o senhor a dizer sobre isto?
- Estou sem palavras! - disse Balister com voz rouca. - 
Isto  perfeitamente incompreensvel para mim.
- Para mim, tambm! - O tenente estendeu o rolo de 
fotografias a Bailister. - Darkster tinha isto no bolso. 
Fotografias comprometedoras. Dois pombinhos na varanda! Deve 
ser um par particularmente empolgado! Estou ansioso por saber 
quem so, mal o rolo seja revelado.
- Eu! - disse Balister lacnico.
- Eu o qu?
- Sou eu que estou nas fotografias, com uma senhora 
igualmente conhecida. O tenente pode imaginar a sensao de 
aniquilamento que isso pode causar se se permitir a divulgao 
dessas fotografias!
Bailister lanou um olhar a Darkster. Assim morto tinha 
um ar menos inofensivo do que em vida. "Com que ento era 
ele", pensou Ballister. "Como foi possvel eu no ter reparado 
neste reprter insignificante na Lbia? Como conseguiu ele 
andar no nosso encalo? Era preciso saber de tudo

com antecedncia." O enorme medo em relao ao prncipe Khalif 
no tinha razo de ser, porque um homem como Darkster era 
fcil de arranjar.
- Isso  um motivo? - perguntou o tenente e voltou a 
enrolar o rolo de fotografias.
- Custa-me a crer. Cummings no fazia a menor ideia sobre 
quem era Darkster.
- E o senhor?
- Eu sei-o h precisamente trinta segundos e foi o senhor 
quem mo disse! - Balister estendeu a mo. - D-me o rolo, 
tenente?
- Uma prova? Peo-lhe...
- Uma prova de qu? Apenas de um amor clandestino! A 
Polcia tem alguma coisa a ver com isso?
- O senhor recebe o rolo de fotografias quando a 
Procuradoria da Repblica o libertar. Vai ficar guardado! Est 
satisfeito?
- Mais ou menos...
- No posso fazer mais nada por si. Ou ser que o senhor 
julga que a Polcia no sabe ser discreta?
- S posso desejar que sim. - Balister hesitou e depois 
disse, numa voz um pouco fraca: - Quero queimar o filme.
-  assim to comprometedor?
- No preciso de fotografias do que j  meu. Vou
casar-me com essa senhora dentro em breve.
O tenente abanou a cabea e olhou para Balister 
pensativamente.
- J temos o resultado da autpsia da sua mulher. Foi 
indubitavelmente um ataque cardaco. Morreu em alguns 
segundos. O senhor teve uma sorte danada por a sua mulher no 
ter visto essas fotografias.
- Sim,  verdade - disse Bailister calmamente. - No 
azede essa minha sorte por causa do seu trabalho...
No andar de cima, Balister encontrou o Dr. Meyer num dos 
quartos. Rosa estava deitada, inerte, na cama, e as cortinas 
achavam-se semicerradas.
- Como est ela? - perguntou Bailister.
- O choque foi forte. Contudo,  suficientemente jovem 
para super-lo.
- Red Cummings! O senhor encontra alguma explicao para 
isso?
- No. J desisti de procurar explicaes para o que 
acontece nesta casa. Embora eu seja o seu mdico assistente, 
Jrome, esta famlia tambm consegue fazer com que eu precise 
de um mdico! E agora, que temos?
- Espero que tenhamos a normalidade!
- No pronuncie essa palavra! - O Dr. Meyer ergueu os 
dois braos, como se estivesse horrorizado. - Esta palavra 
pode trazer novas catstrofes  sua volta! Como se nesta casa 
houvesse uma vida normal...


Lora foi a enterrar sob a direco de Kolchynski e Popov. 
Foi uma espcie de funeral oficial, pelo que se pagou  volta 
de dez mil dlares. Seis anjos com gigantescas folhas de 
palmeira rodeavam o caixo e cantavam uma msica coral, 
enquanto a urna descia  terra. Sobre a tampa fez-se um plio, 
como se se tratasse de uma coroao. Bailister achou tudo 
aquilo muito desagradvel, mas Hunters e o Dr. Meyer 
explicaram-lhe a importncia desta encenao. A aco secreta 
de Meyer j estava a produzir frutos. Dos mais de mil 
acompanhantes do funeral, dois teros eram mulheres que 
pertenciam a associaes feministas. A sua compaixo era 
comovente. Alm disso, Felicitas Saunders, com um simples 
vestido preto e um pequeno vu, veio juntar-se a Balister 
perto do tmulo, deu-lhe o brao e depositou um grande ramo de 
rosas sobre o caixo. As pessoas segredavam umas para as 
outras que tinha sido esse o desejo de Lora. O facto de 
Balister ir casar-se com Saunders o mais depressa possvel 
era agora evidente. Duas noites antes, tinham podido admirar 
novamente Felicitas na televiso. Meia Amrica a ouviu, 
enquanto fazia perguntas a Brejnev e o soberano do Kremiin lhe 
respondia pacientemente. Se lhe queriam dar algum homem, ele 
era Balister.
O enterro de Darkster foi menos pomposo. Como no 
apareceu ningum da famlia a reclamar o corpo, levaram-no 
para o Instituto de Medicina Legal, onde o prepararam. Com 
ele, alguns jovens estudantes aprenderam, mais tarde, a fazer 
os primeiros cortes num corpo humano.
Sobre Red Cummings, as primeiras notcias que tiveram 
foram atravs do Dr. Meyer. Fizeram uns exames a Cummings numa 
clnica de neurologia e elaborou-se um relatrio. A opinio 
dos especialistas punha em dvida se ele deveria, alguma vez, 
ser levado a tribunal. O Dr. Meyer explicou esse ponto de 
vista da seguinte maneira:
- H mais ou menos trs anos Cummings ficou KO num
combate de boxe e lesionou-se com alguma gravidade. Andou um 
pouco confuso e perturbado durante quase duas semanas, mas 
ningum prestou muita ateno. Cummings no foi examinado, no 
lhe tiraram nenhuma radiografia, nem lhe prestaram qualquer 
tratamento mdico. Aps ter ficado KO, esse indivduo robusto 
foi deixado  solta. Tambm nunca ningum reparou que ele 
tinha uma hemorragia cerebral, a qual estava, contudo, 
localizada. Quando a hemorragia estancou, formou-se um grande 
cogulo de sangue no crebro e um hematoma, que ficou latente. 
No entanto, nos ltimos tempos, o crebro reagiu de uma forma 
emocional estranha. O hematoma comprimiu uma parte especfica 
do crebro, de tal forma que baralhou a conscincia pelo que 
est errado e provocou uma necessidade de destruio e 
aniquilamento. Quando Cummings fica nesse estado, tem 
simplesmente de matar algum, porque  isso que o seu crebro 
lhe manda fazer. Ele no compreende nada do que est a 
exterminar... s muito mais tarde se d conta disso e esse 
reconhecimento desencadeia um novo perodo de impulso de 
matar. Naturalmente que isto  uma descrio simplificada, 
Cummings no  responsvel pelos seus actos. Foi o destino 
macabro de Varone e de Barley atravessarem-se precisamente no 
seu caminho e transformarem-se em vtimas  fora. Santo Deus! 
Quando penso em tudo o que poderia passar-se se eu no tivesse 
descoberto e se ele tivesse casado com Rosa!
- Um dia tambm a mataria a ela! - disse Felicitas sem 
entoao.
- No me parece.
O Dr. Meyer olhou  sua volta, como se estivesse  
procura de alguma coisa. Balister j conhecia esse sintoma e 
levantou-se.
- O bourbon sai j de seguida! - disse.

- Cummings apoiava-se em Rosa e tinha por ela um amor 
servil. Isso  o mais terrvel: Rosa nunca notaria nenhuma 
alterao nele. Deixar-se-ia dominar por ela como um animal e 
subordinar-se-ia a ela por completo. - O mdico pegou no copo 
que Balister lhe estendia e ergueu-o para Felicitas, em jeito 
de brinde. - Como esto as coisas convosco? Quem tem aqui a 
palavra final?
- Quanto a isso ainda no chegmos a um acordo!
disse Felicitas sem pensar. - De momento, est prestes a 
rebentar uma nova exploso.
- Oh, no!
- Ela quer ir at  fronteira entre a Rssia e a China e 
ao rio Ussuri e filmar nesse stio!  uma loucura!
- E vou! - disse Felicitas em voz alta. - Nunca uma 
mulher esteve nesse lugar!
- Justamente! E  por essa razo que eu o probo! - 
Bailister ergueu as duas mos. - Senhor doutor, por favor, 
ajude-me a combater esta mulher terrvel!
- Vou tomar muito cuidado! - O Dr. Meyer esvaziou o copo: 
- No quero imiscuir-me nos assuntos desta famlia mais do que 
o necessrio! Alcanar a fama atravs de loucuras  uma coisa 
que vos cedo com muito gosto! - O mdico pousou o copo e olhou 
para Bailister, como se se tivesse esquecido de alguma coisa. 
- Quando poderei finalmente ver essas fotografias? No  justo 
que me faam vosso confessor em relao a todos os vossos 
assuntos e que depois me ocultem essas lindas fotografias.
- Teve azar, senhor doutor. - Felicitas pousou a mo 
sobre o joelho. - Assim que o rolo de fotografias foi 
devolvido pela Procuradoria da Repblica, queimei-o 
imediatamente.
- Foi uma questo de princpio - acrescentou Balister. - 
Assim, resolveu-se de vez esta complicao. Alm do mais, j 
no tinham valor nenhum. O mundo inteiro sabe do nosso amor e, 
para isso, j no precisamos de fotografias documentais. 
Queremos ser felizes em paz.
O telefone tocou. O Dr. Meyer soprou para dentro do seu 
copo vazio, o que produziu um som lmpido.
- Tantos desejos que se mantm em aberto - disse o mdico 
apreensivo. -  o Hunters. Vem at c para nos confortar.
Bailister pegou no auscultador e levou-o ao ouvido. Era 
realmente a voz retumbante de Hunters.
- Jrome! - latiu Hunters. - Felicitas est a contigo? 
Diz-lhe que recebi uma indicao! Dentro de uma semana estar 
c a autorizao para ela ir  China e ao Ussuri!
- Ela no vai! - gritou Balister.
- E h mais. Pemm alterou o filme que estava quase 
pronto. Esta nova descoberta deixou-o completamente 
paralisado. Esse cogulo de sangue no crebro de Cummings, os 
assassnios, a chantagem de Darkster... meu rapaz, com isto 
sonham em vo geraes de realizadores de televiso. Pemm 
escreveu um novo argumento. Inclusive, leu-me o esboo. Quase 
dei saltos de contentamento! Nunca se viu tal coisa na ACF! E 
sabes como ele quer chamar o filme? O Lado Obscuro da Fama. E 
que tal, Bailister, qual  a tua opinio.
Bailister calou-se. Olhou para o Dr. Meyer com uma 
expresso angustiada e desligou o telefone, sem dizer uma 
palavra. Depois, dirigiu-se  janela, olhou l para fora para 
o jardim e perguntou-se se a vida podia agora ser classificada 
como porca ou grandiosa.

Em todo o caso, alcanara-a e vivia-a num misto de uma 
relao de amor-dio.

Fim
